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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Grande Incêndio de Londres, Terrorismo e Brexit

Passava da meia noite de um domingo, quando o fogo começou numa padaria em Pudding Lane, Londres. Durante três dias, as chamas se espalharam impiedosamente. Destruíram 13.200 casas e 87 igrejas.

O ano de 1666 foi um marco na história da capital inglesa.

O centro da cidade medieval, cercada por muralhas romanas, virou cinzas. Setenta mil dos oitenta mil moradores da região perderam suas casas. O Museu de Londres, ignorado pela maioria dos turistas, tem uma seção dedicada ao incêndio. Vale a visita. Em seu acervo, além de uma parte da muralha romana, está um pote encontrado por arqueólogos,  que foi parcialmente derretido pelo fogo. Estima-se que as chamas produziram um calor de mais de 1250 graus centígrados. Durante anos, acreditou-se (só com muita crença mesmo) que apenas seis pessoas haviam morrido no Grande Incêndio de Londres. Na época, os pobres e os representantes da classe média não tinham registro. Não existiam, por isso não morreram. A intensidade do fogo cremou os corpos e até hoje não se sabe quantas pessoas morreram.

 

 

Instalação do Museu de Londres

 

 

 

O fogo ainda nem tinha sido controlado e boatos se espalhavam pela cidade, tão rapidamente quanto as chamas. O incêndio teria começado deliberadamente por estrangeiros. Os culpados:  franceses e holandeses, inimigos da guerra, que rolava na época (a segunda anglo-holandesa). Na ressaca da tragédia, a violência urbana explodiu, com estrangeiros sendo linchados nas ruas. O perigo, já naquela época, vinha de fora.

Eventualmente, um francês chamado Robert Hubert confessou que tinha começado o fogo em Pudding Lane, a mando do Papa católico. Vinte e seis dias depois do início do incêndio, ele foi enforcado. Mais tarde, ficou provado que ele só poderia ter tocado fogo na padaria, se fosse mágico e não relojoeiro. No dia em que o incêndio começou, Robert estava a bordo de um navio no Mar do Norte e só chegaria a Londres dois dias mais tarde. Oh, dear…

O rei Charles II fez o que pôde para mandar os refugiados do Grande Incêndio para fora de Londres. Não queria confusão e arruaça no quintal de casa. Surgiram planos ambiciosos para reconstruir a cidade, mas eles foram abandonados, porque seria complicado demais reembolsar os moradores pelos lotes desapropriados. O novo centro tinha melhores condições sanitárias, ruas um pouco mais largas e medidas de prevenção de incêndio, mas basicamente seguia o traçado desenhado antes da destruição. Hoje em dia, perto da estação ‘Monument’ do metrô, existe um monumento de 61 metros de altura para marcar o fato histórico. Dá para subir até o topo e ver a Pudding Lane, no mesmo lugar desde o século dezessete. Como se, ao preservar a história, houvesse alguma chance de que ela não se repetiria…

 

Monumento em Londres

A notícia não é nova, mas a dor ainda arde fresca em muita gente. Passava da meia noite do dia 14 de junho, quando os bombeiros receberam as primeiras chamadas do incêndio em Grenfell Tower, o arranha-céu  de vinte e quatro andares num bairro nobre de Londres. É impossível ouvir os relatos dos sobreviventes e testemunhas e não se comover. Chorei junto com um homem, que aos prantos, contou que correu para lá, assim que ficou sabendo do incêndio. Queria resgatar um amigo. Saiu do carro e se lembrou de pegar uma garrafa d’água. Os bombeiros não o deixaram entrar no prédio. Uma mulher desesperada saiu do prédio e entregou seu bebê para o homem. Ela estava em pânico, queria voltar e buscar o outro filho, que havia se perdido na fumaça espessa. O homem contou que deu água ao bebê, que vomitou uma substância preta, enquanto a mãe se explodia de tanto gritar desesperada.

Hoje pela manhã, esta Ilha fez um minuto de silêncio em memória das vítimas. O último boletim oficial fala em setenta e nove mortos. Muitos corpos foram carbonizados e jamais serão reconhecidos. Dezoito feridos graves ainda estão internados em hospitais da capital.

 

Apartamento destruido em Grenfell Tower

Assim como no Grande Incêndio de 1666, a tragédia de Grenfell Tower reverbera insatisfação popular e raiva. Apesar de grande parte dos moradores ser de imigrantes, circularam comentários de que extremistas mulçumanos tivessem ateado fogo de propósito no prédio. Tem também muito ódio contra os políticos. A maioria dos apartamentos do espigão incendiado pertence à administração do bairro de Kensigton. Os moradores de baixa renda pagam um aluguel subsidiado ao governo, que é responsável pela manutenção do prédio. Com exceção da brigada de incêndio, todos os órgãos oficiais governamentais e políticos de vários partidos estão sob o fogo nada amigo daqueles que, de alguma maneira, foram afetados pelo incêndio.

A primeira-ministra Theresa May, que perdeu  capital político nas eleições do começo do mês, botou mais um prego em seu caixão ao julgar (mal) o ânimo dos sobreviventes. Ela foi visitar o prédio, quando as chamas já estavam extintas, mas evitou se encontrar com as vítimas, temendo uma situação de confronto. Foi taxada de fria e insensível. Mais ou menos como a Rainha Elizabeth, logo depois do acidente que matou a princesa Diana. Seu opositor, Jeremy Corbyn, o líder dos trabalhistas, se reuniu com as vítimas e declarou seu apoio. Mas ele também sentiu a ira do público.

