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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Mão Inglesa, Velocidade Restrita

Aos 18, 19 anos (já não me lembro mais) entrei no carro da autoescola. No banco do passageiro, um examinador mandão com cara de poucos amigos. Ordenou que eu arrancasse, virasse aqui, ali e segurasse o carro na embreagem (fundamental numa cidade cheia de ladeiras). Fiz uma baliza perfeita (sorte de principiante). Depois de alguns minutos, o juiz da minha destreza mandou que eu retornasse. Não disse uma palavra. Se ocupou de preencher um formulário, que eu tentava espiar de rabo de olho, sem dar bandeira de curiosa. Quando a caneta terminou de rabiscar a assinatura, que fazia um som exagerado demais na prancheta, ele disse sem uma gota de emoção: você passou. Pode apanhar sua carteira de motorista.

Minha primeira providência depois de retirar o documento foi dar um pulo até a Praça do Papa. Todo mundo sabia que era cheio de blitz por lá. Dei umas três voltas e nada. Apesar do meu olhar suplicante/desafiador aos guardas de trânsito, ninguém me parou. Perdi a chance de mostrar minha habilitação fresquinha.

Esse é um daqueles episódios que na época em que acontecem são interessantíssimos (só para quem os viveu, claro), mas que a gente se esquece e a fila anda. A fila de fato andou, mas anos depois a cena meio que se repetiu. O examinador era um pouco mais educado, mas igualmente dotado de falta de entusiasmo. Eu precisava da carta de habilitação britânica, para o seguro do carro.

No livrinho de legislação, placas com identidades visuais diferentes. Informações sobre guiar na neve, dirigir trailers e a distância em polegadas entre o carro e o meio fio. O que é chato em português é maçante em inglês também. O teste, feito no computador, incluía uma prova de prontidão. Tive que clicar o mouse, cada vez em que um possível risco se apresentava na simulação de um carro seguindo numa rua movimentada. A geração videogame tira de letra.

O exame de vista foi o examinador dizendo para mim: leia a placa daquele carro azul estacionado ali. E só.

E não é que foi a visão que me reprovou no exame de rua? Faltou olhar. Olhar nos espelhos a cada microssegundo. Depois de anos dirigindo, os vícios aparecem e não vou me estender no assunto, porque é constrangedor demais. O que interessa é que, apesar da humilhação (e outro exame), minha carteira de motorista está bonitinha na bolsa. E não, não fui atrás de blitz, porque não tinha mais graça.

Dirigir na mão inglesa no começo é esquisito. Bati o braço direito um sem número de vezes na porta, tentando trocar as marchas. O pior mesmo é a noção espacial. No Brasil, o motorista sabe que o carro ‘acaba’ no seu lado esquerdo. O resto do carro fica à direita. Aqui é o contrário. E na hora de entrar numa rotatória?  Dar preferência? Tudo isso a gente se esquece rapidinho. E torna a lembrar depois de umas férias guiando do outro lado. Aí, o que vale é o infalível: não importa de que lado está o assento do condutor, o motorista está sempre no meio da rua e o passageiro junto à calçada. Regrinha básica anti-trombada. Funciona que é uma beleza.

 

 

O negócio é que existe uma série de regras que não estão escritas nos livros de legislação. Muitas ruas de Londres são do tempo em que os cavalos eram meio de transporte. Elas não foram planejadas para o trânsito de carros, são muito estreitas. Os motoristas constantemente têm que negociar a preferência. Uma das regras tácitas é sempre dar preferência aos motoristas velhinhos. Não é questão de educação e sim de sobrevivência mesmo. Eles não param. Quanto mais cedo a gente descobre isso, melhor.

Os ingleses também deixam espaços consideráveis entre um carro e outro na hora da baliza. Nada de colar no carro da frente. Onde param três, cinco poderiam estacionar. Não adianta bufar, quando você não encontra uma vaga.

Um amigo inglês costuma dizer que os ônibus são provocadores móveis de engarrafamentos (soa bem melhor em inglês, eu garanto). Nas ruas estreitas de Londres, a observação dele faz sentido. Mas há aqueles que reclamam do limite de velocidade introduzido no ano passado. Dizem que empaca ainda mais o que já é enrolado. Em cerca de um quarto das ruas da capital inglesa, o limite é de 20 milhas por hora, 32 quilômetros. O plano é reduzir 40% do número de mortes e feridos graves em acidentes até o ano de 2020. Em 2013, foram 132 mortes e 2.192 vítimas com ferimentos graves. Quem desrespeita o novo limite e é pego por uma das câmeras de trânsito, paga multa de 100 libras e perde 3 pontos na carteira.

O programa de restrição de velocidade vai passar por uma reavaliação no meio do ano que vem. Se os resultados forem positivos, outras zonas de baixa velocidade vão ser implantadas. A intenção, além de reduzir o número de feridos e óbitos, é incentivar mais pessoas a trocar o carro pela bicicleta. Entretanto, as associações de ciclistas advertem que só reduzir a velocidade não muda nada. Um caminhão a dez quilômetros por hora também pode matar. Os motoristas, independentemente da velocidade, têm que estar sempre atentos aos ciclistas e pedestres.

Outro ponto é que em Islington, um bairro de Londres, onde todas as ruas passaram a ter o limite máximo de 20 milhas por hora, a mudança nas normas não mudou o comportamento dos motoristas. Depois das novas regras, eles reduziram a velocidade em apenas uma milha por hora, passaram de 28 para 27 milhas. Os críticos do programa dizem que falta sinalização mais óbvia. As administrações investem cada vez mais em câmeras eletrônicas para flagrar os apressadinhos. Se dói no bolso, o pé desacelera.

Quando a Nova Zelândia tornou compulsório o uso de capacetes para ciclistas, o número de acidentes graves aumentou. O capacete deu a falsa impressão de segurança aos que gostam de pedalar. Eles começaram a assumir mais riscos. A solução não foi voltar atrás e revogar a lei e sim investir em educação para o trânsito. Um ciclista consciente dos riscos e que usa capacete tem menos chances de se machucar do que um cuidadoso sem a proteção.

A redução de velocidade nas ruas é uma tendência que se espalha por outras cidades aqui da Ilha. Há os que dizem que um caminhão que está dando ré pode matar um pedestre. É verdade, mas a energia gerada numa batida a 80 quilômetros por hora é bem maior do que uma a 30 quilômetros. Com as leis da física não tem o ‘mas, se…’

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