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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Verão de Cinco Dias

Calor e céu azul para abrir a semana. Ao que tudo indica, os cinco dias do verão inglês acabam de começar. As casas não são preparadas para o calor. Os branquelos também não. Nos jornais de tevê, jornalistas ensinam como sobreviver aos quase 30 graus esperados para os próximos dias. As escolas enviam alertas, implorando para que as crianças passem filtro solar, usem chapéu e não se esqueçam de levar uma garrafinha d’água para aula.

Já ouvi de muitos ingleses o termo ‘ócio produtivo’.  É preciso fazer alguma coisa que presta com o tempo livre, senão a consciência dói. O conceito de ficar à toa é complicado demais para alguns deles. Para mim, não. Vou tirar essa semana ensolarada para fazer nada além de desfrutar o verão, antes que ele vá embora.

 

No ritmo da preguiça desta estação-relâmpago, um post da gaveta*, do tempo em que eu tentava ensinar a língua de Camões na terra de Shakespeare.

 

 

GettyImages

Tolerância zero

Inglês adora uma estatística. Então aí vai mais uma: ontem foi o dia mais quente, desde que começaram a ligar para essas coisas. Eu, é claro, tinha que estar no pior lugar possível para se enfrentar as altas temperaturas em plenas férias escolares: Oxford Street. Não foi por ignorância ou masoquismo, mas porque tinha que comprar um livro de português para um aluno. Sempre achei que fosse intolerância e rabugice reclamar dos turistas no verão, mas acabo de me juntar ao time dos intolerantes. Aquilo é um inferno.

Cinco da tarde, sensação térmica: trinta e sete graus. A massa humana se espremia na calçada numa densidade comparável à saída de um megashow num estádio de futebol. Aderindo à chatice local, eu diria que turista não sabe nada, empaca mais que curva de rio, não consegue achar a Oxford St. no guia, pára para olhar o mapa, faz pausa para ver vitrine e principalmente anda muito, muuuiiito devagar (jamais em linha reta).

 Numa velocidade digna de São Paulo nos piores dias de chuva e na hora do rush, consegui driblar os turistas, até chegar à estação de Oxford Circus. Uma cruzada de dois quarteirões, que durou quase quinze minutos. Quando ia chegando na estação, senti vertigem ao ver a multidão se acotovelando ao redor das escadas de acesso ao “tube”. As quatro entradas da Oxford Circus formam um círculo nas quatro esquinas dos cruzamentos entre Oxford e Regent Street. Onde a Regent se encontra com a Oxford , o coração brasileiro bate mais audível: lá está sem dúvida a maior concentração de brasileiros, legais e ilegais, distribuindo folhetos de restaurantes e escolas de inglês. Eles são facilmente reconhecíveis pelas camisetas da seleção, pelo português que falam e claro porque tem sempre um brasileiro jogando conversa para cima de uma brasileira sorridente, tornando menos desinteressante a tarefa monótona de distribuir propaganda.

Ontem a paquera brasileira sumiu no meio da confusão. Eu precisava pegar o metrô e por isso fui ver de perto o que estava acontecendo, embora já suspeitasse. Devido às altas temperaturas, muitos trens têm sido cancelados. O calor atípico por essas bandas faz os trilhos se dilatarem muito e os riscos de acidentes aumentam. Daí eles são obrigados a andar em baixíssima velocidade, como os turistas da Oxford St.

Consegui a duríssimas penas chegar ao gargalo da confusão. As portas da estação estavam fechadas e era impossível se conseguir uma informação confiável, até porque não tinha sequer um funcionário do metro para informar os passageiros. Numa ânsia de me ver livre daquilo o mais rápido possível, fui vencendo a tsunami humana e consegui atravessar a rua. Empaquei novamente, com um casalzinho de turistas japoneses na minha frente.

Senti uma batidinha na perna, olhei para trás e vi um senhor inglês saído de um romance rural. Cachimbo na boca, colete de camurça, cabeça branca e uma bengala nervosa. Ele percebeu minha impaciência e se juntou ao meu exército-de-um-soldado-só. Olhou para mim, inflou o peito e disse no tom mais marcial que já ouvi na vida: ‘follow me girl!’ Caí de amores por aquele homem que nunca tinha visto antes.  Senti-me como um soldado raso, que enfim encontra seu general. E lá fomos nós, ele varrendo o povo com sua bengala e eu na cola dele. Alguns metros adiante, a multidão se dispersou me despedi de meu general com um sorrisinho agradecido e cúmplice, que ele ignorou. Nada de sentimentalidades, please. A nuvem de encantamento havia se dissipado e eu atinei que não tinha a menor ideia de como chegar à casa do meu aluno.

