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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Airbnb: a bola da vez

Vamos fazer um exercício de abstração. Nem dói, prometo. Olhe com atenção para o mapa desta Ilha e imagine que ele se pareça com uma lebre assentada, vista de lado. No Leste, bem ao sul, o pompom é o rabo do bicho. Achou? Agora leve os olhos até a ponta oposta, no Oeste, um tiquinho mais ao sul, no que parece ser uma das patas da orelhuda. O trianglinho no pé do mapa. É lá que fica Cornwall, Cornualha, para nós.

Mapa do Reino Unido

A Cornualha é uma região maravilhosa. Os rochedos despencam dos céus e desafiam as ondas, criando relevos dramáticos. São centenas de praias e colinas verde-escuro de tirar o fôlego. Vilas centenárias de pescadores e mineiros. É o paraíso dos escritores românticos. Aparece em várias obras do gênero. O herói sempre é um homão, bonitão, rosto anguloso, ombros largos. A heroína, além de uma longa lista de atributos físicos, é também destemida, inteligente e dona de uma língua afiada. Quer um exemplo? Ross e Demelza, da série Poldark (da BBC), baseada num romance histórico e que encanta uma legião de fãs todos os anos por aqui.

Demelza e Ross na Cornualha

Talvez o romantismo associado à região, combinado com sua beleza natural, seja o que atrai tantos turistas para lá. Os filhos da terra têm sentimentos digamos, bipolares, com relação ao fenômeno, que se repete todos os verões. Gostam de ver o dinheiro entrando, sentem orgulho de seu canto no mundo, mas se incomodam com a invasão. Há anos, eles se ressentem dos londrinos endinheirados. Com suas carteiras recheadas, eles inflacionam o mercado imobiliário. Os moradores locais, que recebem salários menores do que os que Londres oferece, acabam sem ter como bancar uma casa na região. E não é só isso, propriedades, que passam grande parte do ano fechadas, são péssimas nos meses de baixa temporada. Como o padeiro, o peixeiro ou açougueiro conseguem sobreviver assim, sem clientela?

Está certo, não é só por aqui que este fenômeno acontece. Tanto que, a atual onda nacionalista, que provoca de marolas a maremotos pelo mundo afora, agora mira seu olhar para o priminho estrangeiro do imigrante: o turista. Neste verão europeu de 17, marchas anti-turismo pipocaram de Veneza à Barcelona. Paredes foram pichadas, ônibus vandalizados e turistas hostilizados por moradores locais, que acreditam que, a alegria de uns destrói a comunidade de outros.

Grafite em Barcelona compara turistas a terroristas

Com quase nove milhões de habitantes, Londres tem mais bala na agulha do que a Cornualha, com pouco mais de meio milhão de almas. A capital ama os turistas, thank you very much! Com a libra fraca, devido ao Brexit, Londres anda mais popular do que nunca, apesar de apresentar queda nas visitas, logo após os atentados terroristas. Os americanos, eternamente fascinados pela monarquia, castelos e um passado, que não é deles, foram os que vieram em maior número e deixaram mais libras por aqui.

O curioso é que, veio de Nova Iorque um alerta para Londres: ou vocês fazem como nós e regulamentem o Airbnb, ou vão acabar chorando o leite derramado. O salto de um assunto para o outro foi muito abrupto? Calma aí.

 

Primeiro, algumas informações de bastidor. Existe nesta Ilha um gigantesco déficit habitacional. Quem teve a chance de dar uma volta no London Eye, a roda gigante mais famosa de Londres, deve ter observado que não há um lotezinho vago sequer no centro da capital inglesa. Como então criar novas moradias e acomodar a população, que não para de crescer?

Muita demanda, pouca oferta. A receita é antiga e o resultado é garantido: aumento de preço. Quem precisa recorrer a um empréstimo bancário para comprar um imóvel, em geral pode pedir um valor até quatro vezes maior do que sua renda anual. Em 2015, de acordo com o Office for National Statistics (o IBGE deles), o preço médio de uma propriedade por aqui era de £472mil (pouco mais de dois milhões de reais). O que representa 13.5 salários anuais da média da população. Ou seja, ou o sujeito tem uma senhora economia guardada para dar de entrada, ou nada feito. Para completar, mesmo numa época de juros baixíssimo, o aluguel não para de crescer, o que força muita gente para fora da capital.

