Skip to main content
 -
Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Entre Lavandas e Piqueniques

Quando a gente vive nesta Ilha, uma coisa é óbvia: aqui eles inventaram tudo que existe para ser inventado e tudo que fazem/produzem é o melhor do mundo. Novidade nenhuma. Faz parte da mentalidade bipolar das sociedades ( todas que conheço) que ora acham que são as melhores do universo e em outros momentos se depreciam mais do que fruta amassada em fim de feira.

No verão, o termômetro da megalomania tende a subir. De uns anos para cá, tenho ouvido maravilhas sobre a Riviera Inglesa, uma jogada audaciosa de marketing para promover as férias à beira mar aqui na Ilha e evitar a fuga de libras para o continente. Tem também a lenda do vinho MADE IN ENGLAND. Visitar os vinhedos é um passeio agradável, sem dúvida. Agora, esse papo da qualidade da bebida produzida do lado de cá do Canal da Mancha, esse my friend,  não desce muito bem. Sorry, guys.

Uma das fábulas mais grandiosas diz que as melhores lavandas do mundo não são as provençais francesas e sim as produzidas em Surrey, um condado ao sul da Inglaterra. Conta a história, que as alfazemas eram plantadas na frente das casas, mais ou menos como as romãs no Brasil. Mas não era para afastar os maus espíritos. Ou melhor, era para espantar um mal; o mau cheiro dos visitantes. Ao roçarem suas calças e vestidos nas florzinhas lilás, eles adquiriam um frescor instantâneo. Lavagem a seco inventada no século 17. Não falei que eles inventaram de tudo por aqui?

Se funciona com gente, por que não com cachorro? Há anos, todos os verões, visitamos um campo de lavanda. Uma fazenda que colore de lilás e roxo um pedaço de terra num subúrbio ao sul de Londres.  Desta vez, resolvi levar a cadelinha, que apesar de ter a aparência etérea de um algodão doce, veio com alma suína acoplada no DNA. Ama rolar na lama e em outras matérias orgânicas nada perfumadas, se é que você me entende. Sabe aquelas escovas rotatórias gigantes de um lava-jato? Pois é, o plano era levar a porquinha para ganhar um banho expressinho de alfazema entre as fileiras aromáticas. Ideia de gênio preguiçoso.

O campo de lavandas Mayfield Lavender é lindo, mas esconde uma saga familiar a tantos outros fazendeiros: pragas, falta de dinheiro e determinação. Começou com a ideia de um chefão da empresa de cosméticos Wella. Um sujeito chamado Brendan. Ele queria que os consumidores tivessem a chance de ver de perto a matéria-prima de alguns de seus produtos. A companhia rejeitou a ideia, mas Brendan não desistiu. Dois anos depois, conseguiu convencer um dos braços da Wella no Reino Unido, a Yardley. Mas tinha um porém: eles não quiseram bancar a compra da terra. Então ele criou uma instituição de caridade com um viés ambientalista e convenceu a administração de Surrey a arrendar um pedaço de terra.

Campo de Lavanda / arquivo pessoal

A primeira safra não deu frutos. Foi totalmente destruída por ‘magpies’, uns passarinhos muito comuns por aqui. No ano seguinte, o campo foi inteiramente replantado. Dois anos depois, duas novas variedades de lavanda foram introduzidas, mas a empresa, que bancava o projeto, foi vendida e o dinheiro secou.  Foi então que Brendan resolveu assumir financeiramente os custos da produção de lavanda. Acertou em cheio.

A cada ano, o jardim perfumado de cerca de 10 hectares atrai mais visitantes. Agora eles pagam uma pequena entrada, o café sazonal cresce a cada verão com produtos como biscoito e chá de lavanda. Uma lojinha fatura vendendo sabonetes, flores, sachês e tudo o que transforma sonhos perfumados em dinheiro.

O campo de lavandas deve estar em algum guia japonês de turismo. Posso apostar. Nesta região da Inglaterra, não se vê com tanta frequência grandes números de orientais. Eles se destacam em meio às alfazemas, com suas câmeras potentes e roupas saídas de um catálogo de moda, inspiradas provavelmente na última Tóquio Fashion Week. São mulheres com vestidos vaporosos nas cores branco, amarelo cheguei, laranja e roxo, para combinar melhor com o cenário. Também usam chapéus de abas largas e óculos escuros enormes. Adoram tirar fotos dando uns pulinhos no ar e capricham nos sorrisos.