Os ônibus vermelhos com seus famosos dois andares também pareciam se arrastar, vomitando passageiros pelas janelas e portas. Tentei perguntar para um motorista de um ônibus estacionado se ele sabia como chegar em Earls Court. Nada. Vi os mapas pregados nos pontos de ônibus nos dois lados da Regent St. e nenhum ia para onde eu queria. Voltei para a Oxford St  tão perdida quanto os turistas, sem saber como fazer para sair dali. Era um roteiro de filme da sessão da tarde em que os atores nunca conseguem chegar à cidade destino e as coisas vão se complicando.

 Entrei num ônibus, que ia na direção que eu queria. Assei lá dentro, com a incomoda sensação de que o ônibus não estava se movendo, ou melhor, ia a cinco por hora, parando a cada trezentos metros, até que o ônibus parou no sinal vermelho e vi uma estação aberta. Desci o mais rápido que pude, entrei na estação, passei pelas catracas em alta velocidade (como fazem os londrinos), tomei a faixa de trânsito rápido na escada rolante (a faixa dos impacientes, que descem que nem uns desorientados escada abaixo, sabendo muito bem onde querem chegar). Perdi o trem por uma fração de segundo, só vi as portas se fecharem, bem na minha cara. 

Três minutos depois veio outro. Estava com sorte. Eram só duas estações até Earls Court. Não quis me assentar. Nessa altura do campeonato, minha testa pingava suor e a saia colava nas minhas pernas. As cadeiras do trem, revestidas de uma lã sintética, não me pareciam muito convidativas. Fiquei de pé. O trem parou na primeira estação e os poucos lugares vagos foram ocupados. Fiquei perto da porta, para sair rapidinho na próxima estação. Devia ter lido o horóscopo antes de sair de casa: o meu dia não estava para pressas e impaciências… 

 Desta vez foi o trem que empacou. O túnel parecia mais escuro do que de costume e com certeza muito mais quente do que de costume. Um trem barulhento e rápido passou por nós num trilho distante e deixou uma marola de ar fresco, que entrou pelas frestas da porta. Foi então que o maquinista avisou: “desculpem pelo atraso, houve um problema de sinalização em Putney e não sabemos quando vamos poder sair daqui…” Comecei a fantasiar: as portas se abriam e todos os passageiros saiam correndo e gritando pelos trilhos afora. Não sei se esse era o desejo geral da nação-encarcerada-naquela-lata- de- sardinhas- humanas, mas com certeza era o meu mais íntimo desejo naquele momento. Tomei o restinho de água que havia na minha garrafinha, fiz como as inglesas:  joguei a minha bolsa no chão.

Arrependida até o ultimo fio de cabelo por ter desprezado um assento, encostei-me a um canto para estudar melhor os passageiros. Ninguém reclamava. Ninguém fazia biquinho ou demonstrava qualquer tipo de insatisfação do tipo olhar as horas a cada cinco segundos. Ninguém, a não ser eu, estava reparando nos outros. Todos mantinham aquele olhar vazio, de neutralidade, mirando o invisível, de um jeito que ainda não aprendi a fazer. Foram outros quinze minutos de martírio até o trem se mover novamente, bem devagar.

Duas horas mais tarde, depois de muitos: “o copo está NA mesa” e “eu morO, ele morA”. Encerrei minha aula. Eram oito e meia da noite, o céu estava claro e o calor tinha dado uma folga. Passei por um pub, vi gravatas descansando nas mesas, entre copos e mais copos de cervejas. Pensei em tomar um gole, mas eu queria mesmo era tomar um banho. Peguei o trem de volta para casa. Desta vez, sem pressa e sem intercorrências. Cheguei em casa e fui molhar as plantas, completamente exaustas de tanto calor.  Tomei um banho de mangueira, sob o olhar incrédulo e desconfiado de uma gata que frequenta meu quintal e come da minha comida. Dei um tempo antes de entrar em casa. 

Ali, assentada no banco do quintal, dei graças a Deus porque o verão chegou finalmente.

 

(Julho 2004)

* Da Gaveta:Toda redação de TV tem o que o jargão jornalístico chama de ‘matéria de gaveta’. Reportagens, digamos nem tão factuais assim, que o editor-chefe ama em dias fracos de notícias. O Da Ilha também tem suas histórias Da Gaveta. São impressões de quando eu ainda era novata na terra da Rainha.

 

 

2 thoughts to “Verão de Cinco Dias”

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