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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Nunca, jamais, em tempo algum…

Nunca, jamais, em tempo algum… palavras que os políticos experientes evitam. Mas que às vezes deixam escapar, para depois, com muito óleo de peroba na cara, dizerem que não foi bem assim…

A primeira-ministra Theresa May anunciou agora de manhã uma ‘snap election’, uma eleição geral instantânea em cinquenta dias. Amanhã, o parlamento britânico deve votar se aprova ou não a eleição convocada pela primeira-ministra. A resposta provavelmente vai ser SIM. No dia 8 de junho, iremos de novo às urnas, apenas dois anos após a última eleição geral.

Em setembro do ano passado, a recém-empossada Theresa May disse no programa de Andrew Marr (o mais importante na cobertura política aqui da Ilha) que não iria de jeito nenhum convocar uma eleição instantânea e que o próximo pleito seria em 2020, como previa a lei. A entrevista tem sido repetida à exaustão, desde o anúncio da mudança de discurso.

Hoje pela manhã, a primeira-ministra deu mais uma prova de que está se graduando no cinismo da política. Na cara dura, repetiu os mesmos argumentos, que elencou em inúmeras situações, para dizer porque não convocaria eleições gerais: este país precisa de estabilidade em tempos de Brexit. Mas desta vez, o mantra serviu para justificar porque ela considera tão importante uma eleição às pressas.

O que a primeira-ministra quer de fato é mais poder. Neste país não se vota para a posição máxima do executivo. O cargo de primeiro-ministro é ocupado pelo (a) líder do partido com mais membros no parlamento britanico. Nas últimas eleições, David Cameron ganhou seu segundo mandato como premier. Logo após o plebiscito do Brexit, ele jogou a toalha e Theresa May tornou- se a primeira-ministra.

 

Primeira-ministra convoca eleição geral

Pois hoje, Theresa May apareceu na frente do número 10 da Downing Street  para dizer que num momento tão crítico da história deste país deveria haver união. Segundo ela, o povo está unido, mas Westminster não. Ela tem encontrado oposição na Casa dos Lordes, e entre os parlamentares de oposição; leia-se trabalhistas,  liberais- democratas e os escoceses. O que ela não mencionou foi a oposição no próprio partido conservador. Para May, só há um jeito de se fazer o divórcio com a Europa: retomando o controle total das fronteiras, das leis e do comércio do país, o chamado ‘hard Brexit’.

O caso é que mais gente votou pela saída da Comunidade Europeia do que pela permanência. Os termos desta saída não estavam na mesa. Pelo menos não claramente. Como este abacaxi será descascado ainda é um mistério. A primeira-ministra deixou claro hoje que não está afim de ficar brigando internamente por cada novo lance desta disputa. Quer fazer tudo do jeito dela, sem perder tempo negociando em casa, como terá que fazer na Europa. 

Os resultados inesperados do Brexit e das eleições americanas têm feito muita gente pensar que a astrologia é melhor para prever o futuro do que as pesquisas de opinião. Mesmo assim, Theresa May está apostando as fichas no que dizem os gurus da opinião pública. Os resultados das pesquisas variam um pouco, mas, se as eleições fossem hoje, a primeira-ministra lideraria com 20 pontos de vantagem. Nada mal. Nada mal mesmo.

Os partidos de oposição foram rápidos em suas respostas. Eles não podem dizer não à convocação da eleição instantânea, porque estariam assim afirmando que bancam a primeira-ministra e que não é preciso mudar. Acuados, porém sorridentes, entraram imediatamente em clima de campanha:  usaram o espaço na mídia para dizer que esta é uma oportunidade de ouro, que não pretendem perder.

Jeremy Corbyn, líder dos trabalhistas, avisou que vai lutar duro para aumentar o número de cadeiras de seu partido no parlamento. Vai ser o maior teste de sua liderança. Os trabalhistas perderam feio na última eleição geral. O problema é que Corbyn não convence nem os membros do próprio partido. Ele sempre foi um político de oposição, votando inúmeras vezes contra o próprio partido no passado. Ele foi eleito graças ao apoio dos sindicatos, mas não tem a simpatia dos próprios colegas de partido no parlamento. Gasta grande parte de seu tempo tendo que lidar com motins entre seus camaradas.

Os liberais-democratas foram quase aniquilados do parlamento nas últimas eleições. Queimaram muito o filme quando dividiram o poder com David Cameron em seu primeiro mandato. Tim Farrow, o líder do partido, afirmou que a eleição instantânea representa uma chance para o eleitorado brigar pelo ‘soft Brexit’. Os ‘lib-dems’ inclusive defendem a convocação de um novo plebiscito para o divórcio com a Europa.

A primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon, deu a resposta mais afiada à Theresa May. Falou com todas as letras que May está interessada em ter um poder absoluto e que os escoceses vão mais uma vez se unir para evitar que isso aconteça.

Quando convocou o plebiscito do Brexit, David Cameron estava com a faca e o queijo na mão. Seu partido tinha vencido as eleições e não mais precisaria dividir o poder num governo de coalizão. Ele apostou que o Brexit não passaria, ele calaria a boca dos membros de seu partido, que queriam sair da União Europeia e assim seria o rei da cocada preta. Apostou as fichas no número errado e perdeu.

Dizem que peixe morre pela boca. Nas próximas semanas, a entrevista de Theresa May, dizendo enfaticamente que não iria convocar eleições instantâneas, pode voltar para assombrá-la. May fez sua aposta: o nunca, jamais e em tempo algum não vai fisgá-la, porque ela não é peixe pequeno. No jogo da política, ela está se mostrando um tubarão. 

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2 comentários em “Nunca, jamais, em tempo algum…

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