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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

A informação e o risco da informação

  Recentemente, passei um fim-de-semana na Holanda. Além das tulipas maravilhosas, o que chamou muita atenção foram as crianças. O modo como elas parecem mais livres do que os meninos e meninas aqui da Ilha. Vi algumas brincando na rua desacompanhadas, muitas andando de bicicleta sozinhas em avenidas movimentadas. Não vi nenhuma usando capacete. Fui dar uma pesquisada e descobri alguns artigos, que afirmam que as crianças holandesas estão entre as mais felizes da Europa. Segundo os textos que li, a felicidade é atribuída a um sistema educacional com menos pressão. Elas começam a ler mais tarde, não usam uniforme e quase não têm tarefas para fazer em casa.

A pressão escolar pode ser um fator que contribui para a infelicidade na infância e adolescência. Mas, para o Dr. William Bird, um consultor do governo na área de saúde, o fato de que as crianças têm menos liberdade para se movimentar, têm pouco acesso às áreas verdes e poucas oportunidades de brincar sem atividades programadas e sem a supervisão dos adultos, tem um impacto profundo na saúde mental a longo prazo. No intervalo de três gerações, a independência das crianças foi extremamente reduzida. Um típico avô aqui da Ilha, aos oito anos, podia brincar na rua e se movimentar sozinho num raio de até dez quilômetros de casa. Passava horas brincando ao ar livre, sem que os pais tivessem a mínima ideia de onde ele estava. O pai teve as asas cortadas para uma área de dois quilômetros e o neto de oito anos não pode sair sozinho, além do próprio quintal.

A importância de atividades ao ar livre e o contato com áreas verdes fez com que o National Trust lançasse a campanha ’50 coisas para fazer antes dos onze anos e três quartos’. A iniciativa conta eventos temáticos e um farto material gráfico, que inclui livretos com sugestões como: construir cabanas de gravetos, subir em árvores, rolar na grama, fazer bolinho de lama e soltar pipa.

 

 

A campanha do National Trust foi muito bem aceita pelos pais. Mas é diferente de deixar os filhos soltos na rua. Os tempos são outros. Existe muito mais tráfego, se defendem os pais. Mas o que assusta são os carros, ou um vilão bem mais sinistro?

 Logo que vim morar nesta Ilha, os jornais falavam dia e noite sobre o desaparecimento de duas menininhas, Holly Wells e Jessica Chapman. As duas tinham dez anos. Saíram para comprar bala, numa cidade no condado de Cambridgeshire e nunca mais voltaram. Toda manhã, durante duas semanas, fotos das meninas estampavam a primeira página do Metro News, o jornal distribuído gratuitamente. Na versão da tarde, mais sobre o caso. A tensão era palpável. As meninas foram encontradas mortas e o zelador da escola delas foi condenado a quarenta anos de prisão. 

  O caso aconteceu em 2002. Eu nem era mãe nesta época e já pensava que este mundo não é um lugar seguro para as crianças. A questão é que quando somos bombardeados pela mídia o tempo todo, fica difícil avaliar riscos. A realidade é que casos como o das duas meninas, embora devastadores, são raros por aqui.

  Outro caso clássico é o desaparecimento de Madeleine McCann. Esta semana, os jornais exploraram sem dó nem piedade o assunto. A menininha de 3 anos desapareceu, quando passava férias no Algarve em Portugal. Quem nunca ouviu falar deste mistério, deve ter passado a última década exilado numa caverna em algum lugar remoto do sistema solar.

Madeleine McCann

 

  Gerry e Kate, os pais de Madeleine, deram uma longa entrevista para a BBC, afim de marcar a data e tentar manter viva a busca pela menina. A entrevistadora Fiona Bruce é prata da casa. Apresentadora de um programa de antiguidades, é ela quem entrevista o Príncipe Charles, por exemplo. Na reportagem, Gerry and Kate aparecem assentados numa sala preparada para a entrevista. Eles comentam sobre o alívio que foi ter a Scotland Yard oficialmente envolvida nas buscas. Desde 2011, o governo britânico já gastou onze milhões de libras do contribuinte (mais de 50 milhões de reais) e, apesar do que disseram os pais da menina sobre novas pistas, o que realmente aconteceu naquele maio de 2007, e depois desta data, continua uma incognita.

Entrevista com os pais de Madeleine

   Quando ainda estava na universidade, comecei a trabalhar como estagiária num Talk Show numa emissora de tevê. Toda semana tinha um debate com algum tema relacionado a sexo. A brincadeira entre a turma da cozinha, nós, os mortais que costumávamos ralar muito para pôr o programa no ar, era que só faltava fazer um debate sobre o sexo depois da morte. Porque, em vida, já não havia mais o que ser dito. Vendo as matérias sobre o desaparecimento de Madeleine, me lembrei dos meus tempos de foca. Confesso que não tive paciência, nem estomago, de ler todos os textos sobre o assunto, mas as manchetes diziam: ‘possível novo suspeito’ (o que significa isso? Não sei). ‘Polícia mais perto do que nunca de desvendar o caso’ (Sério?  De novo? Como assim?). ‘Oito teorias sobre o desaparecimento de Maddie’ (Isso não é jornalismo, é obra de ficção, de imaginação). O problema com as teorias da conspiração é que elas são repetidas com tanta frequência, que começam a soar como se fossem verdade.