Do esqueleto tostado do arranha-céu para o rinque político foi um estalo. Deixando de lado a briga de cachorros grandes, a questão é sem dúvida política. Muitos moradores haviam reclamado da situação do prédio e do risco de incêndio. A falta de sprinklers (aspersores de água) é apontada como um dos fatores que contribuíram para que tanta gente tivesse morrido. Alguns moradores dizem que a administração regional se negou a instalá-los. Há indícios de que foram alguns moradores que se negaram, porque não queriam tanta obra no prédio. Quem lê as notícias se sente como se estivesse num barco, que ora é levado para um lado, ora para o outro. Por isso é tão importante que se apure direito o que aconteceu.

Ao que tudo indica, seria o novo revestimento externo do edifício o catalisador do desastre. As placas seriam a prova de fogo no lado de fora, mas não na parte interna, fazendo uma espécie de chaminé para as chamas se espalharem rapidamente. Ouvi moradores enfurecidos dizendo que o revestimento só foi instalado para que os vizinhos ricos do bairro não tivessem o desgosto de ver um prédio feio todo dia.  O fato é que a cobertura externa das paredes foi aplicada em muitos outros prédios populares, incluindo naqueles em que a vizinhança é tão pobre quanto os moradores dos conjuntos habitacionais. O revestimento foi instalado para aumentar a eficiência térmica dos apartamentos e economizar energia. O que o inquérito tem que apurar é se as construtoras usaram um material que não era apropriado, ou elas seguiram as normas e regulamentações em vigor. Se for o caso, estas regras terão que ser revistas.

O fato é que a resposta do governo foi lenta. Ainda hoje, pessoas estão desesperadas, sem saber se seus familiares estão vivos ou não. Não sabem como e nem onde passarão a próxima noite. Hoje, a Primeira-Ministra anunciou que cada família afetada irá receber cinco mil e quinhentas libras, para os gastos imediatos. Lembre-se, essas pessoas só tem a roupa do corpo. Mais nada. A promessa é que essas famílias sejam realojadas em três semanas. Onde, ninguém sabe.

Ontem fez 32 graus em Londres. Nas minhas contas, equivale a 42 no Rio. As casas não são feitas para o calor. A gente passa o ano sonhando com dias ensolarados e, quando eles chegam, é quase impossível dormir bem.

Passava da meia noite, quando a capital levou mais uma bordoada. Um homem, de 48 anos, jogou a van que dirigia sobre um grupo de pedestres, que saía de uma mesquita em Finsbury Park. Parece disco arranhado, mas não é. Mais um ataque terrorista, num ano no mínimo difícil por aqui. Uma pessoa morreu e dez ficaram feridas. Eram mulçumanos, saindo de um grupo de orações, depois do jejum do Ramadan.

 Segundo o relato das testemunhas, ao ser detido por populares, o agressor fazia gestos jocosos e gritava que queria matar todos os mulçumanos. O atentado foi classificado como um ato terrorista pelo governo. Theresa May fez um pronunciamento esta manhã. Ela reiterou o que disse depois do atentado na Ponte de Londres: afirmou que este país tem demonstrado durante anos muita tolerância com o extremismo e que não haverá lugar para os extremistas se esconderem. Ela condenou o ataque, que chamou de um ato de covardia contra os mulçumanos.

Sadiq Kahn, o prefeito de Londres, prometeu mais policiamento próximo às mesquitas. O ataque de ontem foi considerado terrorismo, mas o fato é que a islamofobia tem feito muitas vítimas nesta Ilha. São espancamentos, ataques com ácido e agressões verbais. Toda vez que vejo, ou leio, alguém falando que todo mulçumano é terrorista (“basta ver o número de atentados terroristas cometidos por islâmicos”), penso em como essa lógica é tacanha. Como se dissesse que todos os homens são assassinos, porque a maioria dos assassinatos é cometida por pessoas do sexo masculino.

Hoje, no meio desse rolo todo, como se não bastasse, começam as negociações do Brexit. O governo chega fraco à mesa de negociações, dividido e sem um plano claro, para o que promete ser a maior decisão econômica e geopolítica desta Ilha em décadas.

 Fico refletindo sobre o momento que estamos vivendo. Theresa May tem razão em colocar o mais recente atentado terrorista no mesmo balaio dos anteriores. São atos extremistas. Talvez as características não sejam as mesmas, mas pode ser que exista um fio comum, que costura o incêndio de Grenfell Tower e a onda de ataques em Londres. É a linha da tensão social, que às vezes se estica a ponto de se romper.

Muitos dos que votaram pelo divórcio com a União Europeia, assim como seus antepassados em 1666, acreditam que o perigo vem de fora. Dependendo do que acontecer no Brexit, este país poderá ficar mais empobrecido e isolado. Quando a pressão subir, não vai ter ‘enforcamento’ de estrangeiro que dê conta de remediar o que foi destruído. Mas essa é uma história que ainda não foi escrita.

2 comentários em “Grande Incêndio de Londres, Terrorismo e Brexit

    1. Logo que o incêndio aconteceu, criticou-se muito a falta de rapidez na ajuda às vítimas. Muitas pessoas sofreram pela falta de centralização de informações sobre mortos e feridos, por exemplo. Ainda hoje, que eu saiba, algumas das vítimas continuam vivendo em hotéis, o que é mais uma causa de estresse para estas pessoas. A comunidade local se organizou e faz muito barulho reivindicando seus direitos.

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