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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

De longe, também não

Deu na telha de um ginecologista da década de 40 encomendar uma estátua grega com um viés americano. Uma Vênus de Milo da terra do tio Sam, que representasse uma típica garota americana.  Para isso, ele coletou dados de milhares de mulheres. Tamanho de busto, quadril, altura, cor de cabelo, formato de rosto, peso, cor de pele…  Com base nas informações, ele pretendia gerar a imagem da mulher normal, que ele chamou de Norma. Norma, normal, está dando para perceber o que ia na cabeça do doutor, né? 

Quando a ‘obra de arte’ (a beleza está nos olhos de quem a olha) ficou pronta, um jornal lançou uma competição para encontrar uma sósia de Norma. Menos de 40 das 3864 candidatas mostraram alguma semelhança com a modelo feita de alabastro. Nenhuma delas era ‘normal’ o bastante.

 

Norma, a normal

Anos antes, a Força Aérea americana decidiu criar uma cabine de avião de guerra, que servisse para pilotos de todos os tamanhos. Assim como o doutor acima, o projeto começou com uma coleta de dados corporais e muito suor na prancheta para se chegar ao design ideal. Quando o protótipo ficou pronto, veio a surpresa. Ninguém cabia no cockpit, nem um piloto sequer. A solução foi criar assentos que poderiam ser ajustados na distância e altura.

Os dois casos são exemplos de fracassos monumentais na procura pela média, o normal. É o que se chama ‘Jaggedness Principle’ –  o Princípio da Irregularidade. Não dá para nivelar tudo, usando medidas e fatos que não se relacionam. Mais ou menos como é impossível achar a ‘fruta normal’ comparando-se jaca com jabuticaba, embora as duas sejam frutas e comecem com a mesma sílaba.

Esse princípio pode ser ampliado para o conceito de comportamento normal. O que é isso? O que é normal? A resposta que temos na ponta da língua para um problema hipotético é a mesma reação que temos quando uma situação  real de risco se apresenta? E se essa situação não é percebida com a mesma gravidade por todas as pessoas? São tantas as variáveis que permeiam os comportamentos. Como estabelecer o que é normal?

Se o ‘normal’ não existe, talvez sejamos todos WEIRD (esquisitos). Essa ideia não é minha. Já que quase nada se cria e muito se copia, vou logo citar a fonte. Vi a comparação num programa da BBC chamado QI. Não é de QI, do teste de inteligência e sim de ‘quite interesting’ (bem interessante). É um ‘quiz show’ para nerds, com comediantes e outros convidados, discutindo as peculiaridades do universo e da vida no planeta azul. 

 

QI – perguntas e respostas com muito humor

 Foi no QI, que descobri que WEIRD, além de esquisito, é uma sigla: Western, Educated, Industrialized, Rich and Democratic (countries). Um termo de antropologia que significa: países ocidentais, educados, industrializados, ricos e democráticos.

A pegadinha da comparação entre o Normal e o WEIRD é que a maioria (96%) das pesquisas sociológicas e de mercado são respondidas por pessoas dos países WEIRD. O irônico é que esses entrevistados representam apenas 12% da população mundial. São eles que determinam o que é normal. Ou seja, 88% dos terráqueos andam ‘comprando’ gato por lebre. Porque não sabem que pode ser diferente, ou porque são obrigados a engolir bolas de pelos, enquanto sonham com carnes mais nobres, na falta de um corte decente.

12% determinam o ‘normal’

 

Essa busca pelo ‘normal’, pela média, talvez tenha nascido no fim da Revolução Industrial, quando a normatização, a mecanização e a metodologia se tornaram fundamentais para aumentar a produtividade, e os lucros também. Passamos a vida inteira aprendendo como nos encaixarmos, enquanto desejamos nos superar. Sermos diferentes e individuais. Mesmo os que querem ser ‘invisíveis’, anseiam que isso aconteça individualmente.

Parece claro que precisamos de normas e de médias para funcionarmos em sociedade. As escolas que o digam. Trabalhei alguns anos num programa voluntário de incentivo à leitura numa escola primária aqui na Ilha. Sou leiga de pai e mãe em educação. Mas, já nas primeiras semanas lendo com as crianças, percebi que algumas delas se beneficiam de um sistema normativo e outras não. Deveríamos celebrar as diferenças. Valorizar os talentos individuais. Mais fácil falar do que fazer. Como um professor vai dar conta de atender individualmente cada um de seus trinta alunos? 

Já que este é o último post do ano, talvez eu devesse buscar uma amarração para 2016. Como se fosse a conclusão de um longo episódio cheio de adrenalina, lágrimas e momentos felizes também, apesar do mantra baixo astral que rotulou 16 como um ano terrível. Como se a chegada de 17 zerasse tudo e pudéssemos começar de novo. Sem bagagem.

A ideia de recomeço é refrescante. Na escola onde trabalhei, todo dia era um novo dia. O menino podia ter pintado o sete no dia anterior. Mesmo que na véspera o nome dele tivesse saído do quadro ensolarado para o tempestuoso, não importava. No dia seguinte, era tudo história e o recomeço era possível, sob um sol que insistia em brilhar mesmo nos dias mais cinzentos. Uma ideia linda, mas pouco provável na selva raivosa, que dá crias absurdas a cada clique do mouse.

Quem sabe, no ano novo, pudéssemos aprender com os erros dos outros. A solução para cockpit do avião não foi criar um corpo impossível (como o de Norma), que coubesse na cabine. Bolar assentos reguláveis foi a solução. Talvez  nossa bagagem ficaria mais leve, se pudéssemos ser mais flexíveis na vida e com os outros. Afinal, de perto, ninguém é normal. De longe, também não.

 

Feliz ano novo

 

 

Um 2017 feliz para você.

* Os pesquisadores do QI provavelmente se inspiraram no livro abaixo para falar sobre Normal:

2 thoughts to “De longe, também não”

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