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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Para Sempre, Para Todos

‘Se é verdade que os esquimós têm dezenas de palavras para a cor branca, os brasileiros devem ter centenas de palavras para a cor verde’. A frase inspirada é de um amigo; um escocês maravilhado pelo Parque Nacional do Iguaçu. Tive uma lua-de-mel no mínimo atípica. Eu, o marido e outros nove gringos de brinde. Incluindo sogra e sogro. Todos ficaram de queixo caído com a exuberância da natureza no Brasil.

Outro amigo, desta vez um brasileiro em Londres, também se surpreendeu com a natureza. Ao chegar ao Wimbledon Common, ele disse abismado: ‘Tá de brincadeira? É isso? Tem gente que vem passar o dia aqui e fazer piquenique? Só tem mato!’ Wimbledon Common é uma área de reserva natural de 460 hectares, que se espalha por três bairros ao sul de Londres. Um deles é o elegante Wimbledon, o mesmo do torneio de tênis. A parte do parque, que fica próxima à vilinha de Wimbledon, é coberta de ‘meadow’. Prado em português.No dia em que meu amigo se assombrou, a vegetação estava particularmente seca, capim tostado.

Li uma vez que, no hemisfério norte, quanto mais ao norte, mais as pessoas são contemplativas. A julgar pelos programas de jardinagem e de natureza que a BBC faz como ninguém, deve ser verdade. Onde a gente vê capim seco, eles veem folhagens de diferentes formatos, tamanhos e tonalidades, o movimento provocado pelo vento e até pequenos insetos. O pai de outro amigo brasileiro veio passear por aqui. Aos oitenta e alguns anos, ele ficou besta com os ingleses, que constroem em seus jardins ‘hotéis’ para insetos. ‘ No Brasil a gente peleja para se livrar deles’. 

 

Scotney Castle – Arquivo Pessoal

 

Talvez essa tendência dos ingleses à contemplação seja um  dos ingredientes do sucesso do National Trust, uma organização conservacionista, que se estende pela Inglaterra, País de Gales e Irlanda do Norte. O National Trust é o maior proprietário privado de terras nesses três países. São 2550 quilômetros quadrados de parques, jardins, fazendas, costa marinha, mansões, castelos, áreas industriais, urbanas e florestas. Paisagens de encher os olhos. O filme ‘ O mundo encantado de Beatrix Potter’ (2006) mostra algumas destes cenários. A autora e ilustradora do consagrado Peter Rabbit, um clássico da literatura infantil inglesa, doou 14 fazendas ao Trust. Graças a ela, um quarto da área do Lake District está preservado para as futuras gerações. A região dos lagos, quase na fronteira da Escócia, atraí milhões de turistas pela beleza natural.

O National Trust é quase que um Estado dentro do Estado. Seus números são impressionantes: é a maior organização de caridade da Inglaterra, possui quatro milhões de membros, recebe 200 milhões de visitantes por ano. O mais incrível, se sustenta sozinho, sem subsídios ou qualquer forma de ajuda financeira ou interferência do governo.

 

Bodian Castle um dos muitos castelos do National Trust – Arquivo Pessoal

 

O Trust foi fundado em 1895. No começo de sua história visava preservar as mansões e os castelos dos aristocratas e endinheirados em geral. Mas foi entre a Primeira e Segunda guerras que viveu seu período de maior expansão. Endividadas e sem condições de manter suas propriedades, muitas famílias doaram imóveis ao National Trust. Além disso, por causa do espírito conservacionista dos ingleses, o Trust recebeu, e ainda recebe, doações consideráveis de heranças.

A brincadeira na minha família é dizer que as propriedades do National Trust são as nossas casas de fim-de-semana. Se o tempo não está de todo ruim, visitamos uma delas. A anuidade do National Trust custa cerca de quinhentos reais para uma família com uma criança. Vale cada centavo. O Trust administra quinhentos locais de interesse. Mesmo sendo uma frequentadora assídua, não consegui visitar nem um terço destes lugares.

 

Teatro ao ar livre – Arquivo Pessoal

O National Trust está mais popular do que nunca. Principalmente porque não deixa a peteca cair. Seus projetos de conservação e restauração são primorosos. Eles sabem envolver a comunidade local e criar eventos  sazonais. Celebram as colheitas, as festividades. São caminhadas na primavera, noites assombradas no outono, teatro ao ar livre no verão e cantigas de natal no inverno. Demonstrações de falcoaria, de culinária, de jardinagem, de lutas medievais e artesanato tradicional. Tem sempre um atrativo para o visitante.

