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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Sangue Mercurial

O imigrante, ou o visitante, que chega a esta Ilha, tem que ficar esperto. O senso de humor britânico, por exemplo, é um perigo. O sujeito faz a maior hora com a sua cara e você às vezes nem percebe. Uma vez, um amigo brasileiro foi visitar um dos casarões históricos do National Trust. Ficou impressionado com a coleção de livros na biblioteca e comentou com uma das voluntárias, que tomam conta da mansão: ‘Poxa, como é que vocês conseguem limpar tantos livros?’ A senhorinha, com a expressão mais civilizada do mundo, e a voz mais monótona já conhecida pela humanidade, respondeu que eles só limpavam uma vez por ano, quando cientistas iam lá medir a quantidade de pó acumulada durante doze meses. Ele acreditou. Ela deve estar rindo até hoje do gringo abelhudo.

Aliás, outro detalhe a saber: não faça perguntas desnecessárias. Tampouco faça cena em público e muito menos demonstre afeto ou ódio para todo mundo ver. Esse negócio de ‘I love you’ a torto e a direito é coisa de americano. Esta é a terra do ‘stiff upper lip’. Sabe bebezinho, quando está prestes a fazer birra, que fica com os lábios tremulando? Pois, é. É o oposto disso, mantenha os lábios rígidos e não demonstre emoções. Guarde-as para si.

O tal do ‘stiff upper lip’ levou um soco cruzado de direita com uma certa Princesa do Povo. Ela desencarnou há vinte anos, mas sua voz está mais viva do que nunca. É que vídeos, gravados pelo professor de oratória de Lady Di, foram transformados em um documentário (“Diana em suas próprias palavras”), que deve ser exibido este mês pelo Channel 4, para marcar o aniversário de morte de Diana.

O material ainda nem foi ao ar aqui nos domínios de Elizabeth, mas, como tudo que tem a ver com Diana, já está dando pano para manga. Uma amiga próxima da falecida considera o documentário uma traição à privacidade da princesa. Eu dava uma nota nova de cinco libras para descobrir o que a rainha pensa sobre o assunto. Seu ex-porta-voz considerou o documentário vergonhoso. Só não esclareceu para quem. Numa das gravações, Diana revela que teria procurado a Rainha-Sogra, para se aconselhar sobre o comportamento de Charles e a soberana teria dito que o filho era mesmo incorrigível.

Aliás, Elizabeth II também andou nas paradas de sucesso essa semana. Ao que consta, quem herda não furta. A Rainha Mãe era chegada num gin e a atual soberana também aprecia um aperitivinho. Quatro drinks por dia: um gin antes do almoço, um copo de vinho para ajudar a descer a comida sem alho e sal, um coquetel no jantar e uma taça de champanhe antes de dormir. Tim-Tim! Parece que a dieta funciona: aos noventa e um anos, ela está lépida e alerta como sempre. Só resta saber se, no dia da exibição do documentário, ela não vai pedir uma dose dupla aqui e ali.

Pensando bem, a Rainha já viu de tudo em seu reinado, que é o mais longo da história britânica. As fitas, gravadas pelo professor Peter Settelen, já rodaram muito por aí. Foram motivo de batalhas judiciais

Em 2001, as fitas foram apreendidas, pela Scotland Yard, na casa do ex-mordomo-real-e-linguarudo Paul Burrell. Paul escreveu livros sobre o tempo em que serviu o casal, que era o primeiro na linha de sucessão do trono inglês, inventou umas historinhas, foi convidado a depor no inquérito sobre a morte da princesa e adora um holofote.

Em 2004, depois de uma disputa judicial com Earl Spencer, o irmão de Diana, o material voltou às mãos do professor Settelen. Parte do conteúdo dos vídeos foi exibida nos Estados Unidos no mesmo ano. A BBC queria usar o material num documentário em 2007, para marcar uma década do acidente, que matou a princesa. Avaliou o custo político e desistiu da empreitada.

Lady Di foi filmada em seu Palácio de Kensington, em Londres, entre os anos de 1992 e 1993. A separação com o Príncipe Charles ainda era ferida aberta e inflamada. Traída e machucada, a princesa mandou o ‘stiff upper lip’ para os quintos dos infernos. Abriu seu coração e revelou o que ia, ou melhor não ia, debaixo dos lençóis reais.

Charles podia até ser príncipe, mas não era encantado por Diana. No material gravado, ela conta que só o viu treze vezes antes do casamento. Ela reclamava que ele era muito esquisito na cama. No começo do casamento, ele a procurava muito, mas a coisa foi esfriando. Mais tarde, acontecia apenas uma vez a cada três semanas, até que acabou completamente. Ela conta detalhes da traição do marido com Camilla (sua atual esposa). Quando ela o confrontou, Charles teria dito que se recusava a ser o primeiro Príncipe de Gales a não ter uma amante.

As fitas revelam que a carência afetiva de Diana vinha da infância. Seus pais nunca a abraçavam, não gostavam de beijá-la e jamais disseram que a amavam. A biógrafa real, Penny Junor, está horrorizada com a divulgação do material gravado a portas fechadas. Para ela, Diana estava mal com o fim do casamento e agora se aproveitam de um momento de fraqueza, para faturar em cima de sua memória.

O fato é que o novo documentário sobre a Princesa Diana mostra que, enquanto o interesse público sobreviver, a exploração do tema vai continuar. O advogado do professor Settelen diz que essa história de que as fitas eram privadas é besteira. A polícia teve acesso ao material, assim como a família de Diana e seu mordomo indiscreto. Ele vai além, Diana sabia muito bem o que estava fazendo: queria que o mundo soubesse o que ela estava passando.

O Channel 4, que vai ganhar muitas libras com o documentário, diz que é interesse público revelar a verdade. Será? É tudo mesmo em nome da verdade? A quem interessa o que acontecia nos quartos palacianos?

Recentemente, o princípe Harry, o caçula de Diana, também deu uma banana para o ‘stiff upper lip’ e veio a público falar sobre o trauma da morte de sua mãe. Contou como foi devastador acompanhar, aos doze anos de idade, o cortejo fúnebre, que levava o corpo de sua mãe, sob os olhares de uma audiência mundial de milhões de telespectadores. Para os filhos de Diana, além da perda da mãe, eles têm que lidar com a constante invasão de privacidade promovida pela mídia.

Diana morreu em Paris, num acidente de carro em agosto de 1997, aos 36 anos de idade. Ela podia até não ter sangue azul. Mas com certeza, seu sangue não era de barata. Era mercurial.

 

2 comentários em “Sangue Mercurial

  1. Novamente seu texto está perfeito. Diana era e sempre será a princesa do povo.Amada pelo povo, mas desprezada pelo marido, tudo o que lhe diz respeito rende . Infelizmente não tem paz nem depois de morta.

    PS procurei vc feito louca,nao faz mais isso. Bjos

    1. Oi, Debora, o blog agora passa a ser hospedado pelo UAI. Que bom que voce conseguiu encontra-lo. Obrigada pela leitura e os comentarios de sempre. Bjs

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