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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Bate o Sino Pequenino…

Ano passado, Emma Tapping, uma inglesa de 28 anos, foi o assunto principal na ceia natalina (que aqui é almoço) desta Ilha.  Ela postou, no Facebook, a foto de sua árvore de natal naufragando num tsunami de presentes. Ao que consta: 300 deles. Oitenta e sete para cada um dos três filhos, mais uns e outros para amigos e familiares.

 

Presentes para dar, vender e jogar fora

Emma foi acusada de abuso infantil, de estragar os filhos. Caiu na rede e sofreu todo tipo apedrejamento moral, virtual ou não. Quase 365 dias mais tarde, ela está de volta. Melhor, apareceu antes. Estrelou um documentário do Canal 4, que retratava pais que gastam alto no natal. Um ano depois e a onda ficou ainda maior. Vão ser 97 presentes para cada filhote, pela bagatela de mil e quinhentas libras (cerca de seis mil e quatrocentos reais). O que disparou novamente a ira cibernética, com pessoas se perguntando por que ela não doa os presentes para uma instituição de caridade.

Nesta época do ano, a instituições de caridade apelam para o espírito cristão dos súditos da rainha. É comum se fazer doações em nome daqueles a quem se dá um presente. O presenteado recebe um cartão que diz mais ou menos: obrigado, fulano (o presenteado) por sua contribuição para o santuário dos gorilas, ursos polares, lobos siberianos, jumentos aposentados, crianças sem escola e sem água potável e por aí vai. Um terço de todas as doações do ano acontece em dezembro. E, ao contrário do que se diz, as entidades em defesa dos animais não recebem mais dinheiro do que as causas humanitárias.

Semana passada, no parque perto de casa, uma multidão de Papais-noéis participou de um evento para levantar fundos para o ‘hospice’ do bairro, um hospital para pacientes terminais. Cada um pagou uma taxa de inscrição, angariou doações, vestiu a roupa-vermelha-um-tamanho-serve-para-todos e partiu para uma corrida maluca de risadas e camaradagem.

Corre, que o natal está chegando

 

No post anterior, escrevi sobre as gulodices de natal. Talvez mais do que as empadinhas doces e o vinho com especiarias, a maior tradição natalina desta Ilha seja mandar cartões de felicitações. O primeiro a ser comercializado apareceu em meados do século 18 e, diferente do que eu imaginava, não tinha tema bíblico. Cenas que retratam a chegada de Cristo, ou mesmo com motivos que lembram o inverno, só foram aparecer na era vitoriana, quase um século mais tarde.

Em casa no Brasil, todos os anos, meu pai se enchia de espírito festivo no dia do natal, abria seu caderninho de telefone e ligava para todo mundo, do A ao Z. Mecânico, dentista, melhor amigo, quem atendesse ao telefone escutava um animado: Feliz Natal! Aqui na Ilha não tem disso. Nesta época do ano, as pessoas amarram um varal pela casa e com pregadores estilizados dependuram seus cartões.  A nova geração mede sua popularidade pela quantidade de curtidas em seus posts e fotos. No natal, o que vale é ter dezenas de cartões exibidos orgulhosamente. A maioria deles, com os nomes dos destinatários, uma mensagem impressa que diz Felicitações e a assinatura do remetente. Tudo muito civilizado. Ou, para usar uma palavrinha que eles adoram: organizado.  É preciso saber ler as entrelinhas das diferenças culturais para entender a mensagem, que é sim generosa, embora bem mais discreta que os telefonemas de meu pai.

A tradição dos cartões de natal

Depois do falatório do ano passado sobre os excessos nas compras de natal, a moda deste ano é a regrinha dos quatro presentes: ‘Something you want. Something you need. Something fun. Something to read’. Em inglês rima. Em português é mais ou menos assim: Alguma coisa que você queira, alguma que você precise. Outra divertida e uma para ser lida. Organizado, né? Mas também está dando o que falar. Isso é coisa do patrulhamento anti-divertimento, dizem uns. Deixa cada um dar o que quiser. Que nada, argumenta o outro lado, o excesso de consumismo está destruindo o espírito do natal.

Enquanto a regra dos quatro presentes esquentava as discussões, apareceu mais um modismo para pôr lenha na fogueira. A caixa! Alguns papais e mamães estão muito preocupados que seus filhotes sofram de ansiedade pré-natalina. Os pimpolhos ficam muito excitados, não dormem e atrapalham a paz do lar, comentam os pais aflitos. Quem sabe se isso não vai gerar um trauma de infância? Mas existe uma solução: a caixa! Para que seus rebentos não se arrebentem de emoção na manhã de natal, os pais preparam uma prévia. Uma caixa com alguns presentinhos, que são abertos de véspera, para abaixar a bola da criançada. Gostou? Não vou nem me dar ao trabalho de comentar essa.

Quando vi pela primeira vez a árvore de natal de Emma, pensei: haja papel e durex. As lojas daqui não embrulham para presente. Acabei de embrulhar os meus. Minha ‘onda’ não passa de uma marola. Mal vai dar  para cobrir o pé da árvore de natal. Mesmo assim, gastei mais de duas horas na função. Está certo que não tenho competência nem para cortar um papel em linha reta… mesmo assim.

Com ou sem árvore naufragando em presentes, regras de quatro e caixas preâmbulo, desejo para você um natal feliz, compartilhado com pessoas queridas e muito amor.

Ho ho ho!

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