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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Faça o que eu Digo

 

Em 1968, quando foi lançado, o filme Yellow Submarine contava a história de Pepperland, uma terra sitiada por vilões que odiavam música. Os Beatles então foram recrutados para irem, a bordo do submarino amarelo, combater o mal com boa música. O mundo vivia a Guerra Fria.

2016. Esqueça o submarino amarelo do Beatles. O submarino em questão na Inglaterra hoje é outro. Não tem nada de lúdico, divertido ou psicodélico. Na verdade, não é só um: são quatro submarinos nucleares, que formam o programa Tridente de defesa. Os submarinos patrulham as águas britânicas.  Eles têm uma vida útil (modo de dizer) de vinte e cinco anos. O prazo de validade termina em 2020, quando poderão virar sucata e dar lugar a modelos mais jovens, ou serão recauchutados.

Transformar submarinos nucleares da terceira idade em sucata ou construir modelos mais modernos? Esta é uma pergunta caríssima. De acordo com o governo, ela vale entre 17 a 23 bilhões de libras (coisa de 78 a 100 bilhões de reais). Para os pacifistas, o custo é de 100 bilhões de libras (cerca de 450 bilhões de reais) em 40 anos. 

Dois mais dois vão ser sempre quatro. Mas a diferença na matemática das armas nucleares mostra que, como sempre, cada lado exibe os dados que lhe convêm. Na conta do governo, o custo estimado para construir e reformar os submarinos. E só. Detalhe, o departamento de defesa tem a fama de subestimar os custos e acabar gastando mais do que o prometido.

 

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Já para o ‘ Campaign for Nuclear Disarmament’ – CND (uma ONG para o desarmamento nuclear), os números do governo não fecham. Para chegar aos 100 bilhões de libras em quatro décadas, eles consideraram uma determinação do Ministério da Defesa de destinar entre 5 a 6% de seu orçamento com o programa nuclear, o que dá cerca de 2.4 bilhões de libras por ano (vezes 40 anos). Olharam para os custos em separado. Levaram em conta 57 bilhões de libras em custos, mais 13 bilhões para se livrarem dos submarinos ultrapassados, somados aos 23 bilhões para construir novos submarinos e, finalmente a cereja do bolo: um bilhão para as forças militares garantirem a segurança do arsenal nuclear. É a matemática da conveniência mais uma vez em ação. O fato é que, mais do que o custo para o bolso do contribuinte britânico, essa discussão importa porque pode ter implicações profundas para esta Ilha.

Ontem, o que era apenas um jogo de expectativas tornou-se realidade. Os parlamentares aprovaram (472 a 117 votos) a renovação da frota de submarinos nucleares a um custo estimado de £31 bi (cerca de 133 bilhões de reais).  

A nova primeira-ministra, Theresa May, mostrou a que veio. Disse que não hesitaria um segundo sequer em apertar o botão (para acionar as armas nucleares) se fosse necessário.

Nicola Sturgeon é a líder do SNP (partido nacionalista escocês) e a primeira-ministra da Escócia. Para ela, renovar o programa Tridente, com os submarinos nucleares patrulhando a costa, é um absurdo. Ela disse várias vezes que o projeto todo era inútil e indefensável. ‘Nenhum político com credibilidade pode dizer que irá usar um armamento nuclear, que matará muitos civis, de forma indiscriminada e massiva e criar uma catástrofe ambiental”. Agora que o voto passou, diz que é mais uma razão para a Escócia pensar em se tornar independente do Reino Unido – tese que vem ganhando força desde o Brexit, quando a terra do whiskey votou pela permanência na Comunidade Europeia. O único submarino na ativa 24 horas, sete dias por semana, está em águas escocesas. É como o monstro de Loch Ness, que ninguém vê, mas que bota medo.

 

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Durante a votação de ontem, os Trabalhistas, que só caem desde a saída de Tony Blair, lavaram sua roupa suja em público. Jeremy Corbyn, o líder do Labour Party, é um político acostumado à oposição. O famoso do contra. Ele é um pacifista e, assim como Sturgeon, uma voz contrária à renovação do arsenal nuclear. O problema é que os parlamentares do partido que lidera não pensam assim. Eles acham que Corbyn é esquerda demais, intransigente demais e que detona as chances de o partido voltar ao poder. Querem um político mais moderado. Tentam se livrar dele, mas o velho combatente tem resistido, apoiado pelos sindicatos.

Uma outra notícia nos jornais de hoje informa que o aumento de verba no orçamento do serviço de saúde não é de 8.4 bilhões de libras e sim de 4.5bi. Aparentemente houve um “mal-entendido”. Todo mundo escutou errado, quando os números foram divulgados no ano passado, pelos Conservadores.

Para os pacifistas, com 100 bilhões de libras este país poderia produzir muita coisa boa: empregos para 150 mil enfermeiros, construção de um milhão e meio de moradias e cobriria os custos de quatro milhões de estudantes universitários.

Continuar investindo em armamentos nucleares traz ainda problemas morais e éticos. Ao manter o programa Tridente, este país estaria contribuindo para a escalada militar do planeta? Será que já não estaria na hora de se livrar de uma política de defesa que nasceu na Guerra Fria? Que diferença os navios nucleares fazem para a defesa britânica? 

Num documento assinado por vinte ex-membros da defesa britânica (leia-se militares aposentados) eles alertavam que, se livrar dos submarinos, seria deixar o Reino Unido enfraquecido e vulnerável a ataques. Mais ou menos como no jogo de Super Trunfo. O jogador com a carta ‘super trunfo’ está com tudo. Esta carta vence todas as outras. Da mesma maneira, a ideia é ter os submarinos nucleares e usá-los para frear ataques ao país. Não mexa comigo, porque eu tenho a carta mais poderosa e a usarei, se você pisar no meu calo. É a velho argumento de que as armas nucleares são instrumentos de paz. Durma com um barulho desses. 

Na história recente, mais precisamente em 1994, foi assinado na Hungria o Memorando de Budapeste. O acordo que faz parte do tratado de não proliferação de armas nucleares entre Rússia, Estados Unidos, Reino Unido, França e China. Pelo acordo, a Ucrânia concordou em abrir mão do terceiro maior arsenal de armas nucleares do mundo (herança da Ex-União Soviética). Em troca, recebeu garantias dos países, que assinaram o documento, de que sua integridade política, geográfica e sua independência estariam garantidas. 

 Duas décadas mais tarde, quem não viu? A Rússia anexou a Criméia, parte do território ucraniano. Vladimir Putin fez picadinho do documento e agora se faz de bobo. Diz que uma coisa não tem nada a ver com a outra, porque a separação da Criméia aconteceu por causa de problemas internos na Ucrânia. A tensão na região continua alta.

Os que defendiam a continuação do programa Tridente usavam a anexação russa da Criméia para reforçar seus argumentos. Outro ponto é que os novos submarinos vão gerar mais de dez mil empregos neste país, se bem que em 2012, um dos ministros disse que sairia bem mais barato transferir a produção para as Bahamas. 

No tabuleiro de forças da geopolítica, cada movimento é importante. O Reino Unido, quando se trata do arsenal nuclear alheio, diz que é preciso diminuir a corrida armamentista. Quando chega a hora de fazer o dever de casa, a mensagem é clara: Faça o que eu digo, não faça o que eu faço.                               

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