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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Surdina Escandalosa

Nada de decreto aos berros. Nenhum twitter estridente. Aqui na Ilha, o veto foi bem mais discreto. Umas poucas frases, que passariam despercebidas numa sessão de pouco quórum no parlamento britânico, às vésperas de um recesso parlamentar. Essa semana caiu a emenda de Dubs, aprovada no ano passado.

Lorde Dubs é um dos membros da Casa dos Lordes, uma versão inglesa do senado federal. Chegou a esta Ilha ainda criança, como refugiado do nazismo. No ano passado, ele conseguiu aprovar (a votação foi apertadíssima) uma emenda na lei de imigração para que este país se comprometesse a receber 3 mil crianças refugiadas, que estão desacompanhadas pela Europa. Estima-se que sejam mais de 95 mil órfãos perambulando pelo continente europeu. 10 mil estão desaparecidos. Sabe-se lá que destino tiveram. Pensar nisso tira o sono e embrulha o estomago.

O brasileiro Sérgio Utsch é um jornalista experiente na cobertura internacional. Testemunhou guerras e a tragédia que se abateu sobre o Haiti, depois de um terremoto implacável. Para ele, a cobertura que fez nos campos de refugiados na fronteira entre a Turquia e a Síria foi uma das mais duras. Foi difícil voltar para casa depois de ver tantas crianças expulsas pela guerra e as marcas que a violência havia imprimido em cada uma delas. Ele me contou que é praticamente impossível sair ileso de um trabalho desses.

A primeira-ministra Theresa May, antes de chegar ao cargo top do governo, foi uma espécie de ministra da Casa Civil e Justiça. Apostou suas fichas no controle da imigração. Fez carreira tentando reduzir o número de estrangeiros na terra da Rainha. A imigração, seja de refugiados ou não, pode render ou perder votos aqui e em tantos outros países europeus. Amber Rudd, que herdou o cargo que May ocupava, disse no Parlamento que o governo vai encerrar o programa de acolhimento de crianças refugiadas desacompanhadas. A justificativa? O programa só incentiva o tráfico de seres humanos. É um atrativo irresistível para os traficantes. Ao se justificar usando os traficantes, tentou criar uma certa empatia. Nós, os bons e virtuosos, contra os vilões impiedosos. Será que cola?

Para o Acerbispo de Canterbury não colou. O ‘papa’ da Igreja Anglicana se disse chocado e triste com a decisão do governo. O fato é que apenas 350 crianças desacompanhadas foram acolhidas por aqui, graças à emenda de Dubs. A chegada do primeiro lote de refugiados foi tumultuada. Pela definição da ONU, criança tem de 0 a 18 anos. No primeiro grupo que chegou, muitos eram rapazes. O jornal Daily Mail, que tem uma linha conservadora, publicou uma foto dos novos habitantes. Entre eles, um barbudo. Virou um escândalo, que não foi devidamente corrigido, mesmo depois que ficou claro que o barbado da foto não era um dos refugiados e sim um intérprete. 

 

Lorde Dubs na porta da sede do governo

Quase dois milhões de britânicos assinaram uma petição para que o presidente americano Donald Trump fosse ‘desconvidado’ para uma visita oficial. Um número bem maior do que os 50 mil que assinaram outro documento exigindo que o governo cumprisse a emenda de Dubs. Longe de mim defender o presidente americano e sua política exterior, mas a atual administração americana se comprometeu a receber 50 mil refugiados (100 mil a menos que Obama). Os britânicos (está certo que esta Ilha é bem menor em área e população que os Estados Unidos) se comprometeram a receber 30 mil em doze anos. Se depender dos súditos da Rainha, os refugiados terão duas opções: ficam a ver navios ou arriscam a sorte em um deles.

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