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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Como se faz um corrupto?

Se você já teve a oportunidade de jogar uma partida com uma criança de três, quatro anos, as chances de que você tenha topado com um adversário corrupto são gigantescas. Assim que a criança entende o funcionamento do jogo, o desejo de vitória é maior do que o de seguir as regras. Normal. Faz parte do desenvolvimento moral de cada um de nós. Até os cinco anos de idade, roubar no jogo não tem nenhum peso moral para a criança. Em outras palavras, não dói na consciência dela. Entre os 5 e 7 anos, meninos e meninas começam a entender que é errado, mas ainda sim demonstram técnicas mais sofisticadas de burlar as regras. ‘Ajudam’ o dado a cair no número que lhes convém, contam as casas para mais ou menos, de modo que sejam favorecidos. A partir dos 8 anos, se o comportamento persiste, os pais têm que abrir seus olhos para lidar melhor com o jovem corrupto.

Chris Huhne e Vicky Pryce eram um casal de sucesso aqui na Ilha. Ele, um às do xadrez político, uma estrela em ascensão entre os liberais-democratas. No primeiro governo de David Cameron, era uma espécie de Ministro para Energia e Mudanças Climáticas. Ela, uma economista de renome. Mas os dois tinham uma manchinha em seu passado, que virou um borrão enorme, quando Vicky deixou fluir o primal sentimento de vingança, que surge depois de uma dor de corno. Ela não se conformou que Chris tivesse outra. Em 2013, procurou uma jornalista e revelou que, dez anos antes, o ex-marido tinha recebido uma multa por excesso de velocidade. Como não queria comprometer sua carreira política, Chris convenceu Vicky a dizer que era ela ao volante e não ele. A lavação pública de roupa suja terminou muito mal para os dois. A Justiça considerou que ambos tinham mentido. O xadrez que restou a Chris foi a cadeia. Ele e a ex-mulher foram condenados a oito meses de prisão, porque não obedeceram às regras, tentaram corromper o jogo da Justiça.

Quatro anos antes, Sir Peter Vigges, que era parlamentar desde 1974, perdeu a cadeira. Em sua declaração de despesas ao Parlamento, ele pediu o reembolso de £1645 (cerca de sete mil reais) que gastou numa casinha ornamental para seus patos no jardim. Ele também pleiteou fundos para bancar o esterco e serviços de jardinagem em sua segunda casa, como parte das despesas de seu ‘auxílio moradia’. Não ficou claro, mas parece que a comissão do Parlamento não chegou a aprovar as despesas. Não fez diferença. Quando o escândalo veio a público, a imprensa e a opinião pública não deixaram barato. Vigges teve que pagar o pato. Acabou renunciando, para evitar que fosse defenestrado por seu partido Consevador. Deu uma entrevista dizendo que seus patos nunca gostaram de sua nova moradia e que ele sentia muita vergonha com o episódio.

 

A casa de pato que derrubou um politico

A corrupção tanto pode ser filha da necessidade quanto da oportunidade. Em situações de guerra e extrema pobreza, onde a própria sobrevivência é o que mais importa, as regras morais perdem seu peso e importância. O que vale é chegar vivo ao fim do dia . O que manda é a lei da selva, a sobrevivência do mais forte. Mas estas são situações de exceção.

O famoso ‘a situação faz o ladrão’ é clichê e não é à toa. Dadas as circunstâncias somos todos corruptos? Existem povos mais corruptos que outros?

 

Seis bilhões de pessoas vivem em países corruptos

Se existem povos mais corruptos é difícil afirmar. Países mais corruptos que outros existem. Uma ONG chamada Transparência Internacional mede a percepção dos níveis de corrupção ao redor do globo. O objetivo é combater o abuso de poder, as propinas e os acordos secretos, que levam mais de seis bilhões de pessoas a viverem em países onde a corrupção gera pobreza, falta de alimentos, saneamento básico, saúde e educação. A Dinamarca é o país top, com menor índice de corrupção. Esta Ilha ocupa da décima posição entre 168 países, o Brasil é o número 76. Coréia do Norte e Somália estão na lanterninha. Para acessar o mapa interativo clique aqui.

Mapa da corrupção – Transparencia Internacional

Nos anos 60 e 70, a psicologia social marcou muitos gols. Na época em que existiam menos restrições éticas aos estudos, um psicólogo judeu chamado Stanley Milgram se perguntou se o holocausto aconteceu na Alemanha, porque os alemães eram mais cruéis que outros povos. Seu trabalho resultou num dos estudos mais importantes sobre obediência. Tentei achar um estudo que tivesse o mesmo peso, mas que tratasse da corrupção.

Vários economistas e sociólogos se ocupam de entender a corrupção. O sociólogo político, Ronald Inglehart, da Universidade de Michigan nos Estados Unidos, descobriu que existe uma forte correlação entre a tolerância com as minorias e a corrupção. Países mais liberais com relação os direitos de gays e lésbicas, por exemplo, tendem a ser menos corruptos.

