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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Um Bicho Papão Chamado Brexit

O Bicho Papão está a ponto de jogar a toalha. Tem trabalhado muitas horas extras e já começa a pensar que tirar férias não seja uma ideia absurda. Talvez vá mesmo, depois do dia 23. Se bem que não. Tem sempre um bico para ele em algum lugar no maravilhoso universo da política, onde o medo gira engrenagens.

Em 1990, Mike Godwin, um advogado e escritor americano, cunhou a expressão Lei de Godwin. A premissa é que, a medida em que uma discussão online cresce, a aumenta a probabilidade de alguém ser chamado de nazista ou mesmo de Hitler. Nas últimas semanas aqui na Ilha, a Lei de Godwin virou fichinha. Hitler, é óbvio, tem dado as caras frequentemente, mas ele não está sozinho. Tem saboreado a companhia de todos os cavaleiros do apocalipse moderno.

Na quinta-feira, dia 23 de junho,  os eleitores britânicos vão decidir se querem ou não continuar membros de um clube exclusivo de 28 países: a Comunidade Europeia. O debate do Brexit (uma junção de British + Exit – saída) tem dividido corações e mentes por aqui. Para abaixar o nível, nomes de peso do submundo subconsciente do medo: o Estado Islâmico, o indefectível nazista de bigodinho, Al Qaeda, hordas de terroristas e até uma terceira guerra mundial. Todos já foram evocados na defesa de argumentos de ambos os lados. Um fenomeno que resolvi batizar de Lei de Brexit.

Este país recebe mais de 300 mil imigrantes por ano (a Grã-Bretanha tem uma área menor que a metade do estado de Minas Gerais). Este é o ponto crucial deste debate. http://entretenimento.r7.com/blogs/blog-da-ilha/precisamos-falar-sobre-imigracao/2016/02/22/

Se continuarmos na Comunidade Europeia, que tem como um dos princípios o movimento livre de cidadãos dos países membros, vamos ser inundados de ‘primos pobres’ que vêm aqui sugar o nosso sistema de bem-estar social. Diz a turma do vamos sair enquanto é tempo.

Bobagem, diz o time do fica. Imigração é sim um problema, mas os imigrantes oriundos da Comunidade Europeia são menos que a metade dos que chegam aqui. Mesmo se eles não pudessem mais entrar, ainda ficaríamos muito além da meta de 100 mil por ano (estabelecida pelo governo). Sem falar que precisamos dos imigrantes para que o país continue funcionando. Sem os profissionais de fora, o NHS (serviço público de saúde) fecha. 

O NHS está sobrecarregado justamente porque a população de imigrantes tem crescido desordenadamente. Contra argumentam os que querem saltar do trem.

Se sairmos da Comunidade Europeia, a Selva de Calais (uma favelona na França com imigrantes que querem vir para cá) vai se transformar em Selva de Dover. Por que motivo os franceses vão continuar retendo os imigrantes, que querem cruzar o Canal da Mancha? Com a Grã-Bretanha fora da Comunidade, quem garante que os franceses vão permitir que os britânicos tenham um controle de imigração em território francês?  

Esse argumento faz parte do plano do primeiro ministro David Cameron de assustar o eleitor para continuar na Comunidade. O movimento livre de pessoas na Europa só agrava o problema dos terroristas. Facilita a entrada deles aqui. Ataca a oposição.

Conversa fiada! Só olhar os últimos ataques terroristas para descobrir que os assassinos eram cidadãos britânicos. Precisamos trabalhar melhor a questão da integração de culturas, isso sim.

Não é à toa que o eleitor anda confuso. Quem trabalha com estatísticas sabe que, quando bem torturados, os números contam a história que convém a seu mestre. Os números e seus manipuladores têm dado um baile. Quanto este país contribui para a Comunidade Europeia? Quanto dinheiro recebe de volta? O que significa para a economia sair ou ficar? Vamos ser mais fracos? Ou será que nos fortaleceremos sem a interferência dos burocratas corruptos de Bruxelas? As férias europeias vão ficar mais caras? O imposto vai subir? Cair? Não vou aborrecer ninguém com cifras, porque, noves fora aqui, noves fora ali, existe uma literatura farta na internet para provar o ponto de qualquer um dos lados.

