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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Solidão

Numa semana de notícias barra-pesada: bombardeios, refugiados, baixarias na política e Brexit, uma notícia me marcou mais que as outras: a história de uma senhora inglesa de 84 anos, que passou quatro dias presa numa banheira, sem que ninguém desse falta dela. Ela não conseguiu sair sozinha e sobreviveu bebendo água e abrindo a torneira de água quente para não congelar. Foi salva graças à funcionária de uma lanchonete, que toda semana servia uma berita para a velhinha. A mulher estranhou a ausência da freguesa fiel e alertou a polícia.

Anos atrás, num inverno particularmente rigoroso, uma de minhas vizinhas levou um tombo no quintal de sua casa e ficou caída na neve. Socorrida por um vizinho, que ouviu seus gritos, a velhinha foi levada ao hospital. Dias depois, teve alta tarde da noite. Como leito em hospital vale ouro, ela foi levada às pressas de ambulância para casa. Ou melhor, foi despejada em casa. Ninguém checou se o sistema de aquecimento estava funcionando. Não estava. Fraca e confusa, ela morreu de hipotermia. Literalmente morreu de frio e só foi encontrada dias depois.

 

O post de hoje é ‘Da Gaveta’*. Conta uma história real, que dá a dimensão da solidão dos velhos desta Ilha:

 

 

Primeira noite de 2012, a preguiça toma conta.  Assentada em frente à televisão sou só letargia. Devia tomar coragem e ir para cama, mas esse não mover, não fazer nada, não prestar atenção na tevê vence. Fico no estado lesma, até que o telefone toca. Quase dez e meia da noite. Quem liga a essa hora? Do outro lado da linha, uma voz de homem que não reconheço diz que está ligando da companhia… eu não pego o nome e começo a me irritar: telemarketing depois das 10 e em pleno feriado! Mas aí ele diz o nome Marjorie e todos os meus sensos acordam e ficam alerta. Dá para repetir? O que aconteceu?

O homem explica que Marjorie apertou o botão de emergência, que carrega num colar pendurado ao pescoço. Eles ligaram para ela e não conseguiram entender o que ela dizia. Como estou na lista de pessoas em que ela confia, eles estão me ligando para avisar que alguma coisa pode não estar certa. É estranho como as coisas acontecem. Uma vez li numa entrevista uma pessoa que dizia se surpreender com a inocência do instante que antecede a tragédia, achei esse pensamento cristalino. Ao desligar o telefone, o estado de preguiça abissal, que tomava conta de mim alguns minutos antes, parecia ter acontecido em outra encarnação. Um rápido telefonema rasgou a previsibilidade do meu dia até então.

Enfiei nos pés o primeiro par de sapatos que encontrei e ainda pensei em pegar um casaco antes de sair; é janeiro afinal.  A chave!  A chave, preciso achar o chaveiro com a chave da casa de Marjorie. Por que é que a minha bolsa tinha que ter tantos bolsos? Aviso para o marido que a Marjorie não está bem e saio no escuro da noite. 

Marjorie mora umas quatro ou cinco casas para frente, do outro lado da rua. Chego lá num segundo e toco a campainha, antes de tentar a chave que ela me deu. Conheci a Marjorie anos atrás. Ela é uma senhora de 94 anos, que mora sozinha. Nunca se casou. Tem uma irmã mais ou menos da mesma idade e alguns sobrinhos. Ela vive só desde sempre. Sou fã da Marjorie. Ela é independente, interessada na vida. Não vê televisão, porque é perda de tempo, segundo ela. Ela mora numa casa cheia de livros, papéis e cartas e bem espartana em termos de móveis. Marjorie é do tempo da guerra, aprendeu a se virar com o racionamento durante anos e sabe ser feliz com muito pouco. De vez em quando, ela aparece aqui em casa para tomar um chá e saber como a “ little Anna” está indo. Ela sempre quer saber do Brasil e da minha família. Quer saber de todos os lugares do mundo onde nunca esteve. Tem histórias formidáveis para contar e sabe contá-las com graça. Não reclama e nem se lamenta do que ficou no passado. Marjorie é teimosa e decidida, faz o que quer, vai onde quer, não gosta de gente dando palpite na vida dela. É encantadora. 

Tento abrir a porta da frente, mas alguma coisa está bloqueando a entrada.  Abro com cuidado e descubro que é uma cortina grossa, que ela puxa de noite para cobrir o vidro da porta e ter mais privacidade. Termino de abrir a porta e ela está caída no chão, no corredor. 

Com um misto de vergonha e ansiedade, ela me conta que caiu e não consegue se levantar. Deve fazer uns 40 graus dentro daquela casa. O casacão começa a me sufocar. Antes de socorrê-la, preciso me livrar do casaco, senão também vou desmaiar naquela sauna. Ajoelho-me ao seu lado e pergunto se ela sente dor. Ela diz que não. Pergunto se ela está machucada, ela nega de novo. No meio do ano passado, Marjorie teve outra queda, exatamente no mesmo corredor e quebrou a bacia. Foi socorrida pela vizinha de porta, uma paquistanesa muito gente boa, que está sempre dando uma mão e que não entende como é que a família da Marjorie não cuida dela. No Paquistão, isso não aconteceria…

O tombo na primavera custou muitos dias de hospital e uma operação para reparar o estrago. Desde então, ela está mais fraquinha, mais magrinha e se movendo com mais dificuldade. Ela tem uma dessas cadeiras de roda com direção e um motorzinho, que os velhinhos aqui usam para ir às compras. Parece uma vespa da terceira idade. E ela vai que vai, a cinco por hora, no meio da rua, concentradíssima. Já me ofereci para fazer as compras dela, mas ela não larga esse osso e faz questão de se virar sozinha.

