Skip to main content
 -
Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Cidadão Sapo

Segunda Guerra Mundial. Tempo não de espadas, mas de bombas sobre as cabeças. O medo de uma invasão nazista até hoje assombra os britânicos. No fim-de-semana, foi ao ar pela BBC uma mini série explorando o assunto. ‘SS-GB’ é baseado no romance de suspense do escritor Len Deighton. Numa época de “verdades alternativas”, a trama imagina como seria a vida nesta Ilha, se Hitler tivesse vencido a guerra. A produção para tevê contou com uma divulgação massiva e foi ao ar no horário nobre do domingo à noite. Foi assistida por seis milhões e cem mil telespectadores. Achei arrastado e, como muitos outros telespectadores, me esforcei para entender o que o personagem principal murmurava entre os dentes. A BBC recebeu uma enxurrada de reclamações de que o áudio estava baixo demais.

 

Cena do SS-GB

A estreia deu o que falar. Enquanto muitos jornais resolveram focar no problema técnico, o conservador Daily Mail foi além e aproveitou o assunto para dizer que o tema de uma vitória nazista incomoda tanto, porque, por muito pouco, os britânicos não teriam vencido. Já o crítico do ‘The Guardian’ achou a produção risível e questionou se a adaptação de um livro escrito em 1978 não seria uma propaganda a favor do Brexit. De um lado do rinque, a chanceler alemã Angela Merkel, figura dominante na Comunidade Europeia, e, do outro, sua colega britânica Theresa May invocando o artigo 50 para se livrar da dominação europeia. Nem o sagrado draminha de domingo à noite se livra da saga da política.

Numa das cenas, uma das heroínas da trama (uma judia talvez), membro da Resistência Britânica, rouba um maço de cartões de identificação. Durante a Segunda Guerra Mundial aqui na Ilha, todos os habitantes, crianças e adultos, eram obrigados a portar uma carteira de identidade o tempo todo. A determinação durou bem mais do que a guerra.

 

Documento da Segunda Guerra

Foi graças a um sujeito teimoso que tudo mudou. Clarence Willcock, um trabalhador do norte de Londres, foi parado numa blitz de trânsito em 1950, quando dirigia seu carro. O policial ordenou que ele mostrasse sua carteira de identidade e habilitação. Clarence se recusou. O policial disse então que ele tinha 48 horas para apresentar o documento na delegacia de polícia. Clarence se negou mais uma vez e o caso foi parar na Justiça. Um clássico David e Golias, que terminou bem para o lado mais fraco. Em 1951, o juiz do caso declarou que a obrigatoriedade do documento não só era uma chateação como transformava cidadãos honestos em criminosos, apenas por não os portar.

Foi então que no 21 de fevereiro de 1952, Winston Churchill aboliu a obrigatoriedade do documento. Diz a história que não foi uma vitória dos que faziam campanha pela liberdade civil, nem tampouco um ato de humildade do governo e sim uma questão técnica: o sistema de identificação era caríssimo e ineficiente. Os cartões eram amplamente falsificados. Estima-se que eles tenham facilitado a vida de milhares de soldados desertores, que vagam livremente por esta Ilha. O então Secretário do Tesouro do governo Churchill teria dito: o melhor a fazer é receber os créditos por liberar o povo, enquanto economizamos dinheiro para os cofres públicos. Um pragmático.

Imagine agora uma daquelas cenas em que um pé de vento arranca as páginas de uma folhinha. A ventania vai da década de 50 até 2006. Meio século mais tarde e o debate sobre a obrigatoriedade da carteira de identidade voltou com a corda toda por aqui. No pós 11 de setembro, foi mais uma vez o medo que reacendeu a questão: o medo de uma nova invasão. Desta vez por imigrantes ilegais e terroristas.

O novo método de identificação foi aprovado em meio a muitas controvérsias. Ativistas dos direitos humanos, especialistas em informática e até políticos temiam que a nova carteira de identidade representasse um risco para a liberdade civil. O novo documento seria muito mais sofisticado que os cartões de identificação da Segunda Guerra. Através da identificação, seria possível ver todo o histórico dos endereços onde a pessoa já havia morado, identificação biométrica do rosto e da íris, impressão digital e o número do National Insurance (uma espécie de previdência pública).  O esquema passou, mas não era obrigatório. Somente quem quis, e pagou, recebeu o novo documento. Em 2011, a lei da identificação caiu e quem pagou pelo cartão não recebeu o dinheiro de volta. Imigrantes, que vem de fora da Comunidade Europeia, ainda precisam de um documento biométrico para pleitear um visto de residência.

Quando se livrou da carteira de identidade compulsória, o governo de coalizão de David Cameron com os liberais democratas anunciou que o país iria economizar oitenta e seis milhões de libras em quatro anos.

Toda manhã ouço pelo rádio as efemérides do dia. Outro dia fiquei surpresa ao ouvir sobre a data de inauguração da cidade de São Paulo numa rádio londrina. A mais memorável de hoje: foi num 21 de fevereiro que Churchill liberou os cidadãos britânicos da obrigatoriedade do cartão de identidade. Então, acabei de entregar a inspiração deste post.

 Como não sei muita coisa de quase nada, fui ler um pouco. Acabei topando com uma carta escrita por Angela Epstein. Sua credencial? A avó judia chegou por aqui para escapar do nazismo, ‘mas isso aqui não é a Alemanha nazista’, ela escreve. Angela diz em seu texto, publicado no ano passado pelo jornal ‘The Telegraph’, que em 2009 ela pagou as 30 libras (cerca de R$120,00) pelo documento de identificação. Em seu artigo ‘Está na hora de trazer de volta os registros de identidade’, ela diz que fora seu vício por chocolate, ela não tem nada a esconder. Parece que nem seu gosto por açúcar é sigiloso. Embora não escreva com essas palavras, o tom de seu texto é claro: quem não deve, não teme.

No artigo bem escrito, Angela diz que ‘neste tempo de complôs terroristas, imigração ilegal e o que significa ser britânico, não é o caso de reavaliar a obrigatoriedade dos registros de identificação? ’ Quanto aos riscos de as informações caírem nas mãos de hackers na internet, ela diz que qualquer supermercado aqui desta Ilha tem mais informação sobre você do que o que você imagina. Além do mais, as pessoas estão dando informações pessoais de mão beijada nas mídias sociais a todo momento.

A questão é que as informações do registro nacional de cidadãos seriam de fácil acesso a mais de 200 departamentos  governamentais e quarenta mil organizações privadas, que prestam serviço, direta ou indiretamente, para o governo. É quase uma questão de fé acreditar que os dados estarão 100% seguros.

Apesar de descartada, a ideia de um banco de dados centralizado com informações dos cidadãos está sempre pairando no ar. Existe o argumento de que seria eficaz no combate ao terrorismo e nas fraudes de identificação. Nos atentados de sete de julho em Londres, nenhum homem-bomba tinha uma identidade fraudada. Nenhum era imigrante ilegal.

No auge do debate sobre a obrigatoriedade do registro de identidade, li um artigo que me marcou. Dizia que se você joga um sapo numa panela de água fervendo, o sapo pula fora tão rápido quanto caiu lá. Mas, experimente colocar um sapo numa panela com água tépida e ligue o fogo. Quando o sapo se der conta, ele já terá virado sopa. É fácil aceitar medidas controversas e desagradáveis, quando temperadas com o medo. Mas com as conquistas sociais e as liberdades civis, se o cidadão-sapo não abre os olhos…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.