Para jogar sal na ferida da falta de moradia em Londres, chegaram o Airbnb e outras plataformas, que permitem que se alugue de um quarto a uma casa inteira por um curto período de tempo. Estima-se, que só em Londres, o Airbnb ofereça 65 mil propriedades. Os turistas adoram, porque em geral fica mais em conta do que um hotel. Os proprietários de imóveis estão satisfeitos, com a possibilidade de engordar o orçamento. Mas por que a choradeira?

O mercado imobiliário altamente competitivo de Londres acaba produzindo umas excrecências ilegais: proprietários que se negam a alugar seus imóveis para estrangeiros, famílias, negros, mulçumanos, asiáticos, a lista é enorme. De vez em quando, aparece uma reportagem com uma câmera escondida, em que um corretor confessa que tem restrições a um tipo ou outro de inquilino.

Por essas e por outras, os administradores de Westminster, o bairro onde fica o Parlamento, estão preocupados. Depois da suspensão da licença do Uber, querem que o Airbnb seja melhor regulado. O Airbnb é a bola da vez dos críticos da chamada economia compartilhada. Desde 2015, quando o setor ficou livre de regulamentações, o número de imóveis oferecidos pelo aplicativo em Westminster subiu 126%.

Existe uma auto-regulamentação no Airbnb. Em teoria, proprietários não podem alugar seus imóveis por mais de 90 dias por ano. Em teoria. Na prática, as administrações regionais não têm como fiscalizar. Donos de imóveis dão um jeitinho aqui, outro ali, para burlar as regras. Uma delas é ter várias contas com nomes diferentes. Outra é mudar um pouco o endereço anunciado. Um  dá o nome da rua, outro diz que a propriedade fica próximo ao monumento ‘x’, por exemplo.

Nova Iorque e Berlim baixaram regras, para tentar minimizar o problema da falta de moradias de aluguel de longo prazo. Quem aluga a propriedade por menos de 30 dias, paga uma multa salgada. Mais uma vez, quem é que vai fiscalizar?

O Airbnb pode ser o maior, o mais famoso, mas não é a única plataforma que oferece este tipo de negócio. Tem também o ‘Booking.com’, ‘onefinestay’ e o ‘Veeve’, que não são regulamentados. Se o proprietário quiser, pode variar de website e tudo bem.

Entra governo, sai governo e a promessa é sempre a mesma: vamos construir centenas de propriedades com preços populares. O Conservadores, atualmente no poder, apesar de afirmarem que vão bancar milhares de novas moradias, não se empenham tanto assim. Nick Clegg, o liberal-democrata, que participou do governo de coalizão de David Cameron, deu uma entrevista interessante outro dia. Segundo ele, durante seu período no poder, casas populares não foram construídas, porque os Tories (Conservadores) acreditavam que eles iriam construí-las para que eleitores dos Trabalhistas pudessem morar nelas e, no fim das contas, votarem contra eles.

Mesmo quando o assunto não é moradia popular, a questão habitacional é uma encrenca por aqui. As cidades têm enormes áreas verdes, que são intocáveis. São matas, prados e parques. Para alguns especialistas, algumas destas áreas poderiam ser usadas, sem causar um impacto ambiental significativo. Novos empreendimentos imobiliários nesta Ilha levam anos para sair do papel, devido à burocracia do setor. Tempo é dinheiro.

Voltando ao Airbnb, ele é bom ou uma bomba para a economia deste país? Argumentos prós e contra não faltam. Ao que tudo indica, a plataforma está diminuindo ainda mais a oferta de imóveis de aluguel de longo prazo na capital e, de certa forma, produzindo um efeito nas comunidades locais parecido com o que se vê nas cidadezinhas da Cornualha.

Vamos fazer um último exercício de abstração: imagine que um improvável decreto radical proíba este tipo de transação comercial. Acaba o ‘Airbnb’, o ‘booking.com’ e cia limitada. O problema do déficit habitacional está resolvido?

A bomba relógio, que é a falta de moradias, tem muitos detonadores. Seus efeitos na economia, e principalmente na vida das pessoas, estão escancarados. Só não enxerga, quem não quer.

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