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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

O Dia Seguinte

O escritor Americano Bill Bryson diz que aqui na Ilha, toda vez em que um convidado chega na casa de alguém, o primeiro assunto é geografia. Qual caminho o sujeito tomou para chegar lá. Bryson tem razão, mas para mim, o tema campeão, favorito de dez entre cada dez britânicos, é o tempo. Pois bem, o dia amanheceu lindo, céu de um azul capaz de fazer minha alma bater palminhas de alegria. O ar mais limpo e o verde mais verde. Se ao menos o relatório do tempo pudesse servir de analogia para o que está acontecendo por aqui…

Melhor começar com um flashback. Vamos voltar os ponteiros do relógio para as dez da noite de ontem. Normalmente, em dia de eleição, quando o Big Ben bate as dez badaladas, saem os resultados das pesquisas de boca de urna. Ontem foi diferente. Por causa de uma tecnicalidade (não havia outro plebiscito recente para comparar os resultados), não houve boca de urna. O apresentador da BBC anunciou que os primeiros resultados iriam sair na alta madrugada. Fiquei com pena dos colegas jornalistas, que teriam que passar a noite enchendo linguiça e entrevistando Deus e todo mundo na mais pura arte da especulação. No canal dois, um programa satírico analisava o assunto da semana: ficar ou sair da União Europeia. Um dos comediantes soltou uma gracinha que me fez rir: “ Encontrei uma senhora que disse indignada: se o lado do ‘fica’ vencer, pra mim chega. Me mudo de vez para minha casa de veraneio na Espanha! ” A noite estava apenas começando e o clima era leve.

Aos poucos os resultados foram saindo e as previsões sobre quais cidades eram contra e quais eram a favor se confirmavam. O problema era que, nas cidades em que a permanência era previsível, a diferença era um pouco menor do que a desejada. Foi então que veio a confirmação final: os pula fora venceram 51,9% a 48,1%.

Nigel Farage, um sujeito que parece uma caricatura e que não por acaso calhou de ser o líder do partido xenófobo UKIP, anunciou sorridente que o Dia da Independência havia chegado. A Grã-Bretanha havia recuperado sua soberania! “Não vamos ter que nos abaixar mais para os burocratas da Bélgica”. Talvez, o dia ensolarado seja sim uma boa metáfora para os 51,9% dos eleitores que decidiram sair da União Europeia.

Quem sabe alguns deles tenham ficado chocados ao ver Farage, num jornal matutino na tevê, dizer que não pode garantir que os 350 milhões de libras (número incorreto), que o Reino Unido manda toda semana para a Europa, serão investidos no sistema público de saúde. A promessa, desmentida horas após a vitória, estava estampada nos ônibus de campanha do líder do UKIP.

Mas o dia está apenas começando, o resultado das urnas já faz as placas tectônicas virarem gelatina por aqui. Muito provavelmente, ao final deste dia seguinte, muitos fatos deste post serão notícia velha. A libra despencou para seu valor mais baixo dos últimos trinta e um anos. Agências rebaixaram o crédito. Os investidores estão assustados e há sinais de uma nova recessão no ar. O primeiro-ministro David Cameron, que era contrário à saída, disse que só será premier até a convenção do partido em outubro. Em bom português: ele jogou a toalha, saiu da brincadeira.

Quem tomar seu lugar vai ter uma encrenca enorme para administrar. A Escócia votou pela permanência na Comunidade Europeia. Talvez fosse sim o caso de falarmos de geografia. Afinal, existe o risco real de que o reino não seja mais tão unido assim. Os escoceses já dão sinais de que querem convocar um novo plebiscito de independência. Para eles, o resultado cria uma crise constitucional, uma vez que querem continuar membros da União Europeia.

Outro pepino é a Irlanda do Norte. Irlanda e Irlanda do Norte (parte do Reino Unido) como membros da Comunidade Europeia permitem que seus  cidadãos e mercadorias possam cruzar as fronteiras entre os dois países sem problemas. Com a Irlanda do Norte fora da Comunidade, o retorno do controle de fronteiras pode azedar o acordo de paz, que foi conseguido depois de muito sangue derramado.

Mas que tal olharmos um tiquinho além do próprio umbigo? Depois da Alemanha, a Grã-Bretanha é a que mais põe dinheiro no bolo da Comunidade Europeia. O que a saída dos britânicos vai significar para o bloco europeu? A decisão do eleitor britânico pode botar fogo nas aspirações de outros partidos ultranacionalistas?

Durante a campanha eleitoral, David Cameron afirmou que, caso o impensável acontecesse (a maioria votar pela saída), ele iria imediatamente invocar o Artigo 50 do Tratado de Lisboa, que estabelece um período de dois anos para que os outros 27 membros da Comunidade Europeia façam uma oferta sobre os termos da retirada da Grã-Bretanha. O voto tem que ser unânime. Sem considerar os entraves burocráticos, os interesses de cada um dos membros, há um outro ponto delicado: se a União Europeia oferecer um acordo ‘bonzinho’ para os britânicos, outros países vão ser pressionados por seus eleitores a buscar a mesma saída. Ou seja, a negociação vai ser dura e, desta vez, o Reino Unido não vai ter sequer o direito de voto.

Foi uma constante neste período eleitoral, ver o time do queremos sair fazendo pouco dos conselhos de várias instituições financeiras, de pesquisa e economia. Todas alertavam para um impacto negativo no PIB e o risco de recessão, no caso da saída da União Europeia. Michael Gove, o atual ministro da Justiça e que bancou a saída, comparou o lado pro Europa com nazistas. Ele disse numa entrevista, que o povo britânico está cansado destes figurões de entidades com muitas siglas, dizendo o que eles devem ou não fazer. 

Economia não é uma ciência exata. Dependendo do condutor, pode-se ir para um lado ou para outro (não vou nem dizer direita ou esquerda, porque é mais complexo do que isso). O problema é quando fatos e evidências são substituídos por frases populistas como as de Gove. É fácil se aborrecer com os políticos e com a Comunidade Europeia também. Motivos não faltam. Entretanto, dá um pouco de coceira, quando a salvação da pátria surge em mensagens como a de Gove, que são dissociadas dos fatos. É como assinar um cheque em branco para um produto que não se sabe exatamente qual é. Ou: Vamos botar para quebrar e ver como vai ficar..

Num dia como o de hoje, as emoções ficam à flor da pele. As primas euforia e histeria estão nadando de braçada. A transição vai demorar pelo menos dois anos. Os reflexos podem durar muito mais. A aposta foi feita e só dá para especular sobre o que vem por aí. A questão da imigração dominou o debate. Seria da profundidade de um pires dizer que todo mundo que votou pela saída seja racista, xenófobo ou mesmo eleitor do UKIP. Contudo, mesmo que essa não tenha sido a intenção desses eleitores, o resultado de ontem reforça a mensagem dos que apostam na divisão e não na União.

A decisão do eleitor britânico pode marcar o começo do fim da Comunidade Europeia. O que foi decidido nesta Ilha mudou para sempre a Europa como conhecíamos até ontem. 

5 comentários em “O Dia Seguinte

  1. Maioria é maioria, mas, quando ínfima, em decisão tão essencial, com tantas forças poderosas envolvidas de lado a lado, a democracia parece ter falhado em algum ponto…

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