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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Buu!!!

Halloween, o dia das bruxas. Nos últimos anos tenho observado que mais e mais ingleses se rendem ao modismo americano, apesar de muitos deles torcerem o nariz para os hábitos dos descendentes, que vivem do outro lado do Atlântico. O que muita gente não sabe é que, ao cruzar o oceano, o Halloween está de volta para casa.

Halloween era uma tradição celta que, na noite do 31 de outubro para primeiro de novembro, celebrava o fim das colheitas e marcava o começo dos dias escuros e frios do inverno anglo-saxão. Os romanos, governados pelo imperador Cláudio, invadiram essas terras em 43 d.C. e importaram a tradição pagã, que foi incorporada ao calendário cristão. Halloween vem de All Hallows’ Eve, que significa véspera de Todos os Santos.

Aqui na Ilha, a tradição sobreviveu repaginada. Uma delas era colocar uma vela dentro de um nabo, para espantar os maus espíritos, no estilo das carrancas que enfeitam os barcos. No século dezenove, muitos irlandeses que sofriam com a escassez de alimentos, conhecida como a fome das batatas, imigraram para os Estados Unidos. Lembra daquela lei universal que diz que a necessidade é a mãe da criatividade ou, no popular, ‘se só tem tu, vai tu mesmo’? Pois é, como as abóboras eram muito mais abundantes que os nabos, a tradição foi adaptada.

Além de nabos iluminados, os celtas usavam máscaras para espantar os ‘coisa ruim’ e também ofereciam algumas prendas (no melhor estilo despacho de macumba). Na terra da oportunidade de negócios, virou ‘doces ou travessuras’ – a frase que ficou mundialmente conhecida graças ao principal embaixador da cultura americana: Hollywood. Foi na década de 70, que filmes como E.T. começaram a tornar a brincadeira popular e atraente ao redor do globo.

Os britânicos são mais reservados do que nós os latinos. Privacidade é um direito sagrado para eles. Não gostam de estranhos chegando sem serem convidados. Por isso, aos poucos a etiqueta do Dia das Bruxas vai sendo escrita, sem palavras, como em tantas outras convenções sociais.

É de bom tom bater apenas na porta das casas que estão enfeitadas, ou que tenham uma abóbora decorada na frente. Meus conhecidos combinam com os vizinhos de antemão. Mas esta tradição de deixar velas acesas custou caro para uma menina de oito anos. Matilda é filha da apresentadora de tevê Claudia Winkelman.

No Halloween de 2014, elas participavam de um ‘doces ou travessuras’, quando a fantasia da menina encostou numa vela acesa. Matilda virou uma bola de fogo, sofreu queimaduras terríveis e precisou passar por várias cirurgias reconstrutivas. Claudia começou uma campanha para conscientizar os pais sobre a qualidade do tecido das fantasias baratas e altamente inflamáveis. Ela deu várias entrevistas, que são repetidas exaustivamente nas redes sociais nesta época do ano.  Reparei no supermercado hoje que, ao lado das fantasias, havia um aviso dizendo para mantê-las longe do fogo.

Doces e mais doces

Ano passado participei com a minha filha, e um bando de crianças, do Halloween. Ao abrirem as portas de suas casas e distribuírem balas e chocolates, muitas pessoas diziam: Happy Halloween (Feliz dia das Bruxas)! Feliz dia das bruxas? O que isso quer dizer? Fiquei encafifada.

Apesar de a festa estar se tornando mais popular aqui na Ilha, ela ainda encontra algumas resistências e não só porque é um modismo americano. Outro dia perguntei a uma conhecida se ela ia levar os filhos para o ‘doces ou travessuras’. Ela respondeu que era batista e, por isso, que não celebra o dia das bruxas. Nunca tinha enxergado por esse lado. Não quis provocar  polêmica e nem saia justa. Fiquei pensando que talvez ela tema que os pagãos roubem dos cristãos, o que um dia eles levaram dos celtas…

Apesar de achar que, de certa forma, seja um culto ao consumo, pra mim o Dia das Bruxas não celebra nada. É como o carnaval, uma festa de origem pagã, que oferece a chance de sair fantasiado pela rua e se divertir, sem ter medo do ridículo.

Fantasmas nas ruas

Saiu nos jornais o resultado de uma pesquisa encomendada pela Igreja Anglicana. 40% das pessoas nesta Ilha não acreditam que Jesus seja um personagem real e sim uma invenção religiosa. Mas, curiosamente, 57% dos mais de 4 mil entrevistados se dizem cristãos, embora menos de 10% frequentem a igreja. O segundo grupo mais popular é o dos que se dizem ateístas,12%. Depois vêm os agnósticos 9%, mulçumanos 3%. Judeus e hindus representam 2% da população. Talvez esta pesquisa dê uma pista do sucesso crescente das festas do Dia das Bruxas.  Não consegui encontrar números desta Ilha, mas nos Estados Unidos, o Halloween representa quase sete bilhões de dólares em negócios todos os anos. Uma oportunidade de ouro para incrementar o comércio antes do natal. As quinquilharias do Dia das Bruxas estão por todos os lugares nas lojas. São fantasias mil, teias de aranha falsas, biscoitos em forma de esqueleto, bolos com cobertura verde e balas para dar, vender e jogar fora.

Descartar é a parte do Halloween que me causa um certo desconforto. Eu sei que é rabugice, que as crianças adoram e que o Dia das Bruxas vai fazer parte da memória delas, como as nossas brincadeiras de criança ficaram nas nossas. Entretanto,  não consigo deixar de pensar que essa tralha toda vai acabar num lixão. Vai levar algumas centenas de anos para que esse lixo desapareça. Antes que alguém fale alguma coisa, tenho a mesma sensação quando vejo as casas empetecadas com milhares de luzinhas chinesas para o natal.
Fazer o quê, né? Cada um que lide com a assombração que lhe atormenta.

Buuu!

 

 

7 comentários em “Buu!!!

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