A corrupção anda de mãos dadas com o poder. Será que é verdade que todos os políticos são corruptos?  O poder realmente corrompe?  Um psicólogo americano chamado Nathannael Fast, da universidade Southern Califórnia, percebeu que existiam muitos estudos importantes, que avaliavam os efeitos do status e os efeitos do poder no comportamento das pessoas. Entretanto, ele não conseguiu encontrar nenhum que juntasse os dois elementos. O que ele queria saber era se existem pessoas que são mais propensas a se comportar mal quando têm o famoso pequeno poder (o funcionário da alfândega, o segurança da boate e o fiscal da prefeitura, que podem criar dificuldades desnecessárias, para afirmar seu poder), ou qualquer um pode dar um mau passo, dadas as circunstâncias. Então, junto com outros colegas, bolou um experimento.

Duzentas e treze pessoas tomaram parte no estudo. Dr. Fast criou quatro situações em que ele podia manipular as variáveis ‘status’ e ‘poder’. Todos os participantes foram informados que tomariam parte num estudo sobre uma organização virtual, teriam que interagir, mas não se encontrar, com um parceiro nesta ‘firma virtual’. Alguns estudantes receberam a função de ‘produtores de ideias’. Outros eram os ‘trabalhadores’, que teriam que executar funções. Como se esperava, um questionário revelou que os participantes valorizavam mais o status de produtor de ideias do que o de trabalhador. Até aí, novidade nenhuma.

Para manipular a variável poder, os psicólogos disseram aos participantes, que todos, a despeito do cargo que ocupavam na firma virtual, poderiam entrar num sorteio de 50 dólares ao final do estudo. Todos teriam a mesma chance de ganhar o prêmio. Mas tinha uma pegadinha. Para se candidatar ao prêmio, os candidatos teriam que pagar ‘prenda’, uma sanção, um pedágio. Os estudantes, em quem o Dr Fast queria criar um senso de poder, foram informados que eles poderiam escolher quais e quantas ‘prendas’ os colegas teriam que pagar para se qualificar para o sorteio. Estes estudantes foram informados que os colegas não teriam o mesmo poder sobre eles. Ou seja, não poderiam revidar.

Para outro grupo, o pesquisador disse que eles também poderiam escolher quantas e quais prendas seu parceiro teria que pagar.  Mas, o parceiro poderoso poderia decidir retirá-lo do sorteio, se ele não gostasse das sanções.

Todos foram apresentados com uma lista com dez prendas. Algumas humilhantes, como dizer dez vezes em público; “sou imundo”, outras engraçadas e por aí vai. Eles tinham que escolher pelo menos uma prenda para o parceiro pagar. Um outro grupo, que não tomou parte no estudo, também foi apresentado com a lista, para avaliar o quanto degradante ou humilhante eram as sanções.

 O que os pesquisadores concluíram é que tanto os participantes que tinham status e poder quanto os que tinham pouco poder e pouco status escolheram uma média de 0,67 atividades degradantes para o parceiro. Já os com baixo nível de status e muito poder, o chamado ‘pequeno poder’, escolheram em média 1,12 tarefas profundamente desagradáveis para seus parceiros. Um resultado que é estatisticamente relevante. Eles concluíram que, dada a oportunidade, pessoas comuns (qualquer um de nós) abusam do poder, se tiverem a chance.

A pesquisa é interessante, mas não responde à pergunta sobre os políticos corruptos. A corrupção aparece quando existe ganância, o declínio da sensibilidade ética (pública ou privada), senso de impunidade, mecanismos de controle fracos, sentimento de impotência por parte dos que poderiam denunciá -la e até valores culturais coniventes com as transgressões. Até onde puxar o barco? Por que algumas ‘transgressões’ são mais aceitáveis em algumas partes do globo que em outras?

As histórias dos políticos derrubados por suas condutas, nos episódios da casa de pato e na mentira para evitar uma multa, não são novas. Mas são significativas e exemplares. Será que não estamos fazendo a pergunta errada? Ao invés de perguntarmos se todo político é corrupto, a questão deveria ser: por que alguns países são mais corruptos do que outros? As consequências que esses dois políticos tiveram que enfrentar foram resultado de uma sociedade que não deixa esses deslizes passarem? Ou será que a sociedade é assim porque a corrupção não  é tolerada?

Se você já teve a oportunidade de jogar uma partida com uma criança de três, quatro anos, as chances de que você tenha topado com um mau perdedor são gigantescas. Nesta idade, a ideia de fracasso quase sempre termina com o tabuleiro no chão e peças do jogo destruídas por um acesso de ódio. Gente grande de verdade, assim como sociedades maduras, não chutam o pau da barraca. Se reagrupam, se organizam, reivindicam e sabem punir. Até porque, depois da explosão de frustração, alguém tem sempre que limpar a bagunça. 

Um comentário em “Como se faz um corrupto?

  1. Note q o mapa da corrupção é MUITO parecido com o mapa de sistemas de governo. Os países com parlamentarismo tendem à ser menos corruptos do q os com presidencialismo. A “exceção” é o Zeuá; mas um dos motivos é q lá muitas formas de corrupção foram legalizadas através do “Citizens United” («Corporations are people, my friend.» «Money is a form of speech.» &c).

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