Tento erguê-la e não consigo. 

Aos 8 anos, ‘little Anna’  é fascinada por qualquer programa que tenha competição. Ontem, ela achou mais um programa “interessantíssimo” na TV: um torneio do homem mais forte do mundo. Um bando de homens com físico de guarda-roupa, sem pescoço e com uns brações de todo tamanho competem para ver quem é que consegue carregar mais vezes um tronco de árvore e quem arrasta um caminhão com uma corda amarrada na cintura. A menina decide que vai torcer pelo Terry Holland, ‘aquele de camiseta amarela, mamãe’. E chega a vez de Terry puxar o caminhão. Ele passou apertado no teste anterior e suas mãos estão cheias de bolhas. Um pouco antes de cruzar a linha de chegada, ele larga a corda. “Bad move”, mamãe, ela diz preocupada. O comentarista repete o que minha filha acabou de dizer e o homem-guarda-roupa perde a liderança.

No corredor de Marjorie, de joelhos, tentando erguê-la, só penso no sujeito de camiseta amarela. Como posso ser tão ridícula? Minha vizinha está caída e eu pensando no Iron Man? Ajoelhada não vai dar.  Levanto-me e digo para ela dobrar os joelhos. Ela obedece e eu a seguro por baixo dos braços. Aos poucos, ela está de pé. Ela entra em pânico, porque um dos sapatos saiu do pé. Digo para ela esquecer o sapato por um minuto e tentar se firmar. Pergunto mais uma vez se ela está bem. Ela diz que sim e que está com sede.  Minha boca também está seca.

Ela consegue se apoiar numa barra de apoio, que foi instalada ao pé da escada depois do último tombo. Vou buscar água para ela. Então começa a operação para colocá-la na cadeira elevador, que a levará para o andar de cima onde ficam o quarto e o banheiro. Pelos poderes do homem-guarda-roupa! Devagar vamos girando o corpo dela, até que ela consegue se assentar, aperta o botão e a cadeira começa a subir. Ela quer puxar assunto, saber da minha família, como se nada tivesse acontecido. Mas, quando chega ao topo da escada, a expressão do rosto muda e ela fala pela primeira vez que talvez esteja na hora de pensar em ir para um asilo. Fico em silêncio. 

Vou me espremendo no vão entre a cadeira e o corrimão e consigo levantá-la mais uma vez. Esperando por ela, no topo da escada, está um andador. Ela se apoia e começa a ir devagar para o quarto. Pergunto se ela não devia ir ao banheiro antes. Ela é mais obediente que a minha filha. Espero do lado de fora, não quero constrangê-la. Ela não tem pressa. Um tempo depois me chama. Não está conseguindo tirar a roupa sozinha. Aos poucos, ela vai se despindo. O casaco primeiro, a blusa, a camiseta, o sutiã, a calça, a meia, a ceroula e a calcinha. Vou ajudando e ela vai se entregando. Não restou vergonha. Só uma mulher absurdamente  vulnerável, extremamente carente. Procuro ao redor e não encontro nenhuma camisola. Ela dorme nua. 

Olho para o corpo despido, flácido, assentado no vaso sanitário e me vem à cabeça um quadro do Lucian Freud. .

Olho para os seios grandes, que um dia devem ter sido fartos e redondos e que hoje se renderam como dois balões de aniversário, que ficaram esquecidos atrás do sofá até que se reduziram a rugas.

Olho para o ventre  e vejo uma promessa que nunca se cumpriu. Está vazio dos filhos que ela não gerou.

Olho mais abaixo. Só uns poucos fios de cabelo sobraram para contar as histórias das noites de paixão que ela nunca viveu.

Quando era mocinha, Marjorie saiu com um rapaz. ‘Ele foi um bruto’, ela disse. Assim que chegou em casa, a mãe quis saber porque o vestido dela estava tão amassado. Ela não contou. Não quis contar para ninguém, mas tinha decidido que nenhum homem jamais iria tocá-la de novo.

Eu não conseguia tirar os olhos daquele corpo intocado e muito branco.  

Ela quis ir para a cama e nós saímos em procissão pelo corredor. À frente, o andador. Depois aquele corpo nu e encurvado e eu segurando-a mais uma vez. Os ombros e as costelas me lembravam uma cadeira de praia, que fica encostada juntando poeira num canto qualquer, dobrada e desbotada. Sombra do que foi em seu primeiro verão.

De uma maneira que é difícil de explicar, aquele corpo de carnes murchas era mais infantil do que senil. Tinha a fragilidade e a vulnerabilidade de um bebê. Só os pés contavam história de velhice e decrepitude, com seus dedos retorcidos e a pele roxa de tanto se esforçar para fazer o sangue não parar de circular.

Ajeitei os travesseiros para ela. Fechei as cortinas. Cobri seu corpo tão nu. Dei um beijo de boa noite, antes de sair de novo no escuro da noite gelada. 

 No dia seguinte, Marjorie iria acordar sozinha, como sempre foi.

 

* Da Gaveta:Toda redação de TV tem o que o jargão jornalístico chama de ‘matéria de gaveta’. Reportagens, digamos nem tão factuais assim, que o editor-chefe ama em dias fracos de notícias. O Da Ilha também tem suas histórias Da Gaveta. São impressões de quando eu ainda era novata na terra da Rainha.

 

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