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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Cartão Vermelho do Alaranjado

Mo, apelido carinhoso (ou quem sabe, mais palatável) de Mohamed, não tem um grama sequer de excesso de gordura. São 58kg distribuídos num corpo de 1 metro e 75 de altura. Ele nasceu na Somália. Lembra do filme Capitão Philips, no qual Tom Hanks faz o papel de um capitão de um cargueiro abordado por piratas? Pois é, piratas somalianos. É essa a reputação do país. Tom e Mo apareceram, não faz muito tempo, no  sofá do entrevistador Graham Norton, um dos mais famosos aqui da Ilha. Mo contou que conhecia o ator que fazia o papel do pirata vilão. O astro de Hollywood fez um comentário sobre o fato de que o atleta e o ator eram as duas pessoas mais famosas da Somália.

Mo provavelmente nunca teria se tornado famoso e com certeza não teria recebido da Rainha o título de Sir, se tivesse ficado na Somália. Aos oito anos de idade, veio com a mãe se juntar ao pai, que era um cidadão britânico. Mo não falava uma palavra sequer de inglês. Seu irmão gêmeo ficou para trás, porque estava doente e não tinha condições de viajar. Anos depois, seu pai tentou encontrar o menino, mas a família que tomava conta dele havia se mudado. Mo só iria rever o irmão 12 anos mais tarde.

Mas isso é passado. Mo Farah é hoje um dos atletas mais celebrados desta Ilha. Ganhou duas medalhas de ouro nos jogos de Londres nas provas dos 5 e 10 mil metros. Repetiu o feito no Rio. É o atleta britânico de maior sucesso em sua categoria. Sua coreografia da vitória foi inspirada na dancinha Y.M.C.A. do Village People. Com seu ‘M’ de Mo, ele está em todos os lugares. Fazendo campanha para entidades de caridade, reforçando o caixa estrelando comerciais, participando de programas de entrevistas, lançando vídeos inspiradores. Sendo exemplar. Exemplo. Mo também é um mulçumano fervoroso. Diz que as orações e as mensagens do Alcorão o incentivam a buscar a superação.

 

‘M’ de Mo

 

Desde 2013, ele mora nos Estados Unidos com a família. Ele já insinuou mais de uma vez que teve problemas com a imigração americana, ao tentar voltar para casa. Quando eles veem o nome Mohamed estampado no passaporte, as luzes de alerta se acendem. Em uma dessas ocasiões, Mo chegou a mostrar uma medalha de ouro, que estava levando para casa para uma de suas filhas. Apesar de ter experimentado situações desagradáveis nos aeroportos americanos no passado, Mo agora se diz preocupado.

O presidente Donald Trump assinou um decreto que suspende por três meses a entrada de cidadãos de sete países: da Somália de Mo, Síria, Iraque, Irã, Iêmen, Líbia e Sudão. Todos países de maioria mulçumana.  

Ontem, o governo britânico disse que o bloqueio de cidadãos destes países não afetaria aqueles com dupla cidadania, como é o caso de Mo Farah. Hoje, a embaixada americana em Londres avisou que mesmo com a dupla cidadania, os nascidos nos sete países bloqueados não devem perder seu tempo tentando conseguir vistos de entrada. O que é uma enorme pedra no sapato para o governo da primeira-ministra Theresa May.

No sábado, antes do decreto polêmico, ela esteve com Trump e o convidou para uma visita de Estado, com direito à jantar de gala no Palácio de Buckingham. Ao que tudo indica, a Rainha vai ter que fazer sala para o presidente de cor laranja. Mas seus súditos não estão contentes em bancar este banquete. Uma petição online, lançada ontem, tinha na hora do almoço de hoje mais de um milhão e duzentas mil assinaturas exigindo que o convite seja cancelado. Uma petição com este apoio popular tem que ser levada a plenário no Parlamento. Funciona assim por aqui.

A primeira-ministra está entre a cruz e a caldeirinha. De um lado, a enorme pressão popular e a rejeição ao presidente americano e sua política discriminatória. Parlamentares querem que ela condene abertamente o veto de Trump aos mulçumanos, como fez a alemã Angela Merkel. Alguns parlamentares do partido de May não poderão visitar os Estados Unidos nos próximos três meses, porque nasceram em países, que fazem parte da lista. Até agora, ela está em cima do muro, se fingindo de morta, para ganhar tempo. Mas esse jogo de camaleão não pode durar para sempre.

