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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Greve!

 

Nos anos 90, fui a uma cantina italiana no Bixiga, em São Paulo. Um daqueles restaurantes com um cardápio de quarenta páginas plastificadas. Prestes a ter um esgotamento nervoso com tantas opções, pedi um suflê. O garçom olhou incrédulo para mim. Sobrancelha arqueada, segurando a caneta no ar, ele perguntou:- Tem certeza?

Quis responder resoluta: resolvi, está resolvido. Mas só disse um sim com um sorrisinho – vai que ele cospe na minha comida. Tolinha. Assim que chegou o prato (uma espécie de omelete pesada, murcha e malpassada, cheirando a ovo cru, misturado com goma arábica e muito queijo gordurento), o garçom meio que levantou o ombro e me lançou um olhar que dizia: “eu avisei. Agora não me venha reclamar”.

De vez em quando, as experiências passadas servem para alguma coisa. Por um instante, fui tele transportada para a cantina italiana, quando Joe (o nome estava no crachá), o funcionário da estação de trem, perguntou:

– Tem certeza?

Eu queria comprar um bilhete sazonal para o bimestre. Joe explicou que era mau negócio. Greve de novo, ele disse. “Melhor comprar o bilhete semanal nas semanas em que não tem greve, e o diário nas semanas de paralisação”. Bem-vinda aos esquemas de sobrevivência em tempos de greve.

Moro numa região servida (mal) pela Southern Rail, uma companhia de trens, que é motivo de piada nos programas humorísticos e que é capaz de despertar os sentimentos mais raivosos em seus usuários. Só no verão do ano passado, foram 17 dias de greve. No total de 2016, 59.983 trens foram cancelados ou atrasaram, deixando na mão quase 300 mil passageiros por dia. É a pior disputa do setor nos últimos 23 anos, desde que o serviço foi privatizado.

O que está pegando? Os trens hoje em dia são mais modernos e têm mecanismos de segurança mais eficientes. Muitas companhias já operam apenas com o condutor. Outras não. Os sindicatos dessas companhias (a Southern incluída) dizem que estão interessados na segurança dos passageiros e, por isso, além do condutor, um outro funcionário é fundamental. Ele é a pessoa que apita e mostra um sinal para avisar que todos os passageiros estão a bordo e assim o condutor pode fechar as portas do trem. Vários trens já são operados apenas com o condutor por aqui. Outros nem condutor têm.

Li uma carta anônima, publicada pelo jornal The Guardian, na qual um condutor defende a greve. Ele diz que o que está em jogo não é aumento de salário. Os condutores de trens recebem um salário anual de quarenta e nove mil libras, podendo receber mais cinco mil de horas extras. Isso dá mais ou menos dezessete mil reais por mês, para uma jornada de trabalho de 35 horas por semana, durante quatro dias. 

O autor da carta diz que odeia fazer greve, mas que está genuinamente preocupado com a segurança dos passageiros. Ele admite que as empresas não vão despedir os fiscais, mas afirma que no futuro vai ser mais fácil se livrar desses funcionários.

 

 

A greve dos trens incomoda muita gente, mas eles não são os campeões das paralisações aqui na Ilha. Em primeiro lugar vêm os funcionários do NHS (o serviço público de saúde), os educadores em segundo e em terceiro o setor dos transportes. O NHS está no topo da lista, não porque fez mais greve. A conta considera o número de dias perdidos e não o número de dias em greve. Melhor explicar direito: como o NHS tem bem mais funcionários que o setor de transportes por exemplo, cada um deles em greve conta como um dia de paralisação. Logo, são mais dias perdidos. Entendeu?

No ano passado, os ‘Junior Doctors’, semelhante aos médicos residentes recém-formados, pararam várias vezes. Eles representam um terço dos médicos no setor de emergências dos hospitais na Inglaterra. O salário inicial destes 55 mil doutores faz com que eles pensem se não seria melhor ser maquinista. Recebem vinte e três mil libras por ano, com as horas extras, o salário pode chegar a trinta mil. O governo anunciou que daria um aumento de 13,5%, mas cortaria os bônus de quem dá plantão à noite e nos fins-de-semana.

