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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

O ‘X’ da questão

Depois de algumas horas dirigindo num cenário de ‘ O Senhor dos Anéis’, chegamos a uma fazenda no meio do nada, na ilha do sul da Nova Zelândia. Estacionamos o carro ao lado de um trator combalido, roto de tanto trabalhar na terra onde o clima é inclemente. Nossos anfitriões vieram nos receber com sorrisos, um bebê de colo e um bando de cães.

A comitiva passou pela cozinha. O forno ardia e o dono da casa anunciou: vamos ter pato selvagem, que eu mesmo abati. O bicho já no prato e a mulher avisa: ‘cuidado na hora de mastigar, pode ser que tenha sobrado algum chumbinho. Meu irmão perdeu um dente comendo com um deles’. Enfrentei o assado com o mesmo cuidado de quem encarra um peixe cheio de espinhas. Um copo de vinho nacional talvez fizesse a comida descer melhor…

Depois do jantar, enquanto o fazendeiro conversava com meu marido sobre os velhos tempos, fui ajudar a Helen a se desfazer da carcaça do abatido e dar um trato na cozinha. Ela falava animada. Contou que tinha trocado essa Ilha daqui pela ilha do outro lado do planeta e que estava muito feliz com a escolha. Depois disse que, antes de plantar os pés na terra dos Hobbits, passou uma temporada na Tailândia. Com a voz de quem não tem frescura e nem tempo a perder, revelou que tinha ido levar um pouco de religião a aquele país, esquecido de Deus. Estava atendendo seu chamado de missionária. Até senti gosto de pólvora na boca e não era da munição que matou o pato selvagem. Mordi a língua e não retruquei, mas minha cabeça estava tão cheia de pensamentos, que ouvi o fim da conversa no piloto automático, sem prestar muita atenção naquela boca, que se movia sem parar.

Para ‘quebrar’ um pouco a longa viagem entre Londres e Auckland, paramos uns dias na Tailândia. A minha primeira impressão de Bangkok foi a de uma capital poluída. Pedestres, ciclistas e guardas de trânsito usando máscaras cirúrgicas e um cheiro desagradável de terminal rodoviário, de muitos ônibus com o motor ligado. Monóxido de carbono mesmo. Depois, na região dos hotéis, fica evidente o problema da prostituição e da exploração sexual de menores. Mas estas são apenas primeiras impressões.

A diferença de fuso horário, o voo longo e a quantidade de informações visuais demoraram um tiquinho para se aquietarem. No dia seguinte, fomos jantar no restaurante com o nome mais esquisito que já vi: Repolho e Camisinhas (Cabbage and Condoms). Abriu seu apetite? Se não, talvez você seja daqueles que compram (ou deixam de comprar) o livro pela capa. Repolho e camisinhas é apenas um braço do trabalho de uma ONG fantástica, que opera na Tailândia com planejamento familiar e prevenção de AIDS. A ideia é que os preservativos sejam tão comuns nas casas tailandesas, quanto os repolhos. O restaurante era um oásis no cinza das construções da vizinhança. Num quintal de árvores frutíferas e luzinhas de quermesse, um banquete dos deuses. Daqueles que deixam as papilas gustativas em festa. De comer rezando.

Mas é só ter o olhar atento para ver que o divino não está apenas na comida tailandesa. O Jesus de Helen não é mesmo o mais popular. O país é majoritariamente budista. Pelas ruas, talvez existam tantos santuários  budistas, quanto igrejas católicas em Salvador na Bahia. Preciso fazer essa conta. Alguns deles são pequenos, enfeitados de flores, com oferendas e muitas frutas.

Bangkok é também a casa do Buda Deitado. Uma estátua gigante, toda dourada, que deixa o Cristo Redentor no chinelo, quando o assunto é tamanho. O Cristo tem 30 metros de altura, o Buda 43 metros de comprimento. Está deitado, mas não é porque está sofrendo com o calor e sim tendo uma última revelação antes da morte. Ao sul da Tailândia, com o crescimento da população islâmica, conflitos religiosos se tornam cada vez mais frequentes. Era nisso que eu pensava, enquanto digeria o pato.

