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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Trocando em Miúdos

Cabral mal tinha baixado âncoras no Brasil e a espanholinha Catarina, de 16 anos, chegava a esta Ilha, depois de uma tempestuosa viagem marítima, que durou três meses. Casamento arranjado e tudo. Mas o matrimônio com o príncipe Arthur, um ano mais moço que ela, não durou nem o tempo de ser consumado. A saúde do jovem herdeiro foi consumida por uma doença misteriosa, que o fez suar até desencarnar. Adolescente, estrangeira e viúva num piscar de olhos. Diria que a história de Catarina de Aragão neste reino não teve um bom começo.

Os anos seguintes foram de limbo. Seu pai não a queria de volta – sem o reembolso da primeira parte do dote, que tinha enviado à família real inglesa. Já Henrique, o irmão mais novo de Arthur, estava de olho na boutique dela: queria a outra metade do dote. Seus pais morreram, ele virou rei e se casou discretamente com a cunhada espanhola. Ganhou um passe livre do Vaticano, que anulou o primeiro casamento, porque segundo constava, nunca foi consumado, devido à pouca idade dos nubentes.

O que não teve de ação no primeiro casamento de Catarina de Aragão, sobrou no segundo, com Henrique VIII. Um ano depois de juntarem as escovas de dente, a jovem rainha engravidou, mas a menina nasceu morta. No ano seguinte, teve um menino. Henrique como o pai. Só viveu 52 dias. Depois vieram mais dois natimortos até que nasceu Maria. Meses depois, Catarina perderia sua sexta criança, outra menina, que viveu apenas alguns dias depois do parto.

Foi muito drama para a cabeça de Henrique. Ele queria um filho varão e arrastava as asas para Ana Bolena, quatro anos mais nova que ele e bem menos ligada que Catarina em assuntos religiosos.  Foram fuçar a bíblia e encontraram no antigo testamento alguma coisa terrível sobre casar com a mulher do irmão. Taí, eles foram amaldiçoados, não tiveram filhos meninos e, por isso, o casamento teria que ser anulado.

O Papa Clemente VII não engoliu essa de ‘está escrito no Levítico’. Além do mais, ele era prisioneiro do Imperador Carlos I de Roma, que vinha a ser o sobrinho de Catarina! Foi então que aconteceu o divórcio do século. Século XVI!

Henrique VIII rompeu com o Vaticano e inventou sua própria igreja: anglicana. Diria que a história de Catarina também não acabou bem nesta Ilha. Ela foi exilada para um castelo gelado, onde viveu sem nunca mais poder ver a filha Maria, até que morreu no ostracismo. Henrique virou um ‘serial-husband’, casando-se e decepando cabeças, como se não houvesse amanhã.

 

Henrique VIII

 

 

Cinco séculos mais tarde, calhou de ser uma mulher que assinou os papéis do divórcio do século. Século XXI. Se você está pensando em Angelina Jolie, errou de continente. Hoje, dia vinte e nove, no finzinho de março, como a primeira-ministra havia ameaçado (ou prometido), foi entregue o documento, que invoca o famoso Artigo 50 do Tratado de Lisboa. Em bom português, foi dado o pontapé inicial para começar o divórcio entre essa Ilha e a Comunidade Europeia. Popularmente conhecido como Brexit.

Assim que o papel bater nas portas da União Europeia, a lavação de roupa suja, comum num casamento desfeito, vai começar. Britânicos e europeus vão ter dois anos para tentar chegar a um acordo sobre questões cruciais, que vão ter um impacto significativo neste canto do planeta.

Trocando em miúdos: quem vai ficar com o livro do Neruda, que você nunca leu? Como vai ser a separação dos bens? Bruxelas provavelmente vai mandar a conta. ‘Quer sair? Então pague a bagatela de cinquenta bilhões de libras para o clube’. ‘Eles podem mandar a conta que quiserem, mas não vamos pagar’. Pode ser a resposta britânica. Vai ser um jogo em que cada centavo vai contar.

Foram quarenta e quatro anos de casamento, muitos deles dormindo sob o mesmo lençol de um mercado único, sem tarifas alfandegárias e centenas acordos comerciais. O governo anda querendo vender o peixe de que é melhor só do que mal acompanhado.

