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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Futebol Conto de Fadas

Futebol nunca foi a minha praia. Da Copa, sempre gostei da festa. Até começo a assistir aos jogos, mas tenho uma concentração de peixe de aquário para as partidas. Teve até uma dessas finais que o Brasil ganhou, que eu cochilei no meio do jogo e só acordei com o barulho dos fogos. Claro que não foi aqui na Inglaterra.
No século passado, quando eu trabalhava como editora numa emissora de tevê de São Paulo, um chefe cismou que os jornalistas da redação teriam que dar plantões aos domingos na redação do esporte. Graças aos rapazes do departamento esportivo, virei editora de vídeoclipes, que era o máximo que cabia na minha competência.
Num destes plantões, uma colega jornalista recebeu a tarefa de editar um vt com os melhores momentos de um jogo de futebol. Ela perguntou para o primeiro que passou: quem é o fulano de camiseta lilás com um número quarenta nas costas? Tá certo, carreguei nas cores, mas é só para despistar a minha real ignorância futebolística. Ela editou o vt e, assim que ele foi ao ar, todos os telefones da redação começaram a tocar vermelhos de ódio. O desavisado que atendesse o telefone ouvia um telespectador babando de ódio e rogando praga até o quinto galho da árvore genealógica, do lado materno, óbvio.

Minha colega tinha começado o vt dizendo que o ‘Fulaninho’ (o tal da camiseta lilás) havia aberto o placar. Depois dizia que Fulaninho tinha marcado mais um. Terminava com um: ‘era mesmo o dia de Fulaninho, ele fez mais um gol’. O problema é que Fulaninho só tinha marcado um gol na partida, os outros dois eram replays de câmeras diferentes. Ops!

Enquanto os chefes corriam de um lado para outro tentando apagar o incêndio, eu pensava que isso poderia facilmente ter acontecido comigo.

Por essas e por outras, já havia prometido a mim mesma que nunca escreveria sobre futebol. Mas hoje resolvi tomar um golinho dessa água, que jurei  jamais beber. É que o time de quinta (divisão) aqui do bairro viveu seu dia de Cinderela ontem à noite. O Sutton United Football Club iria enfrentar o poderoso Arsenal, pelas oitavas de final da Copa da Inglaterra.

Conheci Jo num curso de cerâmica. Ela fazia piadinhas espirituosas, cada vez em que a professora-pavão contava vantagem das ‘lindas obras de arte’ que produzia. Jo é daquelas da turma do fundão. Semana passada, enquanto o torno girava em alta rotação e eu pelejava para produzir um pote, num momento Demi Moore em Ghost, Jo falava numa rotação ainda mais acelerada sobre sua maior paixão: o Sutton FC. Deu para perceber que ela era chegada dos jogadores, passe livre no vestiário e tinha até cadeira cativa no estádio (modo de dizer) do time local. Jo estava adorando seus cinco minutos de fama. Contou que nunca soube que tinha tantos amigos. Todos queriam que ela descolasse um ingresso para o jogo do milênio.

O glorioso estadio do Sutton Football Club

 

O ‘estádio’ do Sutton FC se bobear é menor que a área verde de muitas das escolas daqui. São só noventa cadeiras na área VIP. A maioria dos torcedores assiste á partida de pé mesmo, numa arquibancada de concreto. Fui dar uma espiada lá ontem na hora do almoço, acompanhada da minha vizinha aposentada, que insistiu em me fazer companhia. Fomos abordadas por um rapaz sorridente, que nos ofereceu um ingresso pelo preço-precinho de quarenta libras (R$160,00 mais ou menos). Insistiu que era um negócio da China, valeria pelo menos o dobro de noite. Quase disse para o cambista ir procurar os amigos da Jo.

Enquanto eu tentava achar a lojinha do clube para comprar uma camiseta, encomendada por meu cunhado, minha vizinha não conseguia conter sua curiosidade. Na ponta dos pés, olhando por uma das frestas da cerca do estádio, ela gritou para mim; ‘Contei umas cinco câmeras de tevê!

Perguntei para um homem empurrando uma lata de lixo onde poderia encontrar uma camiseta para comprar. Ele disse que só a partir das cinco da tarde. Olhou para mim, pôs a mão no peito e falou com a voz emocionada: menos de oito horas para a partida. Não sei se meu coração vai aguentar. Passei o fim-de-semana mais ansioso da minha vida. Desejei boa sorte e saí, com minha vizinha saltitante de excitação.

O artilheiro do time é pedreiro. Trabalha três dias e treina dois por semana. Foi Jamie Collins quem marcou o gol que classificou o Sutton para as oitavas de final. Na véspera do jogo, ele mandou seis pints (o copão de Chopp dos pubs locais) para relaxar. Seus companheiros de time são professores, comerciários e corretores de seguro. O goleiro ganha um trocado emoldurando e vendendo camisetas de futebol. O técnico trabalha de graça. Aliás, não só não ganha um tostão sequer, como pediu um empréstimo milionário para pagar pelo gramado artificial do estádio. Um autêntico general do exército de Brancaleone prestes a enfrentar o poderoso Arsenal, cujo técnico embolsa quase nove milhões de libras por ano. Multiplica aí por quatro e baba.

