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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Chame a parteira

Kate e William acabam de anunciar que vem por aí mais um herdeiro ao trono real. Corajosa ela. A esposa do futuro rei desta Ilha sofre com enjoos fortíssimos durante a gravidez. Uma condição chamada Hyperemesis gravidarum, que faz com que a grávida vomite várias vezes por dia e fique desidratada.

Os dois primeiros partos de Kate foram normais. Apenas algumas horas depois de dar à luz pela segunda vez, ela estava na porta do hospital, carregando a filhinha e posando para fotos. Um jornal da Rússia disse, na época, que era armação, que o bebê tinha nascido um dia antes. Teorias da conspiração à parte, princesa ou não, se o parto é normal e sem complicações, a mãe e a criança vão para casa em apenas algumas horas. No post de hoje, como é ter filho nesta Ilha:

Kate menos de doze horas depois do parto

Não sei de você, mas sou daquelas pessoas, que se emocionam com cena de bebê nascendo em livros, filmes e novelas. Pode ser o filme mais mequetrefe, com os atores mais canastrões do planeta. Não importa. Fico comovida do mesmo jeito. Deve ter mais gente como eu. Digo isso porque, desde janeiro de 2012, a série ‘Call the Midwife’ (exibida no Brasil com o nome de Chame a Parteira) é um dos maiores sucessos da tevê britânica. Em 2015, alcançou uma audiência consolidada de doze milhões de telespectadores, batendo o famoso Downton Abbey da concorrência. A série mostra o drama das parteiras no pós-guerra, num dos bairros mais pobres de Londres.

A palavra ‘midwife’ vem do inglês antigo, quando ‘mid’ era ‘com’. Então ‘midwife’ significa com a esposa, com a parturiente. Em português, parteira. A palavra parteira ainda me remete à ideia de uma mulher mais experiente, embora sem treinamento formal, numa comunidade rural e sem recursos, que ajuda outras mulheres a terem os filhos em casa. A parteira daqui é muito diferente dessa imagem romantizada.

As midwives atendem à maioria dos partos no Reino Unido. Elas são enfermeiras treinadas em obstetrícia. Mas não são enfermeiras, são midwives, que é outra especialidade. Para se chegar lá, é preciso fazer um curso universitário que varia de três a quatro anos de duração. Quem já tem diploma em enfermagem, pode fazer uma especialização. A profissão é tão valorizada na Inglaterra, que o governo paga as mensalidades da faculdade e oferece uma ajuda de custo às estudantes (a grande maioria mulheres, mas não exclusivamente). Universidade aqui é paga.

As midwives são responsáveis pelo pré-natal. Se a gravidez é normal, de baixo risco, a mulher não se consulta com o ginecologista, só a midwife. Ela também faz o parto, no hospital ou em casa e cuida do pós-natal, até 28 dias depois do nascimento. Algumas delas ainda trabalham em clínicas de planejamento familiar. Em 2015, o National Institute for Health and Care Excelence (Instituto de Excelência em Saúde e Cuidados, em tradução livre) publicou uma recomendação relativa aos partos. Em resumo, diz que os centros conduzidos por midwives são ainda mais seguros do que os hospitais, em se tratando de gravidez de baixo risco. Ressalta que o número de anestesias, cortes cirúrgicos no períneo e uso de instrumentos (fórceps) nos partos é significativamente menor. O número de partos que resultam em cesarianas é o mesmo dos hospitais.

É mais seguro mesmo? A verba alocada ao NHS, o serviço nacional de saúde do Reino Unido, não paga apenas o salário dos profissionais envolvidos, medicamentos, manutenção e equipamentos. Boa parte do dinheiro acaba sendo gasta em compensações. O setor que recebe a maior fatia deste montante é o de ginecologia e obstetrícia. O NHS pagou mais de três bilhões de libras em indenizações por barbeiragens em partos entre os anos de 2000 e 2010. Isso soma cerca de doze bilhões de reais! Um número que cabe redondinho nas manchetes de jornais. Um escândalo da saúde pública. Mas, com números, todo cuidado é pouco. Todo mundo sabe que, quando bem torturados, os algarismos contam qualquer história. Então é melhor olhar essa notícia com calma.

