Skip to main content
 -
Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Para trouxas… e bruxos também!

Edimburgo, a capital da Escócia, transborda história pelas janelas, porões mofados e ruas calçadas de pedra. A ‘Royal Mile’ (milha real) é o miolinho deste centro histórico. Liga o Palácio de Holyrood ao imponente castelo de Edimburgo.

Assim como Hogwarts (a mais prestigiosa das escolas de magia), o castelo parece ter aterrissado no topo de um vulcão aposentado. O sujeito olha lá para cima e pensa: nunca que um príncipe vai se dar o trabalho de encarar essa fortaleza, nem se o prêmio for a mais linda das princesas. Tudo ilusão, o castelo foi conquistado tantas vezes, que até dá preguiça de contar a história. Hoje em dia, ele sofre outro tipo de invasão. Quase um milhão e meio de turistas por ano. Tem que batalhar para se chegar ao portão de entrada: é preciso resistir às lojas de whisky pelo caminho, evitar as de saias xadrez e quinquilharias temáticas, rodear artistas de rua, além de vencer uma horda de jovens fantasiados, tentando vender excursões para caçar fantasmas e outras atividades assombradas.

Ao pé de uma ruazinha ali por perto, tem a estátua de um cachorrinho com o focinho polido, de tanto ser alisado por visitantes, que se entregam ao estranho ritual de passar as mãos em estátuas, para ver se dá sorte. Bobby, diz a lenda, é o terrier do século XIX, que passou quatorze anos velando a sepultura de seu dono no cemitério de Greyfriars. Sua história de lealdade inspirou livros e filmes.

Bobby, o leal

 

Para quem tem olhos atentos e imaginação desinibida, Edimburgo é realmente um banquete. Quase vizinho ao cemitério de Greyfriars, fica um café chamado ‘The Elephant House’. Não dá para passar batido. Primeiro, pela fachada vermelha, mas também pela muvuca de turistas espiando a vitrine, que diz que aquele é o lugar de nascimento do mago mais bem-sucedido do planeta: Harry Potter. Uma licença digamos marqueteira-poética. Na verdade, foi em outro café, que J.K. Rowling escreveu o primeiro livro da série. Mas, ao que consta, foi na Casa Elefante que ela escreveu ‘A câmera secreta’ e ‘O prisioneiro de Azkaban’.

 

Café onde JK Rowling escreveu as aventuras de Harry Potter

Os fãs dos livros e filmes da série Harry Potter piram em Edimburgo. A Victoria Street para eles deveria se chamar Diagon Alley, o beco das lojas mágicas, onde Harry foi se equipar de uma vara de condão. No Dia das Bruxas, os mais devotos baixam em massa no cemitério de Bobby, para desafiar o vilão Voldemort. Eles visitam o túmulo de um sujeito chamado Tom Riddell (que inspirou o personagem Tom Riddle, aquele cujo nome não se deve pronunciar em voz alta).

Esta semana, comemora-se o vigésimo aniversário de lançamento do primeiro Harry Potter. Joanne (a autora, para quem não sabe), encarou depressão, falta de dinheiro e levou muita porta na cara, até que encontrou quem publicasse seu livro. Só que teve um porém. Foi aconselhada: ‘não assine Joanne Rowling, use suas iniciais. JK Rowling pode soar como um autor do sexo masculino e atrair mais meninos leitores’. A autora disse numa entrevista, que não gostou muito da ideia, mas aceitou a sugestão. Talvez tenha sido uma das muitas decisões acertadas, que a tornaram, no espaço de duas décadas, bilionária. Um estudo da universidade americana da Carolina do Norte sugere que os alunos tendem a avaliar mais positivamente os professores do sexo masculino do que as professoras. Vai ver que a mesma ideia preconcebida vale para escritores e escritoras.

 

Entretanto, de submissa e vítima, JK Rowling não tem nem um fio de cabelo. O que ela tem são onze milhões de seguidores no Twitter. Para quem quer e para quem preferia não ouvir, ela diz o que pensa, doa a quem doer. Não passa uma semana, aqui na Ilha, em que suas opiniões não virem manchete nos sites de notícias. Por exemplo, quando alguém comparou Donald Trump com o vilão Voldemort, ela respondeu que Voldemort nunca foi assim tão ruim quanto o presidente americano. Arrancou, como era de se esperar, a ira dos seguidores de Trump, que ameaçaram queimar seus livros. A um deles ela rebateu: “adivinhe, é verdade o que dizem: você pode levar uma garota a livros sobre a ascensão e queda de autocratas, mas ainda assim não pode fazê-la pensar”.

As aventuras de Harry Potter e seus amigos se tornaram tão populares, que o terceiro livro da série foi lançado nas livrarias às 3:45 da tarde (quando acaba o dia escolar) para evitar que os alunos matassem aula, para fazer filas nas lojas. Era JK Rowling fazendo a mágica de encantar leitores, para trocarem os jogos eletrônicos por histórias de letras e papel.

Papel que, como a seguidora de Trump sugeriu, foi queimado aqui e ali. Harry Pottter nunca foi unanimidade. Os puristas questionaram o mérito literário da obra e religiosos de todas as cores e credos denunciaram o que acreditam ser conteúdos sombrios escondidos no subtexto da obra. Os cristãos evangélicos americanos se dizem preocupados com a influência das bruxarias nas cabecinhas inocentes das crianças. Entraram com inúmeras ações na Justiça, para que os livros fossem proibidos em várias escolas e bibliotecas públicas. A igreja ortodoxa grega classificou a obra como satânica e um ‘culto ao demônio’. Os livros foram banidos nas escolas dos Emirados Árabes, ‘por se oporem aos ensinamentos islâmicos’.

Aos críticos religiosos, Joanne respondeu que de jeito nenhum ela escreveu os livros para encorajar crianças a se tornarem bruxas. Disse que dava até vontade de rir desta ideia absurda. E completou: tive encontros com centenas de crianças e nenhuma delas chegou para mim e disse, ‘estou tão feliz de ter lido seus livros, porque agora quero ser um bruxo’. JK Rowling ainda expressou sua desconfiança de que muitos dos detratores de Harry Potter tivessem de fato lido as histórias. Também tenho dificuldade em entender como fantasias em que os heróis trabalham em equipe para vencer os obstáculos, com valores de lealdade, amizade e inteligência, possam ser tão mal compreendidos.

 

 

 

Com ou sem polêmicas, o mundo fantástico criado por JK Rowling tem o inegável poder de encantar e render muitos gringotts (o nome da moeda bruxa em inglês). Os filmes baseados nos livros faturaram cerca de 26 bilhões de reais. Os estúdios, onde os filmes foram gravados, viraram, quem diria, atração turística em Londres. Quem quiser visitar, que se organize e reserve o ingresso (por volta de R$150) com antecedência.

Para quem ficou na mão, a internet tem excursões a pé e de graça. É só imprimir, usar um sapato confortável e perambular pelo centro de Londres,  à caça de locações usadas nos filmes, lojas que vendem balas de sabores nem sempre apetitosos e até uma lojinha onde é possível trocar libras por gringotts. Por que não? Tem gente que passa mão em estátua para dar sorte…

 Talvez seja isso: nesta terra, onde uma despretensiosa estátua de um cachorrinho atrai tantos turistas, uma história bem contada prova que não existem línguas e nem fronteiras, para a imaginação. Seja o leitor  um trouxa*, ou um bruxo.

 

*trouxa = não bruxo no mundo criado por JK Rowling

 

3 thoughts to “Para trouxas… e bruxos também!”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.