  Embora não tenha lido todos os artigos sobre o assunto, li alguns dos comentários do público. Se vivêssemos no tempo da Inquisição, Gerry e Kate já teriam virado churrasquinho. Fiona Bruce também leu os comentários enfurecidos, que circulam por aí, e perguntou aos pais da menina como eles lidam com isso. Eles disseram que não leem este tipo de coisa, mas que se preocupam com os filhos gêmeos, que, mais cedo ou mais tarde, vão acabar lendo sobre os pais e o desaparecimento da irmã.

  Os detetives e algozes cibernéticos acreditam por A + B que a menina foi morta pelos pais. Compraram a versão de um policial português, que investigou o caso. Kate e Gerry nunca foram considerados oficialmente suspeitos pela polícia portuguesa. O investigador foi demitido e ganhou seus cinco minutos de fama, escrevendo um livro com sua teoria, sem apresentar uma prova sequer.

  Há dez anos o público é metralhado com notícias e elucubrações sobre o caso. É muito tempo de ansiedade, sem que haja um fechamento para história. Ela está viva? O que aconteceu? Talvez a mistura do senso de impotência e angustia possa explicar uma petição, que está rolando online. O objetivo é que Kate e Gerry sejam criminalmente indiciados e encarcerados, por abandono de menor. Deixaram as crianças dormindo no quarto, para jantar no restaurante do hotel. A temporada de caça às bruxas em franca expansão. 

  Vamos, por hipótese, já que esse é o tom do momento, imaginar que a menina tenha mesmo sido assassinada pelos pais. Eles deram um remedinho para ela dormir, para curtirem a balada em paz. Erraram na mão e a criança morreu. SE isso for verdade, matar a própria filha por engano, lidar com a culpa e a dor da perda da menina, esconder o corpo e manter viva uma mentira por uma década… se isso não é o inferno na terra, não sei mais o que é. SE eles não tiverem assassinado a filha e ainda assim tiverem que lidar com a dor da ausência, a angústia de não saber como a criança está, se está viva ou morta e além de viver com a culpa de tê-la deixado desacompanhada e vulnerável já não é viver o inferno na terra? Por que é tão importante jogar sal na ferida alheia? 

  Conheci uma inglesa, que fez questão de mostrar um documentário sobre o desaparecimento de Madeleine a seu filho de quatro anos. Ela não estava segurando a onda da ansiedade reinante, produzida pelo desaparecimento e suas repercussões. Como se, ao expor o menino aos fatos, pudesse protege-lo de algum perigo horroroso e invisível, que tirava o sono da mãe.

   A infelicidade dos filhos anda tirando o sono dos pais por aqui. O seriado ‘13 reasons why’, os ‘13 porquês’ da Netflix têm divido opiniões. Baseada num livro com o mesmo nome, a série aborda o tema do suicídio juvenil. Este é assunto para um outro post. Mas, para fechar esse, que já está maior do que eu gostaria, o tópico entrou aqui, porque, pelo que tenho acompanhado, muitos pais decidiram assistir aos episódios com os filhos adolescentes, menores de 18 anos, que é idade recomendada pela censura para o programa. 

 Uma baciada de artigos foi publicada elogiando a nova produção, por tratar do tema, que é considerado tabu. Outros caíram de pau. Não pretendo entrar no mérito da série, nem no debate sobre a validade ou o perigo de se falar sobre o suicídio. O quanto é esclarecedor ou em que medida normaliza/banaliza o comportamento. A questão é: será que além de uma escola mais exigente, uma vida mais restrita à sala (e aos computadores), o excesso de informação também não estaria deixando nossas crianças mais ansiosas e mais infelizes? 

No grande esquema das relações familiares, estamos todos conectados. Não adianta falarmos sobre o comportamento de nossos filhos, como se ele fosse alienígena. Talvez esteja na hora de afrouxar o laço um pouco mais. Aprender uma lição ou duas com os holandeses e a avaliar os perigos de cabeça fria; separando o joio do trigo: o que é risco real e o que é a percepção do risco. Fazer um esforço consciente e evitar fazer com que o caminho deles seja livre de perigos e assombros, mesmo sabendo que esse é um plano fadado ao fracasso. Viver é arriscado, mas é só se arriscando, que se encontra o surpreendente e o inesperado.

2 comentários em “A informação e o risco da informação

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