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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Yes, Brazil!!

 

 

“He is full of nine o’clocks!”

 Para nós, dizer que ele é um sujeito cheio de nove horas, faz sentido. Tenta explicar para um inglês o que significa a expressão. Você vai notar a cara de paisagem que eles fazem e uma certa urgência em mudar de assunto. 

Agora, se você tentar explicar o que significa “muita areia para o meu caminhãozinho”, aí, my friend, existe uma chance considerável de que você irá provocar um tom de desaprovação em seu interlocutor britânico. Nossos cérebros são programados para fazer julgamentos o tempo todo, numa velocidade incrível. Faz parte de nossa estratégia de sobrevivência. Normal. Só não é normal aqui emitir a sua opinião a respeito de outra pessoa. Não se diz que fulana é gorda e sim que é grande. Ninguém é agressivo, tem problemas em lidar com a raiva. Apesar dos ingleses terem um senso de humor autodepreciativo, dizer que alguém está fora do seu alcance, porque é bonito demais, ou rico demais, não é de bom tom. Talvez porque ao fazer isso, fique explícito que existe uma comparação e ser ‘judgemental’ (uma pessoa que julga a outra) pega mal.

Nossas opiniões e impressões de mundo não são apenas baseadas em observações. Os estereótipos são inegáveis. Quem chega aqui achando que os homens ingleses são iguais ao Hugh Grant ou mesmo o Colin Firth (os dois que brigam pelo coração de Bridget Jones), tem uma chance grande de quebrar a cara. Desculpe se quebrei o encanto.

Também não espere ver esta Ilha parando no fim da tarde para o chá das cinco. Chá aqui é que nem água. Para ser bebido em quantidade e a qualquer hora. Nos poucos dias de calor no ano, essa turma chega em casa bufando, dizendo que está com sede e vai logo botar a água para ferver na chaleira elétrica. Mistura leite frio no chá quente e atinge seu nirvana na terra.

Quando falo que quase nunca tomo café, escuto: mas você não é brasileira? Acho que eles esperam que eu tenha o samba no pé e goste de barulho o tempo todo. Estereótipos…

Na vibe Rio 2016, fico com a impressão de que esse povo tem uma visão do Brasil que é um pouco distorcida. Me lembro que há anos, quando viajava pela Escócia, várias pessoas me perguntaram como a gente fazia para lidar com o problema das aranhas venenosas no Brasil. Só depois é descobri que eles tinham assistido a um documentário sobre vida selvagem na América Latina. Me lembrei disso quando vi a vinheta das olimpíadas que a BBC pôs no ar. É uma visita ao safari. Muito caprichada, como sempre. Reforça uma visão que eles tem do Brasil. Poderiam ter usado outros estereótipos menos favoráveis, é verdade.  Mas por que estragar o show? https://www.youtube.com/watch?v=EkRVqn5gZJY

Os produtos de inspiração brasileira estão por todos os lugares. Uma rede de fast food anuncia o frango com molho BBQ Rio, molho doce e apimentado como o churrasco brasileiro, certo?

 

Molho BBQ do Brasil

Um supermercado teve uma ideia de gênio: a linguiça de feijoada. A solução perfeita para os preguiçosos experimentarem o prato mais famoso da culinária brasileira. Já vem com feijão preto, carne de porco, caldo de carne e chorizo (que é um embutido espanhol bem curtido e alaranjado de tanta páprica) Yes, Brazil!

 

Autêntica linguiça de feijoada

 

 

Tive que comprar e experimentar, curiosidade jornalística. Quem encara uma linguiça ‘made in Britain’ esperando algo parecido com as brasileiras, se dá mal. A maioria delas é intragável. Aliás, é meio que parte do folclore local a batalha da linguiça; quando a Comunidade Europeia determinou que, para ser chamada de linguiça, a iguaria teria que ter uma porcentagem mínima de carne. Prefiro não imaginar do que elas eram feitas antes das exigências dos ‘burocratas de Bruxelas’.

De volta ao que interessa: a linguiça de feijoada. Ao retirar da embalagem, notei uns pontinhos pretos. Bagos de feijão aqui e ali. Assei a carne no forno, coberta com papel de alumínio. Aqui não se frita a linguiça. Como eu desconfiava, o chorizo se sobressai. O feijão some e a carne de porco tem gosto de páprica. Ruim? Não achei. Aliás, o tempero é melhor do que de outras a venda. Sabor brasileiro, certo?

Para descer melhor, a linguiça de feijoada pode ser acompanhada por um espumante de caipirinha. Pasmem! Misturaram vinho branco frisante, com cachaça, nosso limão verde e goiaba. Geladinho, até que desce. 5% de teor alcoólico e tem até a ‘virtude’ de ser apropriado para vegetarianos e veganos. Tim-tim, Brasil!

Espumante de caipirinha


Tem também a batata Pringles sabor vinagrete brasileiro e noodles de churrasco (um miojinho básico).

 

Mas, o melhor achado foi uma mistura para fazer uma autêntica Pina Colada brasileira! Não provei é óbvio. Curiosidade jornalística tem limite. O que parece não ter limite é a ‘criatividade’ de quem talvez tenha errado no passo ao tentar capturar o verdadeiro espírito culinário dos anfitriões dos Jogos Olímpicos de 2016.

Saúde!

2 thoughts to “Yes, Brazil!!”

  1. Genial, Duda! Me refiro ao seu texto e não às homenagens dos ingleses a nossa culinária 🙂 De todas as opções, acho que provaria apenas a batata com sabor de molho vinagrete.

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