O sol se pôs e nem parecia noite na minha rua. Os refletores do estádio mudaram completamente o cenário. Saímos em busca da camiseta custosa: marido, filha, cachorro e vizinha saltitante. Na Gander Green Lane, um enorme engarrafamento. Na rua mal iluminada, ambulantes vendiam um cachecol metade amarelo do Sutton, metade vermelho do Arsenal. Dez libretas. E o comércio fervia. No pub local, um trailer foi colocado para vender hambúrgueres. Caminhões com telões gigantescos de propaganda de cerveja bloqueavam a rua, que já não é das mais largas. O clima era mais quermesse do que de campeonato de futebol, não que eu tenha muita experiência para comparar. Mas a vizinhança estava lá, em peso. O acontecimento social do ano de Sutton.

A muvuca aumentou. Na entrada do estádio, carros e torcedores faziam um cabo de guerra, para ver quem conseguiria esmagar quem primeiro. Marido, filha e cachorro resolveram esperar do lado de fora. A vizinha-saltitante disse que iria comigo para me proteger. Quando conseguimos vencer a arrebentação humana, minha guarda-costas se abaixou debaixo do sovaco de um policial emburrado, para espiar mais uma vez pela fresta da cerca. Mais adiante, torcedores faziam malabarismo , para olhar o campo.

No ar, um cheiro-embrulha-estômago de bacon na chapa engordurada misturado com o indefectível aroma da torta de fígado e carne estimulou além da conta meu senso olfativo, se é que você me entende. Já estava prestes a desistir, quando a vizinha ressurgiu, agarrou meu braço e disse para perguntarmos para dois sujeitos de crachá, onde comprar a camiseta do time. Muito educados, eles nos informaram que tinham visto uma barraquinha mais cedo, mas que tinha acabado. O famoso tem, mas acabou. Saímos com a vizinha-saltitante sorrindo sem parar. ‘Você viu? Eles são da BBC!’

Voltamos para casa a tempo de ver o apito inicial da partida. Vou poupá-los dos comentários, porque, né, é futebol. Só vou dizer que vi tantos escorregões no campo de grama artificial, que parecia mais a minha única tentativa frustrada de patinar no gelo. Ah, os ambulantes se deram bem. Tinha muito, mas muito cachecol de dez libras adornando pescoço de torcedor.

O Sutton conseguiu resistir bem e terminou o primeiro tempo perdendo de um a zero. Levou outro gol no segundo tempo. Eu já naquele estado meio dormindo, meio pensando no dia seguinte, quando a câmera mostrou no banco de reservas o ‘Roli Poli Golie’ – o goleiro rechonchudo Wayne Shaw. Aos quarenta e seis anos, 130 quilos e um corpinho de jogador de rúgbi, capaz de matar qualquer Ronaldinho de inveja, Wayne estava mandando ver numa ‘pastie’ (prima-engasga-lobo da empanada dos hermanos argentinos), que eu achei que era um hambúrguer. Os comentaristas, que não têm energia para dar um decente grito de gol, caíram na gargalhada. Foi engraçado mesmo.

Roli Poli Golie mandando ver.

 

O negócio é que pegou mal. A Federação de Futebol anunciou hoje que vai investigar o episódio. Pelo que parece, estava rolando uma aposta antes do jogo. Oito contra um que o goleiro guloso não iria comer no meio da partida. Santa-FIFA-que- me- perdoe, mas, corrupção no futebol, não dá!*

A pressão foi tanta que Wayne pediu demissão. Chorando muito, segundo disse o técnico numa entrevista hoje à tarde. O glutão se defende dizendo que foi fome mesmo. Havia treinado durante o dia e estava sem jantar. Para outros, confessou que sabia da aposta e que era tudo brincadeira. Tipo, para descontrair, sabe?

Camiseta do Roli Poli Golie

 

Wayne, que também era zelador voluntário do estádio, pode ter dado adeus ao gramado (de plástico)  do Sutton FC , mas não ficou sem emprego. Foi convidado por uma rede de supermercados para ser o provador oficial de tortas da empresa. O pagamento? Um ano de guloseimas de graça. Agora, mais famoso do que nunca, Roli Poli Golie vai poder calibrar  as gordurinhas em paz, num final digno de um Conto de Fadas.

 

*No dia 7/9, a Federação de Futebol anunciou que o goleiro glutão vai ter que pagar multa de 375 libras, cerca de 1500 reais e ficará suspenso por dois meses. A multa-tapinha-na mão é só para deixar claro que o negócio de apostas no futebol é sério. Tá vendo, futebol conto de fadas…

 

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