Depois da separação, vai emagrecer, dar um tapa no visual e aparecer de roupa nova para dizer que está disponível e aberto para o que vier: ‘Vamos ter mais liberdade para fazer acordos com os outros países do mundo. Canadá, Estados Unidos, vai ser uma festa’. Talvez sim. Talvez não. Trump-instável-e-intratável não vai ser fácil, certo? 

A alternativa poderia ser continuar no mercado único. Tipo um casamento em casas separadas. A primeira-ministra Theresa May já deu indícios que não quer ir por esse caminho. Será que é uma boa ideia cuspir no prato que comeu? Metade dos acordos de importações e exportações deste país é com a Europa.

Outra pedra no caminho dos divórcios são as crianças. O que vai ser dos três milhões de europeus que vivem por aqui? Nas últimas semanas, tem sido frequente ver matérias em que famílias de europeus, professores universitários e outros profissionais, dizem que estão fazendo as malas para voltar para casa. Eles reclamam que não se sentem mais bem-vindos. 

A Casa dos Lordes (uma espécie de senado federal) quis pressionar o governo para que garantisse que os europeus, que vivem por aqui, poderão ficar legalmente, com seus direitos assegurados depois do Brexit. A discussão voltou para Casa dos Comuns (câmera federal) e os parlamentares votaram com a primeira-ministra. Não há garantias de nada. Tudo está na mesa para ser negociado. O que, por tabela, inclui a situação dos milhares de britânicos, que hoje vivem em outros países europeus.

 

Brexit

 

A questão da imigração dominou o debate durante a campanha do Brexit. O governo sugere que vai criar um sistema para que trabalhadores (qualificados) de países europeus consigam visto de trabalho e residência. Aqueles que torceram pela separação acreditam que com menos mão-de- obra barata vindo dos países mais pobres do Continente, os trabalhadores britânicos vão se dar bem. A questão é que, mesmo com a atual força de trabalho europeia, o desemprego está baixo e vem caindo. Os fazendeiros, os asilos e outros setores que precisam do imigrante para sobreviver estão preocupados com o que virá por aí.

Quem vive por aqui já ouviu falar sobre o caos dos serviços sociais. O NHS, o sistema público de saúde, está em crise. A população está envelhecendo. Muitos pacientes de hospitais não podem ter alta, simplesmente porque não há para onde mandá-los. O sistema está quebrado. Outro dia, num almoço na casa de um amigo, um dos convidados fez o seguinte comentário: ‘sem os imigrantes europeus, o salário dos cuidadores de idosos vai subir e assim mais britânicos, que hoje não querem fazer esse tipo de serviço, vão se candidatar aos empregos’. Quando perguntei a ele onde o governo iria achar dinheiro para pagar esses salários mais altos, ele desconversou.

Inglaterra e País de Gales votaram pelo Brexit. Irlanda do Norte e Escócia se opuseram ao divórcio. Nicola Sturgeon, a primeira-ministra da Escócia, anda pilhando a colega inglesa, Theresa May. Ela quer que o país adote um soft brexit e já avisou que quer um novo plebiscito, para que os escoceses decidam se querem ou não fazer parte do Reino Unido. May respondeu dizendo que não vai aprovar referendo nenhum até que a saída da União Europeia se concretize. Ela sabe o quão perigosos os plebiscitos podem ser.

O processo do ‘divórcio’ pode terminar sem acordo algum. É uma possibilidade, já que este casamento tem 28 países envolvidos. Theresa May anda dizendo que, se isso acontecer, não vai ser o fim do mundo, porque a os europeus têm tanto interesse no Reino Unido quanto os britânicos têm na Europa. Outros dizem que vai custar mais caro negociar fora da União Europeia. Se não conseguirem chegar a um denominador comum, os ‘filhos’ desta união, espalhados por esta Ilha e pelo Continente Europeu, vão se sentir mais órfãos do que nunca, sem nenhuma garantia. Como sempre, num divórcio são as crianças que sofrem.

O divórcio com a Europa Católica, promovido por Henrique VIII, provocou divisões e conflitos, que duraram séculos nesta parte do mundo. No atual e conturbado cenário político mundial, Theresa May talvez tenha dado a própria cabeça de bandeja, ao assinar o Brexit. Mas essa é uma história que só os próximos dois anos dirão. 

6 comentários em “Trocando em Miúdos

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