 

GettyImages

A interferência da Comunidade Europeia nos assuntos internos é outro calo no sapato dos que querem ficar. Entretanto, eles argumentam que nem tudo que vem de fora é ruim. Por exemplo, até a década de 70, as praias desta Ilha eram podres, esgotões a céu aberto. Graças às metas de despoluição estabelecidas pela Comunidade, os britânicos agora podem desfrutar de suas praias, sem o risco de perebas e inquilinos indesejados no corpo. Se ao menos a Comunidade tivesse um passe livre com São Pedro e melhorasse o clima pouco convidativo aos dias a beira mar…

Por outro lado, a união com a Europa fez a manteiga ficar mais cara. Engole essa! Ninguém contesta o fato de que a União Europeia produziu uma política protecionista, que penaliza quem está de fora. África, América Latina e Ásia que o digam. Antes dos tratos comerciais, os ingleses consumiam toneladas de laticínios, que viajavam meio mundo, da Nova Zelândia até aqui. Apesar de cruzar oceanos, a manteiga neozelandesa era muito mais barata do que a genérica europeia, que agora são obrigados a consumir para atingir as cotas estabelecidas pelo clube.

Com tantos prós e contras, talvez fosse o caso de prestar atenção em quem apoia o quê. Tipo, diga-me com quem andas, que direi quem és. Mas nem isso é tão fácil assim. Lembre-se, estamos na era em que Batman e Superman viraram inimigos! Até a Liga da Justiça já não é assim tão ligada.

No tempo em que a manteiga vinha de navio, os Conservadores eram contra a ideia de se juntarem a uma Europa unida. Os trabalhistas eram a favor. Agora, os Conservadores estão divididos. E a briga interna tem sido feia. De um lado, o chefe da rinha é o Primeiro Ministro. David Cameron ganhou um segundo mandato, mas teve que se ajoelhar ao partido e convocar o plebiscito do dia 23, mesmo sendo contrário à saída. Seu oponente é o carismático Boris Johnson, que até outro dia era o prefeito de Londres e que não esconde o sonho de se tornar primeiro ministro. Boris faz a linha ‘falo o que me vem à cabeça’, meio desconjuntado, rápido, afiado, engraçado e que tem seu apelo junto ao eleitorado.

Do lado de lá do Atlântico, Boris ganhou um aliado em sua batalha: o candidato americano Donald Trump. Ainda não me decidi se o apoio é ruim, péssimo ou excelente. Se é para olhar os figurões americanos, não dá para esquecer que Obama torce pelo time do fica.  Os que querem sair mandaram um recado ao presidente americano: ‘Sapo de fora não dá palpite. Ele que se ocupe de arrumar o sistema de saúde deles e nos deixe em paz’. Enquanto isso, o líder dos Trabalhistas tem sido criticado por não trabalhar duro para evitar a saída. Deve estar se esbaldando ao ver de camarote os Conservadores se estapearem.

Esta semana, as pesquisas pré-eleitorais indicam que o lado do vamos sair tem crescido. O mercado reagiu negativamente; a libra  despencou. As consequências de uma eventual saída são muitas e vão reverberar muito além desta Ilha. O que vai acontecer com os europeus que imigraram para a terra da Rainha? E o que será dos britânicos (1.2 mi) que vivem em países europeus? Será que o Reino vai continuar tão Unido? Ou a Escócia vai querer se descolar?  Esta Ilha vai continuar seus negócios com a Comunidade Europeia? Ou será que os Europeus vão jogar duro para evitar que outros países entrem na onda e se amotinem? Será o começo do fim do sonho de uma Europa unida?

São muitos pontos em branco num cenário que, para onde quer que se olhe, não parece assim tão cor de rosa. O voto aqui é facultativo. As mulheres são maioria e pode estar nas mãos delas o futuro desta Ilha. A questão é que as eleitoras em geral não gostam de se sentir intimidadas e nem de incertezas. Por isso, os dois lados do debate têm suado para convencê‑las a votar. Numa disputa tão apertada como esta, cada voto é importante.

 

Ficar ou sair?

Esta eleitora aqui é bem trouxa. Toda vez em que marco meu voto, sinto uma onda de emoção. Piegas, confesso,  fazer o quê? Gosto de ver o burburinho dos locais de votação, mas fiquei comodista. Avisei para as autoridades que prefiro votar pelo correio. Minha cédula eleitoral chegou essa semana. Já marquei o X no quadradinho que acho a melhor opção. No momento em que escrevo, meu voto descansa numa caixa de correio, a espera de ser coletado. Assim como meus colegas eleitores, espero ter feito a escolha certa, mesmo sabendo que só podemos especular a respeito do futuro. Com ou sem Bicho Papão e neste cenário de tantas incertezas, não tenho a menor dúvida de que o direito de escolher, e de debater, é de longe a melhor opção. 

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