As compensações relativas aos partos são maiores, porque as vítimas que, por exemplo, sofreram falta de oxigenação cerebral durante o nascimento, vão precisar de cuidados pela vida toda. Em muitos casos nunca vão conseguir trabalhar e serão dependentes.  O que quer dizer que o valor pago a cada um dos processos é maior do que em outras áreas. Além disso, o número de ações cresceu, porque aumentou o número de partos. Mas não foi somente o número de nascimentos que subiu, aumentaram também os escritórios de advocacia que trabalham na base do ‘no win, no fee’, se não ganhar a causa, não paga nada. O que estimula mais pessoas a entrarem com processos judiciais e cria uma cultura mais litigiosa. O fato é que menos de um em cada mil nascimentos resulta em um destes processos. É claro que para as famílias afetadas, esses números não significam absolutamente nada. Entretanto, o NHS garante que o Reino Unido é um dos lugares mais seguros do mundo para se dar à luz, embora reconheça que por vezes a falta de parteiras e profissionais experientes pode gerar complicações e até mortes.

A brasileira Tatiane Del Campo é fã de carteirinha das midwives e do modelo inglês. Ela teve os dois filhos aqui. Disse que a informação que recebeu durante a gravidez foi fundamental. Sabia o que esperar. Perto do dia esperado para o nascimento de seu segundo filho, a mãe dela veio ajudar. A bolsa rompeu e a dona Paula começou a insistir para que a filha fosse para o hospital. Tatiane disse para a mãe relaxar. Em Roma, faça como os romanos. Explicou que, só quando as contrações são intensas, a mulher fica na maternidade. Se chegar lá antes da hora, a gestante é mandada de volta para casa. Tatiane levou o conselho ao pé da letra, controlou a frequência das contrações e até saiu para dar uma volta no quarteirão, para o horror da avó da criança. Voltou para casa e tomou um loooongo banho de chuveiro. Sentiu uma contração mais forte. Estava na hora. Ligou para o hospital e foi aconselhada a esperar por uma ambulância. Ela não queria ter filho em casa. Correu com o marido para o hospital. Dois minutos depois de dar entrada, nasceu o Gabriel. Tatiane virou lenda na maternidade, a parturiente mais rápida deste lado da ilha. Um recorde aplaudido com bom humor pelas midwives de plantão e que ela conta com um sorriso orgulhoso.

Os ‘recordistas’ Tatiane e Gabriel

Ao contrário de Tatiane, Siobhan Mc Brien não quis ter o terceiro filho no hospital. Os dois primeiros haviam nascido de parto normal, sem anestesia numa maternidade. Quando ficou grávida do terceiro, um surto de infecção hospitalar ocupava as manchetes dos jornais. Siobhan, que já não gostava de hospital, procurou sua médica generalista. Ela incentivou o parto em casa e indicou uma midwife, que fez todo o acompanhamento do pré-natal. Quando entrou em trabalho de parto, a midwife foi até a casa dela com uma estudante, que nunca tinha ajudado num parto. Siobhan conta que foi uma experiência única e inesquecível. Teve a filha em seu quarto, acompanhada do marido e das parteiras. Assim que Beth nasceu, a estudante chorou de emoção.

Shioban e Beth, que nasceu em casa

Antes do nascimento de Beth, Siobhan pensou em ter a segunda filha em casa, mas morava em outro bairro e o médico local não gostava da ideia. Para ela, ainda existe muita resistência quanto ao parto em casa. Ela disse que não teve medo e que, se houvesse alguma complicação, o hospital era perto de casa. Um estudo conduzido na Holanda e publicado em 2013, revela que o número de complicações sérias em partos feitos em casa é menor do que nos realizados em maternidades. Um em cada mil em casa. Dois ponto três em cada mil nascimentos em hospitais.