Helen estava enganada, não é de falta de religião que os tailandeses sofrem. Devia ter perguntado se ela não se interessaria por uma missão evangelizadora nos países escandinavos, onde a sociedade é cada vez mais secular, mas… melhor não.

Esse papo de cozinha piscou na minha memória, quando li a notícia de que uma menininha de cinco anos aqui na Ilha havia sido colocada, pelo serviço social, temporariamente num lar mulçumano. Os jornais deitaram e rolaram alguns dias. A história começou assim: uma mãe inglesa, branca e cristã, estava revoltada, porque tinha perdido a guarda da filha. A criança, ao chegar na família islâmica, teria tido um colar com uma cruz removido e havia sido privada de seu prato predileto: macarrão com ovo e bacon. Carne de porco nem pensar numa casa mulçumana.

Depois da tempestade, e da exploração midiática, os fios da história começaram a contar uma versão diferente. Primeiro, a mãe, alcóolatra e viciada em cocaína, havia sido presa por prostituição. A polícia chamou o serviço social, porque avaliou que a criança estava vivendo em condições de risco. A mulher não gostou e fez um escarcéu, dizendo que a família, que havia acolhido a menina, sequer falava inglês. O que não era verdade, segundo o juiz do caso. Depois, ela afirmou que era um absurdo que sua criança fosse entregue para pessoas, que não são cristãs e nem brancas. O ponto é que a avó da menina não só não é inglesa, como também é mulçumana, embora não praticante.

É muito difícil dar pitaco em casos como este. A gente consegue garimpar uma informação num artigo aqui e em outro ali, mas não dá para se ter um quadro completo da situação. É muito disse-que-me-disse. O caso aconteceu num bairro, que enfrenta dificuldades com pessoas de baixa renda, altos índices de imigração e criminalidade. O serviço social insiste que fez o que era melhor para a menina. Não havia outra família disponível para o acolhimento de emergência e, cinco meses depois de ser colocada num lar temporário, a criança estava adaptada e feliz.

Os assistentes sociais recomendaram ao juiz que a criança fosse entregue aos avós maternos. Eles concordaram, mas afirmam que querem levar a menina para viver com eles, em seu país de origem. A mãe quer retomar a guarda da criança.

O caso fez com que Sir Martin Narey (o homem responsável por aconselhar o governo em questões de lares de acolhimento) se pronunciasse. Para ele, seria errado vetar famílias dispostas a acolher temporariamente menores, baseado em questões de diferença de etnia e religião. Num relatório a ser publicado ainda este ano, Sir Narey vai defender que cor de pele e religião são secundários, quando se tenta encontrar um lar temporário para crianças necessitadas.

No ano passado, o inglês Ben Butler foi condenado a 23 anos de prisão por matar a própria filha, Ellie. A menina havia sido retirada da guarda dos pais, porque, quando ela ainda era bebê, Ben chacoalhou sua cabeça violentamente, causando problemas neurológicos. A Justiça então determinou que Ellie fosse viver com os avós maternos. Ben e a mãe da menina recorreram da decisão até que, finalmente, conseguiram reaver a guarda. Na ocasião, os avós, arrasados com determinação, avisaram que Ben era um homem violento e que o serviço social iria  terminar com sangue nas mãos. Onze meses depois, a criança estava morta.

Ser assistente social aqui na Ilha é um desafio. Eles ganham pouco, estão sobrecarregados de trabalho e levam pedrada quando tiram uma criança dos pais e quando não tiram também. O destino da menininha de cinco anos vai ser decido por um juiz no mês que vem. Ela foi entregue temporariamente aos avós. A história toda é trágica em muitos aspectos. Mas os jornais deram bola fora, quando começaram a cobrir o caso: o ‘X’ da questão não era bem a religião dos envolvidos…

 

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