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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

A Batalha do Quadro Negro

O ano escolar aqui da Ilha acaba de começar. O verão aos poucos passa a ser um arquivo a mais na memória afetiva, daquelas que a gente colore com mais capricho, que é para deixar uma boa impressão. As folhas começam a amarelar e a cair. O outono se aproxima.

Escola na Inglaterra

Nesta semana de recomeços, uma notícia tem bombado: um diretor de uma escola secundária mandou para casa 60 alunos no primeiro dia de aula. Eles não estavam com o uniforme completo. Alguns usavam tênis, o que não é permitido.

O diretor, Matthew Tate, foi contratado para elevar o nível da escola, que fica numa região pobre da Inglaterra. As escolas aqui são inspecionadas e julgadas de acordo com um critério único e nacional. Elas podem ser qualificadas como excepcionais, boas, satisfatórias e insatisfatórias. Para as escolas que não apresentam bons resultados, o governo emprega os ‘super head’ – diretores super qualificados, que têm a missão de melhorar o desempenho do colégio. Tate, imagino, é um deles. Sua política de tolerância zero é polêmica. Ele se defende dizendo que mandou cartas para as famílias dos alunos, ainda durante as férias, informando sobre as novas regras e o que aconteceria, se elas fossem desrespeitadas.

Não sou especialista em educação e não vou dar meu pitaco. Andei pesquisando e, ao que tudo indica, uma política firme com relação ao uniforme ajuda a lidar com os problemas de falta de disciplina, o que é comum em áreas mais carentes. Um conhecido meu, que é professor, pediu demissão da escola em que trabalhava, porque as famílias eram estruturadas demais. Ele acreditava que deveria procurar uma escola na qual ele fosse realmente necessário. O professor havia abandonado o emprego no mercado financeiro, ‘ porque gostaria de fazer diferença na vida das pessoas. ’

Topei com a mulher dele outro dia por acaso e perguntei como ele estava. Ela deu um suspiro, olhou para baixo e disse que não muito bem. Ele não conseguia se conformar com o fato de que as famílias mais necessitadas eram as que não apareciam nas reuniões de pais. Ele passava grande parte do dia tendo que lidar com a papelada do serviço social. Uma de suas alunas, uma menina de 8 anos, foi separada da mãe. Ele não sabia o motivo, porque era confidencial. Mas, todos os dias na hora da saída, a criança olhava para ele chorando e perguntava: ‘hoje é o dia em que a mamãe vem me buscar?’ Quando conversei com sua esposa, o professor estava em casa de licença médica. Se ele voltou à ativa nesta semana, não sei.

Por outro lado, quem critica a decisão do diretor, cita o exemplo dos países escandinavos, onde não existe uniforme escolar e as crianças apresentam resultados muito melhores do que as daqui. Fico pensando se este tipo de comentário não é comparar alhos com bugalhos. O uniforme, ou a falta dele, é o que realmente conta? Esta é uma sociedade formal. Os professores são chamados de senhor, senhora, senhorita mais o sobrenome. As crianças não sabem o primeiro nome de seus mestres. Os professores usam gravata, calça jeans não é permitida.  Nos tribunais, ainda se usa peruca.

Não faz muito tempo, passamos pela saga de escolher uma escola secundária para nossa filha. Tudo muito diferente da minha experiência no Brasil. As escolas promovem um dia de visita, para que as famílias possam saber mais sobre suas propostas de ensino. O evento termina com uma apresentação e um discurso do diretor ou diretora. Um deles bateu muito na tecla do uniforme. Disse que as crianças tinham que estar apresentáveis, com as camisas abotoadas até o pescoço e enfiadas dentro das calças ou saias. Os sapatos deveriam estar sempre engraxados. Segundo ele, o objetivo era preparar essas crianças para o mundo do trabalho, onde códigos sociais e como cada um se apresenta é muito importante.

Outro ponto é que o uniforme aniquila as diferenças sociais. Pelo menos no visual. Todos se vestem igualmente e ninguém se sente por baixo por não ter o casaco da última moda.

A questão da educação pública por aqui revela paixões como a do meu conhecido, o professor com vocação para o magistério. Desde 1944, as escolas são gratuitas para todas os adolescentes acima de 14 anos neste país. O direito universal à educação é visto como garantido por alguns, que não sabem o tesouro que têm e como motivo de orgulho por outros, que enxergam os benefícios.

