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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Bombas por Livros

 

“Meia hora de ‘bloody’ Martin McGuinness! O jornal não fala de outro assunto. Nem a previsão do tempo eles deram! ” Foi assim que acordei anteontem. Maridão naquele humor típico de quem não foi engendrado para sair da cama cedo. 

Via de regra, quando uma figura pública importante morre, imediatamente ela é elevada ao status de santo, ainda que temporariamente. Mas, como explicar o republicano irlandês Martin McGuinness? De terrorista (na visão britânica), ou idealista que encontrou na luta armada sua bandeira (de acordo com o IRA) à pacifista.

A ofensiva armada do IRA, o exército paramilitar da Irlanda do Norte, durou cerca de 30 anos: do fim da década de sessenta até 1997, quando o acordo da sexta-feira santa foi firmado. Foram três décadas de muito sangue derramado. Pior do que os ataques de onze de setembro, disse a escritora Doris Lessing, vencedora do Nobel de Literatura em 2007. Num artigo publicado dez anos atrás, a escritora diz que 3700 pessoas morreram nos ataques do IRA e outras milhares ficaram feridas.

Martin McGuinness nasceu numa família católica pobre na Irlanda do Norte. Aos vinte e poucos anos era uma das figuras mais importantes do IRA. As imagens da época do jovem McGuinness mostram um homem de feições endurecidas, enfurecidas e palavras cortantes. Ele chegou a ser o número dois do IRA. Foi preso e oficialmente deixou a organização em 1974 para se dedicar à política. Mas nem todo mundo compra essa versão. Seu envolvimento com o IRA teria durado muito mais, alguns afirmam.

 

Martin McGuinness – de terrorista a pacifista

Ontem Londres viveu mais um ataque terrorista. Um homem, um carro e uma faca. O agressor, que no momento em que escrevo este post não foi oficialmente identificado*, fez um boliche humano na ponte de Westminster, normalmente apinhada de turistas se acotovelando para tirar uma foto do Big Ben. Dois pedestres morreram. Outros estão entre a vida e a morte em dois hospitais da capital. Ao fim da ponte, o carro bateu numa das barreiras colocadas estrategicamente para evitar um carro bomba explodindo o Parlamento Britânico. O homem desceu do carro, esfaqueou um policial desarmado, que tentou pará-lo, antes de ser morto a tiros.

Londres parou. O gosto amargo do terror trouxe de volta o pânico de julho de 2005, quando 56 pessoas perderam a vida nas mãos de homens-bomba. Para quem viveu mais e não tem memória curta, as imagens da campanha sangrenta do IRA voltaram também. Esse é o negócio do terror. Cria uma sensação incapacitante de vulnerabilidade. Como as milhares de bombas que Hitler jogou sobre as cabeças dos britânicos durante a Segunda-Guerra. Não interessa se o terror é nazista, irlandês ou islâmico. O sentimento é o mesmo.

 O terror cria instabilidade: o pior pode sempre acontecer, quando menos se espera. E olha que essa Ilha estava esperando fazia tempo por um ataque como o de ontem. Neste caso, o slogan tipicamente inglês de esperar pelo melhor e se preparar para o pior não vale. Há anos os britânicos escutam falar da escala de risco para ataques terroristas: alto, severo, iminente. Deste 2001, essa escala não sai do vermelho.

Uma das imagens mais simbólicas do ataque de ontem foi a de um parlamentar  prestando socorro ao policial esfaqueado. Tobias Ellwood tentou a massagem cardíaca e respiração boca-a-boca para trazer de volta o policial. Ellwood perdeu um irmão no ataque terrorista de Bali, em 2002. O policial Keith Palmer faleceu, assim como uma professora espanhola de 43 anos, que cruzava a ponte para ir buscar os dois filhos pequenos na escola. Um homem ainda não identificado também morreu no atropelamento**. Talvez o número de vítimas fatais suba mais***. Nos próximos dias, vamos conhecer melhor suas histórias e refletir sobre absurdo da violência.