Volta e meia, as tevês mostram o drama dos médicos nos hospitais daqui. Eles estão sobrecarregados de trabalho e não é raro ver um ou outro chorando de exaustão e frustração. O aumento parece um bom negócio, mas, na ponta do lápis, eles vão perder mais do que ganhar.

 

 

Nesta Ilha, que é o berço da Revolução Industrial, fazer greve dava cadeia. A primeira greve bem-sucedida ocorreu em 1888. Ficou conhecida como The MatchGirls Strike, a greve das mulheres que trabalhavam na fabricação de palitos de fósforo. Elas tinham uma jornada de trabalho de 14 horas diárias, eram penalizadas a todo momento pelas menores faltas, tinham a saúde afetada pela contaminação por fósforo e, como se não bastasse, recebiam um salário miserável.

 

 

 

Pioneiras das greves

 

A história deste país é cheia de greves. Mas foi nos anos 70 que o bicho pegou. Os sindicatos eram cada vez mais fortes, a economia cambaleava e as taxas de juros estavam nas alturas. O governo então estabeleceu tetos de aumento de salário. No meio de 73, a União Nacional dos Mineradores (NUM) resolveu que não tinha essa de teto coisa nenhuma. Era um sindicato fortíssimo neste país, o setor que mantinha as luzes acessas. Eles reivindicaram 35% de aumento e pediram eleições para que um legítimo governo trabalhista tivesse a chance de defender os trabalhadores deste país. Pediam a nacionalização de companhias e a quebra do monopólio de setores estratégicos. A greve não passou, mas uma espécie de ‘operação tartaruga’ foi aprovada. A produção cairia pela metade.

Pegou muito mal na imprensa, que foi implacável com os mineradores. O governo então implementou a semana de três dias, para economizar energia e  carvão. Foram tantos blecautes, que começou a faltar vela no mercado. A programação das tevês terminava às 10:30 da noite e os pubs eram obrigados a fechar mais cedo. Foram dias que trouxeram à tona memórias do tempo de racionamento no pós-guerra e que ficaram gravados na memória de muitos ingleses.

Uma década depois, cansado de tanta greve, o eleitor levou Margaret Thatcher ao poder. Seu governo Conservador esmagaria os sindicatos de mineradores, jogando uma pá de cal na atividade do setor neste país. A maioria das minas eram estatais e a produção caríssima. Elas foram fechadas. Um desastre para muitas comunidades, que durante séculos viveram da atividade mineradora. Thatcher importou enormes quantidades de carvão e até hoje ela é odiada neste país. Seu funeral, em 2013, foi marcado por protestos e comemorações.

Faz greve quem pode. As recentes paralisações no setor de transporte por aqui não contam com o apoio da mídia, nem do público. São inúmeras as histórias de trabalhadores que tiveram o ponto cortado, ou mesmo foram despedidos, porque não conseguiram chegar ao trabalho, ou estavam atrasados em função da greve dos trens. A paciência do público definha na proporção em que as paralisações crescem. Os ferroviários/metroviários não contam com o apoio popular que os ‘Junior Doctors’ recebem. Mas eles sabem que, se pararem, afetam muita gente. Se os embaladores de Coca-Cola resolverem cruzar os braços, não vão fazer tanto estrago, quanto os condutores de trens.

Os sindicatos são um importante instrumento democrático na defesa dos direitos dos trabalhadores. Não tem discussão. Se não fosse pelos trabalhadores se organizarem e reivindicarem, provavelmente a jornada de trabalho ainda seria de 14 horas por dia e em condições insalubres. A questão vai ser como os maquinistas vão se virar, quando todos os trens sem condutores se tornarem realidade nesta Ilha.

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