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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

No Lugar Certo

Em 1986, Jill, uma moça de 21 anos, seu namorado David e seu pai, um vigário da igreja anglicana, assistiam tevê em casa, quando a campainha tocou. Ao arbir a porta,Michael, pai de Jill, foi surpreendido por três homens abastecidos de álcool e drogas. Michael e David foram amarrados e apanharam bastante com um taco de críquete. David levou tantos golpes na cabeça, que ficou surdo de um ouvido. Jill foi levada ao andar de cima. Lá, dois homens ordenaram que ela tirasse a roupa. Ela apanhou e foi estuprada várias vezes. 

O crime bárbaro ficou conhecido aqui como ‘O Estupro na Casa do Vigário de Ealing’. Ealing é um bairro de Londres. Os criminosos foram presos e levados a julgamento. Jill só soube seus nomes e quem eles eram no tribunal. Foi um choque para ela ficar cara a cara com seus estupradores. Os membros do bando, que violentaram Jill, receberam penas menores pelo crime de estupro e agressão do que o de roubo. O líder do bando, que não participou da agressão à Jill, recebeu uma pena maior do que os outros. Em sua sentença, o juiz John Leonard afirmou que o trauma de Jill não era assim tão grande.

A mão leve do juiz, ao condenar os estupradores (um foi assassinado na prisão e o outro saiu depois de cumprir cinco anos de cadeia), pegou muito mal. Pouco depois, uma mudança na legislação passou a permitir que as vítimas de crimes sexuais recorressem da sentença, caso acreditassem que ela havia sido branda demais.

Pela lei aqui da Ilha, a vítima tinha, e tem até hoje, o direito ao anonimato. Mas as notícias publicadas na época viraram peça de estudo nos cursos de jornalismo. Elas davam muitas pistas a respeito de quem era a vítima. Um caso exemplar da chamada ‘identificação quebra-cabeça’, ou seja, qualquer um que juntasse dois e dois sabia quem tinha sofrido o estupro.

Mesmo que em sua comunidade muitos soubessem que Jill havia sido vítima de um crime tão horroroso, seu nome havia sido preservado na mídia. Até que, em 1990, Jill abriu mão de seu anonimato e publicou um livro contando seu trauma. O livro ‘Rape, my story’ (Estupro; minha história) é assinado pela autora Jill Saward. Ela foi a primeira mulher neste país a assumir publicamente que era uma sobrevivente de estupro. O que, ela temia, teria um preço: Jill seria conhecida para sempre com a vítima do estupro na casa do vigário.

Livro de Jill

Nas três décadas, que seguiram depois do estupro, Jill se tornou uma das principais ativistas em defesa das vítimas de violência sexual deste país. Sua campanha resultou em algumas mudanças: acabaram as acareações entre vítima e agressor e as vítimas passaram a ter o direito de saber quem são (ou é) seus agressores, antes do dia do julgamento.

Jill recompôs sua vida. Casou-se com um jornalista e teve três filhos. Ela morreu ontem, de um derrame cerebral. Sua família tentou mantê-la viva até que um dos filhos, que mora em Hong Kong, chegasse para se despedir da mãe. Ela tinha 51 anos e seus órgãos foram doados para transplantes, como era o desejo de Jill.

As vítimas de crimes sexuais são chamadas de sobreviventes. Faz um tempo,  li num livro do Zuenir Ventura uma reflexão sobre o termo sobrevivente. Zuenir havia tido um câncer de bexiga. Ele dizia que não queria ser um sobrevivente e sim um ‘vivente’. Fiz uma pós-graduação em psicologia aqui em Londres. Uma de minhas professoras era especializada em crimes sexuais. Um dia, tentei repetir para ela (a tradução do português para o inglês não foi fácil), a ideia do escritor brasileiro. Eu disse que não gostava da palavra sobrevivente, porque definia o momento do estupro como o mais importante da vida, como se até aquele momento a pessoa vivesse e depois dele, sobrevivesse apenas. Falei como leiga, que não tem vivência alguma no assunto. Minha professora respondeu dizendo que muitas das vítimas não se permitem sequer aceitar que são vítimas, tamanho é o estigma, que cerca o estupro. Reconhecer que a vida nunca mais será como era, pode ser um ponto de partida.

Para Jill, além de fazer campanha para melhorar a vida das sobreviventes, o perdão foi fundamental. Ela era extremamente cristã. Ouvi hoje uma entrevista antiga dela, na qual ela justifica o encontro que teve com o líder do bando, que mudou a vida de Jill para sempre. Ao vê-lo, ela estendeu a mão para ele e disse: se você veio pedir meu perdão, não perca seu tempo, porque eu já o perdoei. Na entrevista, ela diz que perdão é uma coisa muito sofrida e que não é fácil perdoar, mas que ela achava que não conseguiria seguir em frente, se não perdoasse. E ressaltou: perdoar é diferente de não querer justiça.

Perdoar para seguir em frente

Ainda no século passado, logo depois do julgamento, o pai de Jill falou publicamente sobre o caso. Criticou o juiz, dizendo que só de olhar para sua filha no tribunal, ele não tinha como concluir se ela estava ou não traumatizada. Se ele tivesse falado com sua filha, talvez tivesse uma ideia melhor de seu sofrimento. John Leonard, o juiz do caso, disse mais de uma vez que o grande arrependimento de sua vida foi o comentário que ele havia feito na Corte a respeito do trauma de Jill. Quando o juiz se aposentou, em 1993, ele pediu desculpas em público pela maneira como havia se comportado.

 

A grande ativista e seu pai

 

Jill pode ter se mostrado impassível durante o julgamento, mas ela estava vivendo um inferno pessoal. Recebeu muito auxilio psiquiátrico. Sofreu depressão pós-estresse. Contemplou o suicídio, até que conseguiu virar o jogo. Com seu livro e sua coragem, ela transferiu a vergonha, que as vítimas de estupro normalmente sentem, para seus agressores. O agressor é quem deveria se sentir sujo e envergonhado por seu comportamento hediondo. Ao contrário do que temia, Jill Saward hoje não é mais lembrada como a vítima do estupro da casa do vigário e sim como uma grande ativista. Ela deixa um legado e tanto: foi a responsável por colocar as coisas no lugar certo e sinalizar para as sobreviventes que é possível seguir vivendo com dignidade.

 

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