Óbvio que nem todos os partos são naturais. Um em cada quatro nascimentos no Reino Unido acontece por cesariana, que é classificada como uma cirurgia de grande porte. Um aumento de 25% desde a década de 70. O governo considera um número alto. Quer reduzi-lo. Tanto que uma das recomendações publicadas no site do NHS é que, se a mulher insistir em ter uma cesariana porque está ansiosa com a perspectiva de um parto normal, então ela deve ser encaminhada a um profissional da área de saúde mental.   As cesarianas podem ser planejadas ou de emergência, dependendo de cada caso. Se correr tudo bem, a mãe e o bebê passam duas noites no hospital. Tatiane e Gabriel voltaram para casa duas horas após o parto. Nos partos normais, se não houver nenhuma complicação, mãe e bebê vão para casa no mesmo dia. Depois disso, são acompanhadas em casa por parteiras e ‘health visitors’, agentes de saúde. Elas dão aconselhamento sobre como cuidar do bebê, amamentação e checam se a mãe corre risco de depressão pós-parto.

Quando a grávida vai para o primeiro exame de pré-natal na Inglaterra, ela sai carregada de folhetos informativos, um livreto sobre gravidez e parto e cupons.  Um dos cupons é para receber uma caixa cheia de fraldas, amostras grátis e outros brindes. É uma delícia o dia em que a caixa chega em casa. Parece que a gravidez fica ainda mais real. A futura mãe é aconselhada a tomar parte em cursos de pré-natal, no hospital ou os promovidos pelo NCT (National Childbirth Trust), que é a maior organização de caridade direcionada aos pais. Nestes cursos, a gestante aprende sobre a gravidez e o parto, além de cuidados com o recém-nascido. Fiz o do NCT, que quando nada é uma oportunidade de se conhecer outras pessoas que estão no mesmo barco. Durante o curso, eles batem muito na tecla do parto natural. Falam de como os anestésicos podem ser prejudiciais para o bebê. Também recomendam fazer um plano de nascimento e entregá-lo à midwife na hora do parto. Marinheira de primeira viagem e caxias, fiz tudo isso. No plano, meu marido dizia que gostaria de cortar o cordão umbilical. Na hora H, o plano foi ‘para o beleléu’, ninguém se lembrou dele. Lição um de maternidade: esqueça os planos.

Esta foi uma lição que a brasileira Luciana Auler aprendeu a duras penas. Entrou na maternidade com muitas expectativas e seu plano bonitinho debaixo do braço. Estava determinada a ter o parto na piscina e sem anestesia. A história é longa, ela foi para a maternidade às 7:30 da manhã. Lucas nasceu às 9:30 da noite, de cesariana. Luciana é muito grata aos cuidados que recebeu, mas se sentiu como se tivesse falhado. Todos eram muito gentis com ela, mas ela se sentia julgada. O segundo filho ela foi ter no Brasil.

Como Luciana, conheço Tracey e Katie, que queriam muito um parto normal. Tracey passou quarenta! horas em trabalho de parto, Katie trinta e oito . As duas tiveram filhos por cesariana.

Foi um alívio quando saiu o anúncio de que não só o primeiro mas o segundo parto de Kate Middleton, mãe do mais novos herdeiros reais, tinham sido normal. Como se sabe, o bom exemplo deve vir de cima. Se ela tivesse passado por uma cesariana, não teria caído bem. Por aqui as revistas femininas (e nada feministas) castigam as celebridades que têm filhos de cesariana. Essas mulheres são taxadas de ‘too posh to push’ – chiques, importantes demais para fazer força (na hora do parto).

Informação honesta, profissionais bem treinados e planejamento são fundamentais. É inegável. Como disse a Tatiane, existe aqui uma cultura que não só favorece como estimula o parto natural. O importante é que a mulher, esteja em que país estiver, não se sinta coagida, fracassada, pressionada e muito menos julgada pela forma como trouxe uma nova vida a este mundo.

 

2 comentários em “Chame a parteira

    1. Que legal a sua experiência, Luiza. Também tive minha filha aqui e concordo que, a maneira como eles lidam com o pré-natal, ajuda a baixar a bola da ansiedade. É mais simples, tudo é normal. Obrigada pela leitura, volte sempre. Um abraço.

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