O tempo nesta ilha é voluntarioso. Chove um bocado, o céu vive cinza e no inverno às quatro da tarde já é noite. Mesmo assim, os ingleses têm paixão pelos ‘great outdoors’, ficar ao ar livre. Quem sabe essa preferência seja exatamente por causa do clima instável. O fato é que o visitante de hoje do National Trust está mais interessado em passar tempo nos jardins e campos do que nas casas históricas. O problema é que se essa tendência se confirmar, as novas gerações podem não querer investir na preservação dessas construções históricas, algumas delas com mais de 500 anos de existência. Para evitar que esse trem se descarrilhe, o National Trust está mudando sua estratégia. Está se modernizando para sobreviver.

National Trust – Arquivo Pessoal

Há mais de dez anos, quando comecei a frequentar o National Trust, muitas áreas das casas abertas ao público tinham acesso restrito, muitas vezes com cordas, para evitar que o visitante tocasse nos objetos ou estragasse o piso. Hoje em dia isso mudou. Eles claramente tentam criar uma nova geração de amantes da preservação. As atividades para as crianças estão cada mais comuns. São caça tesouros escondidos nas salas e outros desafios, que são premiados com pequenas recompensas. Recentemente, o National Trust comprou a casa onde o Beatle Lennon passou sua infância. O projeto ambicioso retirou toda a mobília original. A casa foi mobiliada com móveis modernos para que o visitante possa assentar, ler e desfrutar da casa, como se fosse realmente dele.

 

Procurando tesouro – Arquivo Pessoal

De tempos em tempos, o National Trust manda boletins informativos para seus membros. Informam sobre projetos e a programação local. Uma vez por ano chega uma revista também. Os anúncios da revista são direcionados para um público muito mais velho:  São aparelhos de surdez, excursões sob medida para aposentados e cobertores. Os anúncios dão uma pista de seu público. Afinal, o  National Trust não quer desprezar os aposentados, que têm tempo e dinheiro e que são possíveis doadores de heranças. Na outra ponta, é notável o investimento em crianças com novos playgrounds e o ‘geocaching’, a caça ao tesouro mais bacana que existe.  

 

GPS – Arquivo Pessoal

O National Trust empresta para os visitantes um GPS e um mapa com coordenadas. Escondidas dentro de troncos de árvores e debaixo de pedras, estão pequenas caixinhas com ‘tesouros’ e um pedaço de papel para o explorador escrever seu nome, tipo um ‘ fulano passou por aqui’. As regras são simples: o aventureiro só pode recolher o tesouro, se deixar outro no lugar para o próximo explorador. Pode ser uma bala, um balão de festa, um brinquedinho de plástico. Vale qualquer coisa, só não vale tirar não deixar nada em troca. Andei espalhando moedinhas de reais por aqui. A outra regra é que as caixinhas devem ser colocadas no mesmo lugar em que foram encontradas. Fizemos uma dessas caças ao tesouro com uma italiana que custou a acreditar que as pessoas realmente cumpriam as regras. 

O National Trust é um exemplo clássico de uma das coisas que mais aprecio no British Way of Life*. A organização de caridade é uma das maiores do mundo. Sobrevive e funciona tão bem porque conta com setenta mil voluntários, cujo trabalho soma 3.77 milhões de horas, num valor estimado em cerca de 100 milhões de reais por ano. É a sociedade civil organizada para preservar os valores que considera importantes. Não é à toa que o lema do National tust seja ‘ for ever, for everyone’. Para sempre, para todos.

 

National Trust – Arquivo Pessoal

 

*Estilo de vida dos britânicos

 

4 comentários em “Para Sempre, Para Todos

  1. ” ‘Tá de brincadeira? É isso? Tem gente que vem passar o dia aqui e fazer piquenique? Só tem mato!’ ” parece que estou ouvindo um familiar falando a mesma coisa. Adoro o NT, eh otimo pra quem tem crianca mesmo, desde bebe. Otimo texto e otimas observacoes como sempre. Parabens.

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