Uma das minhas melhores amigas por aqui não tem problema de fluxo de caixa, se é que você me entende. Mora numa daquelas casas de filme com um quintal que me faz suspirar, toda vez em que penso nele. Ela poderia tranquilamente matricular os filhos numa escola particular, mas os meninos frequentam escolas públicas. Ela é ‘governor’ na escola dos dois filhos menores, uma espécie de conselheira.  Seu argumento é que cada família deve contribuir para educação de suas crianças e exigir que as escolas ofereçam um ensino de qualidade e não abandonar o barco por uma escola particular.

Esse é exatamente o ponto central de outra notícia que tem ganhado espaço na mídia local: criar ou não criar novas ‘grammar schools’. ‘Grammar School’ é uma escola secundária, pública, acadêmica e seletiva. Em outras palavras, para entrar tem que passar por um vestibular; é destinada às crianças que gostam de estudar (muitas delas ainda ensinam grego e latim por exemplo) e que têm mais chances de entrar para uma universidade de prestígio. A questão é que a competição é dura. Existem apenas 163 escolas como essas na Inglaterra. A alternativa são as ‘Comprehensive Schools’ (quase 3 mil), onde estudam crianças e adolescentes com habilidades diferentes, alguns craninhos, outros nem tanto. Na Escócia e País de Gales não existem Grammar schools.

O seleto grupo das Grammar Schools

Os Conservadores, partido da primeira-ministra Theresa May, querem que novas Grammar Schools sejam criadas. O problema é que uma lei de 1998 proíbe a implantação deste tipo de escola. O argumento é que elas não são inclusivas e promovem divisão social. Os alunos de famílias, onde os pais têm maior nível de escolaridade, têm mais chances de passar no vestibular, aprofundando assim a distância entre pobres e ricos.

É exatamente o contrário, contra argumentam os Conservadores. As escolas de vocação acadêmica são uma oportunidade única para crianças inteligentes conseguirem entrar em boas universidades. Graças a seus méritos.

Faz um tempo, assisti a um documentário da BBC sobre as ‘Grammar Schools’. No pós-guerra, elas eram para os meninos pobres daqui o que um jogador de futebol representa para um menino carente no Brasil: um passaporte para uma vida com menos dificuldades financeiras. O filme foi atrás de sexagenários, que passaram pelas escolas mais apertadas do país. Um dos personagens era um sujeito que era considerado um aluno brilhante na escola primária. Convencido pela professora, o menino fez o ‘vestibular’ aos onze anos e passou. O problema é que a família era tão pobre, que ele não tinha como pagar o ônibus para frequentar a escola. Mesmo décadas depois do ocorrido, ele ainda pensava sobre o que teria acontecido com sua vida, se as condições fossem outras.

Passaporte para uma vida melhor

Hoje em dia, teria sido diferente. Ele teria conseguido transporte e merenda de graça. A questão é que nas ‘Grammar Schools’ apenas 9% dos alunos estão no programa de merenda grátis (em outras palavras, são tão pobres que dependem da ajuda governamental). Nas outras escolas públicas este número é de 28%. Além disso, alunos que frequentaram escolas particulares no primário têm mais chances de ingressar nas escolas acadêmicas.  A saída poderia estar num programa de cotas (20% das vagas), destinado a garantir espaço aos alunos com menor poder aquisitivo. Esta parece ser a nova cartada do governo Conservador para a abertura de novas ‘Grammar Schools’.

A questão da mobilidade social é complexa. Dadas as mesmas condições para um grupo de pessoas, as histórias de sucessos e fracassos vão sempre existir, porque cada uma vai fazer suas escolhas pessoais. Entretanto, na medida em que os grupos sociais crescem, aumentam também as variáveis e as condições. O cenário quase nunca é o mesmo para todo mundo. As escolas primárias oferecem vagas aos alunos que moram perto do colégio. Nas áreas mais ricas, onde o preço dos imóveis é mais alto, as escolas tendem a ser melhores.

No ano passado, minha filha fez o tal vestibular da escola acadêmica. Era notável o grande número de candidatas de famílias asiáticas. Existe uma indústria do vestibular, com livros testes, professores particulares e simulados mil. A seleção me parece ser menos a respeito dos que são academicamente melhores e mais sobre os que foram mais preparados para o teste.

Minha filha não faz ideia do que seja uma lousa. Ela não sabe a gastura que dá o giz arranhando o quadro. Suas professoras usam um ‘white board’, o quadro branco hi-tec, conectado ao computador. Como sou de outro tempo, vou dizer que a batalha do quadro negro, seja na questão do uniforme, ou das escolas seletivas, tem repercussões que vão muito além da sala de aula. E, enquanto elas forem destaque na mídia e no dia-a-dia das pessoas, vou pensar que nem tudo está perdido.

2 comentários em “A Batalha do Quadro Negro

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