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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Arco-íris retumbante

Primeiro-ministro eleito da Irlanda

 

 

Pela primeira vez em sua história, a Irlanda acaba de eleger um primeiro-ministro gay. Aos 38 anos, Leo Varadkar, o médico que trocou os pacientes pela política, será o líder mais jovem da história irlandesa. Foi nomeado chefe do partido de centro irlandês, Fine Gael (com mais deputados no Legislativo). Ganhou de lavada, com 60% dos votos. Filho de uma enfermeira irlandesa e um médico indiano, Varadkar recebeu muita atenção da mídia por causa de sua sexualidade e árvore genealógica. Que tipo de premier ele será e como ele governará, no momento são questões que estão em segundo plano. O resultado da eleição irlandesa é altamente significativo: Até a década de 90, ser homossexual era crime na Irlanda. No dia 22 de maio de 2015, os irlandeses aprovaram, pelo voto direto, o casamento gay. Para relembrar como foi, vai aí um post da gaveta*:

 

Tive um encontro inesquecível durante um evento sobre meninos de rua, promovido pela Unicef em São Paulo. Foi com uma das representantes do órgão no Brasil. Pior é que não me lembro do nome dela (uma injustiça da minha memória). Eu disse que admirava o trabalho que eles estavam fazendo e perguntei se ela honestamente acreditava que um dia não veríamos mais crianças vivendo nas ruas de São Paulo. Ela respondeu que sim e acrescentou: às vésperas da abolição da escravatura no Brasil, se alguém dissesse que os escravos seriam libertados, pouca gente acreditaria. As mudanças acontecem. Infelizmente quase nunca no passo que gostaríamos. Mas elas acontecem. Quando leio as notícias do dia e fico com vontade de chorar de desânimo e tristeza, penso neste breve encontro de anos atrás. 

 

 

Pensei nesta mulher mais uma vez no fim-de-semana. Os irlandeses, frequentemente taxados de católicos retrógrados, votaram um ‘big fat yes’, um sim com letra maiúscula, para a legalização do casamento gay. Dezenove países já atravessaram essa ponte, mas foi a primeira vez em que o assunto foi definido pelo voto popular, através de um referendo. O voto não era obrigatório, mas ainda assim o comparecimento às urnas foi alto (passou dos 60%). Muitos irlandeses, que não moram mais na Irlanda, fizeram questão de voltar ao país só para votar. O resultado não poderia ser mais claro: 62.1% (mais de 70% em Dublin) disseram que queriam que a constituição fosse alterada, para legalizar o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo. O não venceu em apenas um pequeno distrito eleitoral numa área rural.

O jornal ‘The Independent’ publicou um artigo escrito por um ativista irlandês homossexual, às vésperas da votação. No texto, Ross Golden Bannon narra as dificuldades que passou durante a campanha pelo sim, batendo de porta em porta, pedindo apoio para a legalização do casamento gay. Ele fala do inferno de crescer ‘diferente’ num país católico e conservador, dos desvios que tinha que tomar para ir comprar alguma coisa, para não ter que topar com adolescentes que, na certa, iriam humilhá-lo. Para Ross, cada não que ele recebeu doeu muito. Uma nação inteira iria decidir se ele era ou não igual aos outros. Embora sem gostar, ele sabia que era parte do jogo.

 

 

 

 

Irlandeses aprovam casamento gay

Um jogo arriscado. Não faz muito tempo, precisamente em 1987, os irlandeses participaram de um referendo para decidir se o divórcio deveria ser ou não legal. O não venceu naquela ocasião. O sim desta vez indica que no espaço de apenas uma geração a sociedade irlandesa passou por uma transformação profunda.  O resultado do plebiscito mostra que a rachadura da igreja católica num dos países mais conservadores deste lado da Europa é enorme. O abuso sistemático praticado por padres pedófilos e sádicos durante anos (e com o conhecimento do alto clero irlandês) agora paga seu preço. A igreja católica foi o poder mais influente nos primeiros sessenta anos da República da Irlanda, moldando governos e ditando regras culturais, morais e políticas no país. 

O plebiscito mostrou que o país não é mais o mesmo. O arcebispo irlandês Diarmuid Martin votou contra, ainda que afirmando que os direitos dos gays deveriam ser respeitados. Agora ele diz que a igreja católica em seu país precisa de um choque de realidade. Ele reconhece que a igreja deve tentar se reconectar com os jovens para reconquistar seu papel de autoridade moral e cultural da Irlanda. Ele se disse intrigado com o fato de que a maioria dos cidadãos que votaram sim passou doze anos estudando em escolas católicas e concluiu: a nossa mensagem não está sendo ouvida. 

Há os que argumentam que outra pá de cal no poder da igreja católica na Irlanda foi a entrada do país na comunidade europeia –  uma poderosa alavanca econômica, que levantou o país da pobreza a um dos mais prósperos da Europa. Com a prosperidade, chegaram imigrantes e novas formas de ver o mundo. Em 1995, o divórcio foi aprovado em outro referendo. Dois anos antes, em 1993 a homossexualidade foi descriminalizada, 30 anos depois do Reino Unido.
Irlanda e Irlanda do Norte se separaram na década de 20 do século passado. A Irlanda do Norte preferiu continuar como parte da Grã-Bretanha.  As disputas entre os dois países até hoje não foram totalmente remediadas, mas este é assunto para outra hora. Os outros países do Reino Unido (Inglaterra, Escócia e País de Gales) aprovaram o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A Irlanda do Norte se recusou a discutir o assunto. Diz que a União Civil está de bom tamanho e que casamento é só entre homens e mulheres. Qual será o peso do referendo no país vizinho sobre a questão, só tendo uma bola de cristal para saber.   

Até os anos 70 na Irlanda, a servidora pública que se casasse tinha que deixar o emprego. Era a lei. Falando em lei, até 1980, a camisinha era ilegal na Irlanda. Fico chateada de não me lembrar do nome e nem do rosto da mulher com quem falei rapidamente naquele evento em São Paulo no século passado. Pelo menos não me esqueci de sua mensagem. Mulher sabida aquela.

 * Da Gaveta: Toda redação de TV tem o que o jargão jornalístico chama de ‘matéria de gaveta’. Reportagens, digamos nem tão factuais assim, que o editor-chefe ama em dias fracos de notícias. O Da Ilha também tem suas histórias Da Gaveta. São impressões de ‘outros carnavais’ na terra da Rainha.

3 thoughts to “Arco-íris retumbante”

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