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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Agir ou Reagir?

 

Hoje, 18 de agosto de 2017, a Espanha chora seu mais recente ataque terrorista. O primeiro desde 2004. Até o momento, foram confirmadas 13 mortes em Barcelona e mais uma numa outra cidade praiana, também na Catalunha. O post de hoje foi escrito no dia seguinte do ataque, que assustou o coração de Londres em junho. Afinal, o que está por trás destes ataques e como responder ao terror?

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Fui cedo para cama ontem. Acordei hoje planejando sair para uma caminhada e fiquei sabendo do mais recente ataque terrorista em Londres. Estamos perto do dia mais longo do ano. O verão está ali, na esquina. O dia ontem foi agradável. O tempo bom convidava a sair de casa. Muita gente saiu para aproveitar e se divertir. Mas a noite não estava para prazeres.

Às dez e oito da noite, uma van branca, com três homens, passou por cima de pedestres na ponte de Londres, um dos muitos cartões postais da cidade. Em seguida, se dirigiu ao Borough Market, onde os agressores desembarcaram e esfaquearam qualquer um que estivesse pela frente. Pelo relato de testemunhas, a maioria mulheres jovens. Sete pessoas morreram no ataque. Os terroristas foram mortos pela polícia. Quarenta e oito pessoas seguem internadas em hospitais e outras dezenas foram atendidas com ferimentos leves.

É o terceiro ataque terrorista nesta Ilha em menos de três meses. Há quase duas semanas, quando o terror fez suas vítimas em Manchester, acompanhei um debate sobre o assunto, num programa de rádio. De um lado, uma jornalista do Daily Mail e, do outro, um professor universitário especialista em segurança e terrorismo. Um ouvinte (pela voz, um homem velho) telefonou para dar sua opinião. Disse que as três mil pessoas, que estão no topo da lista de terroristas em potencial, deveriam ser mandadas para os ‘Butlins’ (resorts de férias, que já tiveram dias melhores e que hoje atendem a um público mais popular) e trancados lá durante três anos. Quase engasguei ao ouvir assim, durante o dia, sem o menor constrangimento, que a solução seria a criação de campos de concentração na terra da Rainha. Dá-lhe Guantanamo Bay!

Nem a jornalista, tampouco o professor, morderam a isca do ouvinte. Era de uma miopia intelectual tão grande, que chegava a ser desconcertante. Mas a jornalista bateu duro. Afirmou que era chegado o tempo de deixarmos de ser bonzinhos e agirmos com mais pulso. Contou as histórias devastadoras de famílias que foram destroçadas pela bomba e apelou para os sentimentos mais instintivos e humanos dos ouvintes. O professor respondeu que ele também se sentia enfurecido, amedrontado e entristecido com o ataque, mas disse que é preciso ter cuidado com as reações e focar mais nas ações. Um ponto importantíssimo da estratégia de prevenção de novos ataques (e vários foram evitados nos últimos anos) é a contribuição da comunidade. O próprio terrorista que se explodiu em Manchester havia sido denunciado em três ocasiões por pessoas que o conheciam. A estratégia de agir com mão de ferro nestas comunidades, batendo primeiro e perguntando depois, vai destruir um trabalho de inteligência, construído à custa de muito suor e dinheiro do contribuinte. O pior, vai tornar a situação ainda mais volátil.

No dia seguinte ao ataque de Manchester, a discussão era se não devíamos instalar um estado de emergência, com o exército nas ruas, propriedades e pessoas sendo revistadas sem a necessidade de autorização da Justiça e suspeitos sendo detidos sem julgamento. A jornalista do Daily Mail acreditava que esta seria a melhor jogada. Ela não usou exatamente estas palavras, mas disse que estava na hora de pararmos de pensar nos ‘Direitos Humanos dos Bandidos’, porque nos direitos dos inocentes ninguém estava pensando. Mesmo? Algumas porteiras devem permanecer fechadas e por uma razão muito clara, servem para proteger e evitar abusos. Não se trata de ‘Direitos dos Bandidos’ são ‘Direitos Humanos’, de todo ser humano. E não é para proteger o desgraçado que sai por aí matando e aterrorizando. São para garantir que todos, você, eu e seu vizinho, não sofram com abusos de poder. Até porque, se um dia a injustiça e o abuso baterem à sua porta, não nao vai ter ‘quem não deve, não teme’ que salve. Se a tentação de acreditar que ‘situações extremas exigem medidas extremas’ (o jeitinho inflamado de dizer que os fins justificam os meios) vencer, vamos perder muito mais do que ganhar.

