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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Ou Isto, ou Aquilo

Cinderela, como todo bom clássico, está mais uma vez nas paradas de sucesso. Ilustra uma série de reportagens intitulada ‘100 mulheres’, que a BBC tem publicado essa semana. A matéria de hoje mostra uma feminista conversando com criancinhas numa escola primária. Ela começa contando a história da Gata Borralheira. Depois, vira a discussão para os direitos das mulheres. Conta que quando a história foi escrita, a aspirante à princesa, como todas suas companheiras do sexo feminino, não tinha fonte de renda e dependia de seu marido, pai ou familiares. O exercício proposto aos alunos é o de reescrever a história. Na versão que as crianças produzem, Cinderela dá uma banana para a madrasta e as irmãs abusivas, batalha seu ganha pão. Convidada para o baile, ela compra um conjuntinho descolado de calça, blusa e tênis, antes de partir para a balada. Na saída, perde um dos pisantes e deixa o príncipe desconsolado. O herdeiro real sai à procura da moçoila e, quando eles finalmente se encontram, resolvem que, em vez de se casarem, vão ser amigos e explorar o mundo. O sorriso da professora feminista não esconde sua satisfação com a história adaptada e revisada.

 

Sinal dos tempos

O link para a história acima estava abaixo de uma foto tão dourada, que deixaria com fotofobia até o decorador do castelo do príncipe encantado. A imagem mostra o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, às gargalhadas com o homem que virou a imagem internacional do Brexit, Nigel Farage. Os dois posando na Torre de Trump. Quanto simbolismo contido numa só foto. A legenda poderia ser: ‘sinal dos tempos’. A notícia, que ganhou destaque neste começo da semana, foi a mensagem que Trump publicou em seu Twitter que dizia: “Muita gente adoraria ver Farage como o embaixador britânico nos Estados Unidos. Ele faria um trabalho grandioso. ”

 

Trump declara seu apoio a Farage

Azedou por aqui. Farage, que durante anos foi o líder do partido UKIP (renunciou, mas atua como interino, porque seu partido não consegue eleger um novo líder), não é bem visto pelos Conservadores, atualmente no poder. Aliás, não é visto com bons olhos por político nenhum, que não seja de seu partido xenófobo. Boris Johnson, o ministro das relações exteriores, disse, numa sessão do Parlamento, que a vaga para embaixador nos Estados Unidos já está preenchida.

Sir Kim Darroch, o atual embaixador, deve estar se sentido como os candidatos demitidos da versão americana do programa ‘O Aprendiz’, que era comandado por Donald Trump. Não cabe a nenhum chefe de governo interferir ou sugerir nomes de embaixadores de outros países. Mas Trump sapateou na cabeça de Darroch ao anunciar para o planeta que suas fichas estão em Farage.

O negócio é que o twitter de Trump é um sinal de como as relações diplomáticas entre os dois países, que são aliados históricos, está mudando. A primeira-ministra Teresa May foi a décima-primeira chefe de Estado a ser contatada pelo presidente eleito após a vitória dele. Com a Grã-Bretanha fora da União Europeia, este país vai ter que lutar com unhas e dentes por cada um dos acordos comerciais que tentará garantir. O jogo não vai ser fácil.

Amanhã, o governo anuncia mais um orçamento. A quantidade de dinheiro que precisou pedir emprestado para fechar as contas diminuiu um tiquinho nos últimos meses, mas o déficit continua assustadoramente grande. O Brexit só complica essa matemática. Mas isso tudo é conversa do establishment. Durante a campanha para a saída da Comunidade Europeia, o bordão era que o povo estava cansado dos figurões que vomitam cifras e estatísticas. Talvez esse esgotamento tenha sido o que levou ao Brexit e até mesmo à vitória surpreendente de Trump do outro lado do Atlântico – uma descrença total nos modos tradicionais de ser fazer política.

O que deixou muita gente (eu inclusive) com a pulga atrás da orelha foi como ninguém previu as bordoadas daqui e de lá? Poucos dias antes da eleição nos Estados Unidos, vi na tevê um repórter perguntado para uma americana de uns 30 anos em quem ela iria votar. Ela disse que votaria em Trump. Ele então perguntou se os escândalos sexuais envolvendo o candidato não a deixavam incomodada. Ela respondeu, no tom mais monótono que se pode imaginar, que não. Ela sabia que esses eram erros do passado e que Trump ‘era um homem arrependido e temente a Deus’. Quase caí da cadeira. Olhei para o meu marido e disse incrédula: ‘como ela não tem vergonha de falar isso em público? ’ Eu estava vivendo na minha bolha particular, que estava prestes a estourar.

Nesta Ilha, os salários dos homens ainda são em média 7% mais altos do que os das mulheres. Se elas têm pelo menos um filho, essa diferença pula para 21%. Tirando alguns países escandinavos, essa é uma história recorrente em muitas outras partes do planeta, embora alguns países tenham números ainda mais discrepantes para contar. A julgar por aquilo que tenho lido, depois do Brexit e da vitória de Trump, o movimento feminista está cortando um dobrado, como nos tempos em que as mulheres ainda usavam corpetes e suspiravam por seus príncipes, enquanto engoliam sapos.

 A tríade ‘Direitos Humanos’, ‘Feminismo’ e ‘Politicamente Correto’, ao que parece, andava enojando muita gente, que fez das urnas sua voz. Muitos, como eu imaginava, tinham sim vergonha de declarar suas insatisfações, porque sabiam que seriam ‘massacrados’ pela mídia e pelas redes sociais, que andam mais justiceiras do que a Inquisição. Mas na hora da cabine de votação, sem ninguém olhando…

Desde que vi a reportagem da Cinderela, tenho me perguntado qual é a melhor maneira dialogar. Num mundo de ideias diametralmente opostas, onde todos gritam, só sobra cacofonia e confusão. Como defender os direitos das minorias, a igualdade de gênero e a justiça social sem querer impor uma visão única de mundo? E se a Cinderela de 2016 quisesse se casar e ficar em casa, ao invés de viver uma amizade colorida enquanto desbrava os sete mares?  Fica a impressão de que vivemos o momento ‘Ou isto, Ou aquilo’, quando poderíamos estar vivendo um outro muito mais rico e esperançoso do ‘Isto e Aquilo’. Se ao menos as bordoadas servissem para alguma coisa útil …

2 thoughts to “Ou Isto, ou Aquilo”

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