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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Olho maior do que a barriga

326. Guarde esse número. Não serve para jogar na loteria, mas é um número de sorte. Embora tenha se tornado o azarão na vida da primeira-ministra britânica, Theresa May…

 Vamos lá, um pasito de cada vez:

O eleitor aqui na Ilha não vota para primeiro (a) -ministro (a). Quem ocupa o cargo máximo é o líder do partido com maioria no Parlamento. Daí o 326 ser tão importante, porque representa a metade mais um dos parlamentares, ou seja, a maioria. 

Ontem este país foi mais uma vez às urnas. Cinquenta dias atrás, quando May convocou as eleições instantâneas, as pesquisas eleitorais indicavam que a primeira-ministra iria vencer de lavada. Mas, quando o Big Ben bateu as dez badaladas ontem à noite, o anúncio da pesquisa de boca de urna deixava claro que não seria bem assim.

Toma, distraída!

 

 

Theresa May

 

O partido Conservador, da primeira-ministra, elegeu 318 parlamentares. Doze a menos que na eleição anterior, que garantiu a David Cameron seu segundo mandato como primeiro-ministro. Com 318 eleitos, o Conservador é o partido com a maior bancada, mas ( esse é um ‘mas’ com ‘M’ maiúsculo), não conseguiu a maioria necessária para eleger um primeiro-ministro.

O Trabalhista Jeremy Corbyn, o líder do principal partido de oposição, pediu a renúncia de Theresa May, assim que o fiasco nas urnas se desenhou. Jeremy Corbyn é um capítulo à parte. Ele é o líder mais à esquerda que os trabalhistas tiveram em muitos anos. A favor de estatizar alguns setores, que foram privatizados no passado, e de aumentar a carga tributária dos mais ricos, para bancar por exemplo a merenda escolar para todas as crianças, Corbyn foi acusado de tentar levar o país de volta para os anos 70. Com um jeito de Dom Quixote, roupas simples, casa simples e fala mansa, Corbyn foi incessantemente ridicularizado pela imprensa. Ele também não é nenhuma unanimidade em seu partido, que ficou no poder durante anos com Tony Blair apostando no centro. Por muito tempo, Jeremy Corbyn foi oposição, votou muitas vezes contra as decisões de seu próprio partido.

 

Jeremy Corbyn

 

Quando todo mundo dizia que ele seria engolido por Theresa May, Corbyn crescia na campanha eleitoral, fazendo o corpo a corpo, que os anos de militância o ensinaram. Enquanto isso, May seguia o roteiro de um marqueteiro australiano, repetindo como um robô, que esta Ilha precisava de alguém forte e estável. O jargão virou motivo de piada, mas ela não se descolou dele. Agora de tarde, May pediu desculpa aos parlamentares de seu partido, que não se reelegeram. Corbyn, por sua vez, comemora triunfante os 30 assentos a mais que seu partido conquistou na eleição de ontem. Continua o segundo mais votado, com 262 parlamentares eleitos.

Quando nenhum partido consegue a maioria, forma-se um governo de coalizão. Uma aliança, como da primeira vez em que David Cameron se elegeu e formou um governo com os Liberais-Democratas. Desta vez, os Conservadores só vão continuar no poder graças ao obscuro DUP ( Democratic Unionist Party) o Partido Democrático Unionista, da Irlanda do Norte. Desde que eles entraram em cena, esta manhã, o senhor google tem feito hora extra. Nos sites de busca, todos querem saber, D.U o quê mesmo?

 

O DUP elegeu 10 parlamentares. Lembra, os Conservadores precisavam de mais oito para continuar no poder. Com um empurrãozinho dos irlandeses do Norte, vão formar o que se chama de governo de minoria. Em outras palavras, não vai ser nem estável e muito menos forte, como May andou pregando.

 

O DUP é o partido que é favor que a Irlanda do Norte continue fazendo parte da Grã-Bretanha. Votou pelo Brexit, é contra o aborto e o casamento gay. Charles Darwin e aquecimento global não passam de lendas para alguns dos políticos do DUP. Que tipo de acordo os Conservadores fizeram com os norte-irlandeses, só Deus sabe. Quer dizer, alguns mortais também sabem, mas dá coceira só em pensar nos detalhes da aliança.

 

Cinquenta dias atrás, quando convocou as eleições, o cenário eleitoral parecia favorável à Theresa May. Ela não contava com os atentados de Manchester e de Londres. Antes de ser primeira-ministra, May foi Home Secretary, uma espécie de ministra para Justiça e Interior. Foi sob o comando dela, que milhares de policiais foram demitidos. Seu governo se livrou de um enorme contingente de policiais comunitários, que são uma peça-chave na estratégia antiterrorista. É óbvio que, depois dos atentados, a oposição fez questão de relembrar aos eleitores o que estava no currículo da mulher, que adora se descrever como um osso duro de roer.

 

O Brexit abriu uma cratera entre as gerações nesta Ilha. Os velhos compareceram em massa ao plebiscito e votaram pela saída. Os jovens deixaram de votar, para depois apontar o dedo para os aposentados e culpá-los pela decisão de deixar a Comunidade Europeia. Pois bem, desta vez eles tiraram o traseiro da cadeira e se registraram para votar. O número de jovens inscritos subiu um milhão e o comparecimento às urnas de eleitores entre 18 e 24 anos foi de 76%. Nada mal num país onde o voto não é obrigatório.

 

Os jovens andam insatisfeitos com os Conservadores, depois de anos de arrocho e falta de perspectiva profissional. Não bastasse isso, Theresa May conseguiu pisar na bola também com seus eleitores mais fiéis, os pensionistas. Nos últimos anos, somente eles tiveram aumento de salário e estão muito melhor do que os jovens. May prometeu acabar com o sistema que, de certa forma, privilegia os aposentados e propôs que eles pagassem pelos serviços (asilos por exemplo) a que têm direito. Se não tivessem como pagar em vida, que suas casas fossem vendidas depois que morressem e parte do dinheiro reembolsaria o Estado. Não desceu bem, não.

 

Em política e na vida são raras as ocasiões em que um simples fato isolado pode explicar uma grande mudança. Em geral, elas são resultado de uma conjunção de fatores. Foi o que aconteceu com a derrocada de Theresa May. Por ora, ela fica no comando. Daqui a dez dias começam as negociações com a Europa sobre os termos da retirada britânica da União  Europeia. O cacife político de May está menor do que nunca. Seu olho foi maior do que a barriga. O eleitor não perdoou. Agora, Mrs May está aprendendo a lição dolorosa, que David Cameron teve que encarar depois do Brexit: quem tudo quer, tudo perde.

3 comentários em “Olho maior do que a barriga

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