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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Para Você e Para Mim

 

As mensagens chegaram aos montes pela internet, Whatsapp e telefone. Amigos indignados querendo saber: explica para mim, o que foi mesmo que aconteceu aí? No Dia Seguinte do referendo britânico, ficamos mais unidos em nossa indignação.

 

Passei o dia lendo, vendo televisão e tentando entender o que havia acontecido. Agora são quase três da manhã e sei que não vou conseguir dormir sem compartilhar três histórias de conhecidos, que votaram pela saída da União Europeia. Talvez ajude a entender o que aconteceu. Quem sabe me ajude a entender.

O primeiro é o pai de uma colega da minha filha. A menina passou por maus bocados no recreio, quando suas colegas disseram na lata: seu pai é racista. Ele é um típico representante da ‘working class’. Cumpriu (mal) o mínimo de escolaridade obrigatória por lei. Assim que pôde, largou a escola. Engravidou a primeira mulher aos 15 anos. Ela também era adolescente. Hoje tem 4 filhos, de 4 mulheres, o que aqui se chama de família 4 por 4. Já foi carcereiro, agente funerário e agora está encostado, porque sofre de dor nas costas. Vive com a atual esposa e alguns dos filhos num apartamento do governo. Sobrevive com o dinheiro do contribuinte. Ele é eleitor do xenófobo UKIP. Culpa os imigrantes pela falta de sorte na carreira. Mas, acima de tudo, detesta mesmo são os mulçumanos. “Eles querem dominar o mundo, nos forçar a rezar pela religião deles e vão roubar todo o nosso alimento”.

O segundo é o professor de dança da minha filha. Jovem, moderninho, assim que terminar a aula, vai pegar a mochila e a bota de borracha e correr para o Festival de Música de Glastonbury. Ele reuniu as meninas para justificar seu voto. Disse que não é racista. Acredita na paz e no amor. Votou pela saída, mas confessa que não se informou muito sobre o assunto. Preferiu seguir seus instintos. ‘Afinal, o desconhecido pode sim trazer boas surpresas’.

O terceiro é um engenheiro, que há anos está na meia idade. Trabalha com meu marido. Durante o dia, quando ficava claro os desastres econômico (pânico no mercado, libra despencando) e o político (primeiro-ministro pedindo demissão, Escócia anunciando que vai convocar outro plebiscito de independência) ele repetia: “Por que não avisaram para gente que essas coisas podiam acontecer? ” Em que planeta ele viveu nos últimos quatro meses é o que eu gostaria de saber.

De certa forma, embora eu não concorde com absolutamente nada do que eles acreditam, acho que ainda prefiro os radicais  preconceituosos aos inocentes úteis. Esses pelo menos sabem o que querem. Teve sim muito eleitor que votou por medo do imigrante e por intolerância. Mas o ignorante, que decidiu fazer deste referendo uma oportunidade de exercer seu voto de protesto contra os políticos e o ‘establishment’, esse me deixa exasperada.

Normalmente, se o eleitor acha que fez burrada, quatro anos mais tarde ele tem a chance de rever seus pontos de vista e votar de forma diferente. No caso do plebiscito, essa hipótese simplesmente não existe. Não tem volta. E o pior: as implicações vão durar muito mais do que quatro anos. O primeiro-ministro David Cameron vai entrar para história como um líder fraco, que provocou a saída da Europa e divisão do Reino Unido. Deveria ter sido líder de verdade, conduzido seu partido e não ter convocado o plebiscito. Apostou arrogantemente e perdeu. Muita gente perdeu junto.

No meio da tarde de ontem, dei uma parada. Fui assistir à tarde musical da escola da minha filha. Pela oitava e última vez em oito anos, me juntei a outros pais para ver a produção, que marca o fim do ano letivo. A partir de setembro, começa um novo ano escolar. Minha filha e seus colegas vão ganhar mais uns centímetros de independência e cortar mais umas fibras do cordão umbilical. Durante o evento de ontem, experimentei um daqueles momentos, que se fosse num livro, seria a amarração de uma trama. A conclusão de um capítulo. O fim de um ciclo. 

Vieram os pequenininhos do maternal, cantando desafinados e envergonhados. Se estivesse escrevendo em inglês, diria que fiquei ‘broody’, que é quando a mulher é tomada por um desejo uterino de gerar filhos. Me perguntei: por que mesmo que não tive mais uma dúzia de bebês? Em seguida, veio a orquestra. Um menino roliço arranhava notas orgulhosas no menor violino que já vi, enquanto uma menina soprava Handel numa clarineta. Como disse uma inglesa assentada ao meu lado: “o que importa é o sentimento”.

O grupo, que queria sair da União Europeia, era o ‘Leave’ (sair/saída). O grupo dos alunos no sexto e último ano é o ‘Leavers’ (os que estão de saída). Os ‘Leavers’ foram os últimos a se apresentarem. Subiram ao palco com um tanto de confiança, que só quem está no topo pode demonstrar sem culpa. Cantaram ‘Heal the World’ (Cure o mundo), do Michael Jackson.

 

♫♫♫‘Heal the world. Make it a better place for you and for me’♫♫ ‘Cure o mundo. Torne-o um lugar melhor, para você e para mim’. Tive que me conter para não dar uma de mãe-vexame. Assim que a apresentação terminou, encontrei uma amiga. Nos abraçamos como só os velhos amigos podem se abraçar. Ela não tem vergonha de mico. Com o nariz vermelho e os olhos cheios de lágrimas, me disse: “Que dia. E essa música! ” Eu sei. Foi só o que consegui responder. Ela estava triste pelos acontecimentos do dia anterior. Aos poucos, nosso grupo de descontentes cresceu. Ninguém acreditava no que os eleitores desta Ilha haviam feito.

Muita gente comentou comigo sobre uma virada à direita na política de muitos países. Não dá para esquecer que 64% dos eleitores entre 18 e 24 anos votaram pela permanência na União Europeia. O ‘Leave’ ganhou com uma margem muito pequena. Não foi uma vitória de lavada. Pelo menos este foi o mantra que caminhou comigo no dia de ontem.

Na volta da escola, minha ‘leaver’ veio falando pelos cotovelos, como de costume. Ao chegar em casa, ela disse: “Mãe, estou pronta para escola secundária. Mal posso esperar! ”

Que venha o próximo capítulo.

O que está feito não tem volta. À nós, nos resta ter fé na geração de nossos filhos. Que eles sejam mais bravos e corajosos que nós.

 

Arquivo Pessoal

♫ We could fly so high

Let our spirits never die

In my heart

I feel you are all

My brothers

Create a world with

No fear

Together we’ll cry

Happy tears

See the nations turn

Their swords

Into plowshares’

♫ Nós poderíamos voar tão alto. Deixar que nossos espíritos nunca morram. No meu coração, sinto que vocês são todos meus irmãos. Vamos criar um mundo sem medo. Juntos vamos chorar lágrimas de felicidade. Ver Nações tornando espadas em arados. ♫       

Que nossos filhos façam um mundo melhor. Para você e para mim.

 

 

2 thoughts to “Para Você e Para Mim”

  1. Como sempre spot on….Eu divido o sentimento de descontentamento e tristeza… mas continuo a buscar a pontinha de céu azul no meio de tanta nuvem escura ….

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