 Isso porque, do lado da caldeirinha, vive um monstro que assombra este país desde junho do ano passado: o Brexit. Esta Ilha ainda nem iniciou o processo de desligamento da Comunidade Europeia e a encrenca já está formada. Theresa May espera contar com acordos comerciais com os americanos para reduzir os estragos que o Brexit deve causar na economia.  

Que tipo de acordo os britânicos vão tecer com o governo Trump também é motivo de preocupação. O presidente americano repete seu bordão a cada cinco frases: America First (a América em primeiro lugar). Existe o temor por aqui que os americanos forcem a barra para entrar com suas corporações de planos de saúde privada, o que é um tiro num dos pontos nevrálgicos deste país.

NHS (National Health System), o sistema de saúde britânico, é fundamental para entender a alma britânica. É como um ‘todas as estradas levam a Roma’. Não tem um assunto, uma política, que não acabe esbarrando no NHS. Desprezar o sistema de saúde é suicídio político. O Serviço, criado no pós-guerra, é motivo de orgulho entre os britânicos, mesmo que existam críticas.

Semana passada, ganhou destaque na mídia a decisão de se criar um sistema para diminuir as cirurgias de implantes na bacia, uma operação comum entre os pacientes mais velhos. Somente os pacientes que estão incapacitados pela dor terão acesso à operação. Foi um banzé. Gente argumentando que os médicos não têm como medir a dor alheia e dizendo que adiar a cirurgia só traz complicações e mais tratamentos caros. Foi um desfile de médicos constrangidos tentando explicar que eles têm que transformar água em vinho para dar conta de manter o serviço rodando. O NHS está quebrado. Absolutamente todos os hospitais da Inglaterra estão no vermelho. O déficit nacional do sistema de saúde passa dos dois bilhões de libras. Decisões como o cancelamento ou adiamento de cirurgias são inevitáveis.

Um cenário que ficará ainda pior com a privatização à la americana do sistema de saúde, garante Jeremy Corbyn, o líder dos trabalhistas. Ele defende que a visita de Trump seja adiada. Ah, os privilégios de ser oposição. Falar é sempre mais fácil do que fazer. Trump quer que as negociações entre os dois países sejam rápidas. O risco é que esta Ilha não leve a melhor parte do bolo, caso vá com muita sede ao pote.

Hoje de manhã li uma notícia de que Angela Merkel teria ligado para Trump e explicado para o colega americano que ele não pode parar de receber os refugiados da guerra na Síria, porque fere um dos pontos do Tratado de Genebra, do qual os americanos são signatários. O comentário, que ganhou mais curtidas, era engraçado. Dizia mais ou menos que era formidável que Merkel tivesse conseguido explicar tudo para Trump, pelo telefone, sem usar lápis de cera e bonecos de meia. Uma pesquisa divulgada hoje revela que 48% dos americanos aprovam o decreto, que bane a entrada de cidadãos dos sete países mulçumanos. Rir desse povão dá um certo prazer instantâneo, mas não resolve. Trump chegou ao poder através do voto destes eleitores, que acham que política se faz na base do decreto.

O Parlamento do Iraque, que é um dos principais aliados dos americanos no Oriente Médio, acaba de votar que, por uma questão reciprocidade diplomática, irá banir, por 90 dias, a entrada de americanos em território iraquiano.  Se estes primeiros dias de governo Trump são uma demonstração do que vem por aí, Mo Farah, que no momento está aqui na Ilha, vai passar alguns meses sem poder voltar para casa e ver suas filhas. E mais, se Trump fosse o Manda-Chuva por aqui, quando Mo tinha 8 anos, ele jamais teria se tornado um herói nacional condecorado por sua majestade.

Mo, com seu talento e dedicação ao esporte, provavelmente conquistou a ‘alforria’, o passe livre dos vencedores. A maioria não vai sequer ganhar uma menção pública. Muitos vão ter que amargar o desrespeito e a discriminação em silêncio. Ou não. Imagino que o Estado Islâmico deva estar dando pulos de alegria com o decreto de Trump. Ajuda na propaganda antiamericana.
Num mundo de visões estereotipadas, muros e cartões vermelhos, visão curta e intimidação, quando nada, causam muita dor e sofrimento.

Um comentário em “Cartão Vermelho do Alaranjado

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