Passei os olhos por alguns dos comentários a respeito do ataque de ontem. Alguns diziam que, se a polícia inglesa e o público pudessem andar armados, o estrago teria sido menor. Sério? Se fosse fácil conseguir armas de fogo nesta Ilha, certamente o número de vítimas teria sido muito maior. Além do mais, levou OITO minutos entre a primeira chamada de emergência e os três terroristas serem mortos pela polícia. Concordo que não deveria ter levado nem um minuto. Aliás, seria muito melhor que o ataque jamais tivesse acontecido. Mas a resposta da polícia deixa claro que este país não está complacente, de braços cruzados esperando pelo pior.

 

Ataque em Londres

Líderes mundiais, como é de praxe, se manifestaram sobre o atentado de ontem. Donald Trump aproveitou o momento para reforçar que é preciso barrar os imigrantes. Quer que as restrições de entrada aos cidadãos de seis países mulçumanos voltem a valer nos Estados Unidos.

Os crimes de ódio contra os islâmicos dispararam nesta Ilha, depois do ataque de Manchester e devem aumentar mais uma vez. Qualquer um que leia comentários sobre os atentados, topa com um sujeito, ou sujeita, deitando fora as palavras mais racistas que se pode imaginar para desqualificar os mulçumanos.

Vivemos em uma época em que somos cutucados o tempo inteiro a reagir. Os conteúdos que chegam à nós são curtos, filtrados e sensacionalistas. Quem nunca topou com um vídeo de 5 minutos que explica ‘tudo o que você tem que saber’ sobre o conflito na Síria ou a encrenca do Oriente Médio. E as listas? Não temos sequer a paciência de ler um texto em parágrafos hoje em dia. Depois do ataque em Manchester, uma das melhores pensatas que li foi do jornalista brasileiro Yan Boechat, que arrisca a pele para cobrir a situação no Iraque. Tomei a liberdade de reproduzir seu texto aqui neste post:

“A identidade do homem que se explodiu em Manchester matando mais de 20 pessoas ainda não foi divulgada. Mas quem acompanha um pouquinho a história do Oriente Médio já tem certeza de algumas coisas: ele é muçulmano sunita e frequentava uma mesquita de linha Wahabista.

Wahabismo é uma linha do Islã que surgiu onde hoje é a Arábia Saudita no século 18. É essa visão distorcida do Alcorão que embasa teologicamente praticamente todos os grupos terroristas atuais. Do Estado Islâmico a Al Qaeda, ou qualquer outo nome que um desses grupos tenha escolhido para entrar na categoria de “moderados”.

Wahabismo cresceu no mundo porque a família Saud chegou ao poder na península, com o apoio ocidental, e passou a exportá-lo após encher as burras com os petrodólares. O wahabismo é a base de sustentação ideológica do reino saudita. Tem sido assim desde 1750.

Wahabismo e sua visão distorcida do mundo é a chave para entender os movimentos terroristas  armados que nasceram nos anos 70,  com Osama Bin Laden no Afeganistão, primeiro para combater a União Soviética, depois os EUA. Ideologos do wahabismo de países como Arábia Saudita,Qatar e outros países do golfo tem financiado esses grupos há anos.

Essa semana, dias antes do atentado, Donald Trump esteve no coração do Wahabismo pedindo ajuda àqueles que o exportam e financiam para acabar com o terrorismo. Vendeu bilhões em armas. E afirmou que o responsável por desestabilizar a região xiita irã, eleito o maior inimigo dos wahabistas mundo afora.

Depois, pegou um voo direto de Ryad para Tel Aviv, onde foi aplaudido pelos israelenses por buscar apoio dos wahabistas para enfraquecer o Irã e “acabar” com o terrorismo.

Hoje a Inglaterra chora”  

(Yan Boechat)

O atentado de ontem em Londres domina o noticiário. Infelizmente, o ataque não foi a única carnificina das últimas vinte e quatro horas. No Afeganistão, homens-bomba mataram cinco pessoas e deixaram dezenas feridas. Elas participavam do funeral de um homem morto, durante um protesto contra a falta de segurança em Kabul. Em Mosul, no Iraque, dezenas de civis foram alvejados ao tentar escapar de uma região controlada pelo Estado Islâmico. Talvez a foto abaixo dê um pouco da dimensão do drama que se desenrola por lá.

 

Civis tentam escapar do terrror

Não se trata de comparar notas, quem é pior, o que é pior. É tudo muito sério e muito triste. Por isso, mais do nunca, é preciso pensar e refletir. Reagir menos e agir mais.

2 comentários em “Agir ou Reagir?

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