 

Parlamentar tenta salvar policial esfaqueado

 

Vão aparecer discussões em que se compara a violência dos ataques terroristas à dos drones, que destroem vidas no aperto de um botão de comando. Como se uma brutalidade fosse pior ou melhor que a outra. Como se a violência fosse justificável. Irão surgir debates sobre a violência nas grandes cidades brasileiras versus Londres. O preconceito e o ódio contra os mulçumanos tenderão a crescer. Hoje, o viúvo de Jo Cox, a parlamentar assassinada no ano passado, disse que o terrorista do ataque de ontem representa os mulçumanos tanto quanto o assassino de Jo representa os moradores do norte da Inglaterra (onde ela vivia e morreu). Ou seja, se for confirmado que o terrorista era mesmo mulçumano, não significa que todos os islâmicos são terroristas. Tampouco todos os moradores de Yorkshire são radicais nacionalistas.

Ontem à tarde recebi um telefonema de uma amiga, que trabalha para o governo britânico. Ela estava bem mexida. Contou que atravessou a ponte quinze minutos antes do atentado. Seus colegas estavam trancados dentro do Parlamento e em prédios públicos, impedidos de voltar para casa até segunda ordem. Hoje algumas estações de metrô estampam mensagens de otimismo e perseverança. Uma delas diz que a flor que desabrocha na adversidade é a mais bonita. A outra avisa: “A todos terroristas, informamos educadamente que: Isso aqui é Londres! E independentemente do que vocês fizerem conosco, nós vamos beber chá e seguir em frente. Obrigado”. A questão é saber como seguir em frente. Com medo? Ódio?

 

Aviso aos terroristas

 

Martin McGuinness, mesmo seus oponentes mais impiedosos concordam, teve um papel-chave na costura do acordo da sexta-feira santa, que pavimentou o processo de paz na Irlanda do Norte. Nas imagens, incessantemente mostradas no dia de sua morte, é notável a transformação do jovem radical, que falava entre os dentes, para o homem sorridente, que aprendeu a usar palavras ao invés de armas.

 McGuinness foi o vice-primeiro-ministro da Irlanda do Norte durante dez anos. Alguns deles ao lado de inimigos históricos. No dia de sua morte, uma multidão foi às ruas se despedir dele. O ex-presidente americano Bill Clinton avisou que irá ao funeral do ex-terrorista, que virou pacifista****.

O ex-primeiro ministro Tony Blair teria dito, na época das negociações com a Irlanda do Norte, que acordos de paz nunca ficam do jeito como estão. Retrocedem ou andam para frente. Para muita gente é difícil ver virtude nos feitos de McGuinness nos últimos anos de sua vida. Uma dessas pessoas é o conservador Lord Tebbit. Ele estava com outros políticos no hotel bombardeado pelo IRA em Brighton em 1984. O objetivo do ataque era acertar a então primeira-ministra Margaret Thatcher e o alto escalão do governo. Thatcher saiu ilesa, mas cinco pessoas morreram. Trinta e uma ficaram feridas. Entre elas, a esposa de Lord Tebbit, que nunca mais andou e sofre de dores crônicas há mais de 30 anos.

Andar para frente nem sempre é fácil. Principalmente depois de um ataque. Eu vim morar nesta Ilha depois do acordo de paz entre britânicos e irlandeses. Não vivi aqui no auge da crise, quando existia o medo constante de bombas explodindo e matando indiscriminadamente. No obituário de Martin McGuinness, ouvi um político dizendo que era admirável ver como McGuinness, que foi Ministro da Educação, lutava por livros para as crianças da escola primária como se fosse a batalha de sua vida. Vai ver que ele percebeu o valor de trocar bombas por livros. Livros no plural.

Só nos resta torcer para que as flores que desabrocham deste período turbulento tenham o perfume da pluraridade. 

 

*O agressor foi identificado como Khalid Massod. Um inglês que foi batizado  como Adrian Russell Ajo e que mais tarde mudou de nome. Ele tinha um histórico de violência e foi preso mais de uma vez por agressão grave e porte de faca. Massod teria sido radicalizado na prisão.

** A segunda vítima do atropelamento foi um turista americano, que veio para Londres para comemorar vinte e cinco anos de casamento. Sua esposa também foi ferida e está em estado grave.

*** Ontem, dia 23, mais uma vítima faleceu. Um senhor de 75 anos, que morava no sul de Londres.

**** Bill Clinton fez um discurso conciliador no funeral de Martin McGuinness. Ele falou sobre a importância do processo de paz. Gerry Adams, o presidente do partido republicano irlandês SinnFéin, foi bastante aplaudido. Junto ao túmulo de McGuinness, ele disse que o companheiro nunca foi terrorista e sim um combatente da Liberdade.

 

 

 

 

 

7 thoughts to “Bombas por Livros”

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