Já vi noivas e uma infinidade de crianças posando para fotos. O pai ou a mãe que nunca fez isso, que atire a primeira pedra, mas mire bem longe de mim. Para o dia entre as lavandas ficar mais idílico, só falta um piquenique. O que é proibido no local. Até entendo. Vi pela primeira vez embalagens de picolé nas fileiras de flores. Mas é uma pena.

 

Piquenique no centro de Londres / Arquivo Pessoal

 

O piquenique é para mim o melhor do verão por aqui. Por ter nascido nas férias de julho, tive alguns aniversários quando criança que não deram muito quórum. Os convidados estavam sempre viajando. Só depois de adulta e morando aqui que descobri a vantagem de nascer no verão europeu. Festa instantânea no parque, sem ter que limpar a casa antes e depois e nem ter que lavar uma pilha de louça suja. Bingo!

Talvez  por isso os piqueniques sejam tão populares: são descomplicados. Quem não quer ou não sabe cozinhar, compra tudo pronto, descartável. Segundo consta, até dói dizer, mas vou falar baixinho e rápido: piquenique-é-uma-palavra-francesa! Ponto para os comedores de caracóis e alho, como dizem meus companheiros britânicos. A tradição de comer ‘Al fresco’ em locais públicos começou no século 17, a primeira menção escrita aparece num livro de 1692. Deve ter sido um ano e tanto.

Na cesta de gulodices locais vão invenções (estas sim) britânicas. Algumas melhores que outras, devo dizer. No meu aniversário, encomendei coxinhas e empadinhas de uma brasileira.  Não é comida típica de piquenique nem aqui, nem no Brasil, mas vá lá, a festa era minha e eu gosto de salgadinhos. As coxinhas foram injustamente comparadas com um campeão dos piqueniques locais. Uma amiga inglesa que disse para a outra: veja, uma versão brasileira do scotch egg.

O ‘ovo escocês’, aprendi pesquisando para este post, foi inventado numa loja chiquérrima de Londres chamada Fortnum & Manson em 1738 (a loja que existe até hoje é famosa por vender cestas de piquenique caríssimas). A iguaria nada mais é do que um ovo cozido, envolto em carne de linguiça, passado no ovo batido e farinha de rosca, antes da fritura. Perde de mil para uma boa coxinha. Sorry, again. A verdade às vezes é cruel.

 

 

 

A ‘coxinha’ deles

 

Na cesta, vão também sanduíches, morangos, uvas, cenouras e pepinos crus, cortados em palitos, pasta de grão de bico e bolinhos doces. Muita batata frita de pacote. Bebidas sem gelo, para o meu desgosto. Mas o prazer maior não é nem a comida e sim passar tempo ao ar livre, quarando no sol, jogando conversa fora, sem precisar fazer sala, vendo as crianças subindo em árvores e correndo sem nenhum equipamento eletrônico nas mãos. O que é sim, um bônus com ‘B’ maiúsculo.

Os parques ingleses são lindos e o interior aqui da Ilha é de se tirar o chapéu. Paisagens maravilhosas, um verde de encher os pulmões de felicidade.  As propriedades do National Trust são perfeitas para os dias ao ar livre. Mesmo assim, fico intrigada com um fenômeno cheio da idiossincrasia britânica que é facilmente observável nesta época do ano. Nem precisa de binóculo. São as pessoas que gostam de fazer piquenique no estacionamento destes lugares maravilhosos. Eles abrem suas cadeirinhas de armar e tomam seus lugares ao lado do carro, com vista para… o carro da frente. Ali passam horas, com cara de paisagem, comendo sem pressa um sanduíche amassado, tomando chá e lendo. Talvez seja por preguiça de carregar a tralha.  Mas acho muito estranho, às vezes é o caso de andar alguns metros e a paisagem real mais convidativa do planeta está à espera, sem exigir nada em troca. 

Este post está mais longo do que eu gostaria. Choveu pela manhã e agora o sol voltou. Está na hora de trocar o computador pelo ar livre. Antes que você me pergunte, a lavagem a seco de cachorro funciona. Pelo menos no quesito perfumaria. Mas só dura até a próxima visita ao parque. Uma vez espírito lambão …

Lavada da seco / arquivo pessoal

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.