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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Último Desejo

A história de uma londrina e sua filha morta tem dividido opiniões aqui na Ilha. Os nomes delas não foram revelados, por isso, resolvi batizá-las de Julie e Emily. Emily morreu de câncer de intestino cinco anos atrás. Ela era a filha única de Julie e tinha apenas 28 anos. Emily queria continuar vivendo através dos filhos que não teve tempo de gerar. Por isso, pediu a mãe que fizesse uma inseminação artificial com os óvulos, que ela havia congelado. Essa é a versão de Julie e de seu marido.

O problema é que Emily não deixou nenhum documento, carta ou gravação na qual deixasse claro sua vontade. O plano de Julie era levar os ovos da filha para os Estados Unidos, recorrer a um doador de esperma e gerar um neto em seu ventre. O desejo de realizar o último pedido de sua filha acabou se transformando numa provação de longas batalhas judiciais. O órgão regulador das questões de reprodução humana não autorizou a retirada e o uso dos óvulos. Justificou-se dizendo que não há provas, além da palavra de Julie, de que essa era a vontade de Emily.

Aos 60 anos de idade, Julie foi dar a sua versão dos fatos numa Corte de Apelação essa semana *. Ela perdeu o primeiro round jurídico, três anos atrás. Mais uma vez, Julie contou aos juízes que o maior desejo de Emily era ter um filho. Mesmo durante os cinco anos de tratamento contra o câncer, ela nunca esmoreceu. Já perto do final, falou para a mãe que sabia que não estaria aqui para criar o próprio filho, mesmo assim, queria que ele nascesse do ventre de sua mãe, para ser criado por ela e por seu pai. Emily deixou uma autorização para que seus óvulos fossem usados por outra mulher, mas não para que fossem levados para outro país nem para que sua mãe gerasse o próprio neto.  

A idade de Julie faz com que as chances de gravidez sejam reduzidas e também pode trazer riscos para a saúde dela. Julie já teve um câncer de mama e uma gestação poderia trazer mais problemas relativos aos hormônios, segundo um médico que depôs no julgamento. Entretanto, o que está sendo julgado é se os óvulos podem ou não ser liberados, mesmo sem um documento que declare a intenção de Emily. Se Julie e seus advogados saírem vitoriosos, será o primeiro caso do gênero aqui na Ilha. Mas se a apelação falhar, os óvulos serão destruídos, mesmo contra o desejo de Emily.  

As discussões a respeito dos direitos do falecido estão se tornando mais comuns. Desde o ano de 2012, 30 milhões de usuários do Facebook morreram, de acordo com um relatório do The Huffington Post. O que acontece com o legado virtual dos usuários de mídia sociais preocupa muita gente. No caso do Facebook, existem quatro possibilidades: 

Nada muda no perfil do usuário. O que está lá continua lá e é como se nada tivesse acontecido.

Um amigo ou familiar notifica a morte ao Facebook e envia um documento provando que o usuário é falecido. Neste caso, o Facebook cria um memorial virtual do morto.

Um parente próximo entra com uma petição para a empresa de Zuckerberg desativar a conta.

Outro usuário, que sabia a senha do falecido, continua a usar a conta – o que é passível de ação judicial. Raramente o Facebook garante que parentes continuem usando a conta do morto.

O fato é que famílias estão entrando na Justiça para ter acesso à vida digital de seus entes queridos falecidos (e daqueles nem tão queridos também). Os parentes de um fuzileiro naval, morto numa emboscada no Afeganistão, foram ao Tribunal exigir que o Yahoo compartilhasse com eles os e-mails do falecido. Convenceram a Corte e tiveram acesso às comunicações do rapaz. Não se trata mais apenas de encontrar segredos, desejos e rastros de vida em objetos pessoais escondidos num baú empoeirado. A questão da propriedade virtual além-túmulo é real. Por isso, se recomenda que as pessoas tenham em seus testamentos instruções claras sobre o que fazer com seu legado cibernético.

GettyImages

Talvez essa seja mais uma manifestação do momento voyeur em que vivemos. A morte, assim como a vida, é compartilhada e vivenciada nas redes sociais. Os moribundos fazem confissões, falam de seus medos e esperanças, recebem palavras de conforto e morrem em público. O computador, e não os cemitérios, passa a ser o lugar preferido do luto. Perfis de Facebook se transformam em pirâmides de faraós, onde se trancam os resquícios de uma vida. A morte tem a qualidade absurda de interromper diálogos. Ao mandar recados eletrônicos para quem já se foi, ou ao vasculharmos seus segredos, nos auto enganamos. Fingimos que a conversa continua. E talvez prolonguemos o luto ainda mais.

É muito fácil julgar a decisão de Julie de lutar pelo último desejo da filha. Pode-se dizer que ela está velha para trazer uma criança ao mundo. Que deveria lidar com a perda de sua filha e parar de querer trazê-la de volta. Não consigo enxergar a batalha desta mãe sem me entristecer. A tecnologia permite, pelo menos em tese, que uma mulher de 60 anos dê à luz um neto. Colabora com o nosso faz de conta de uma vida eterna. Mas ainda não conseguiu sarar as dores do viver e do perder.

 

*A Corte de Apelação decidiu hoje (30/6/2016) que a “Julie” poderá usar os óvulos congelados da filha na tentativa de gerar o próprio neto.

2 thoughts to “Último Desejo”

  1. Adorei a crônica. Texto maravilhoso e que provoca reflexoes muito importantes sobre a morte e o papel dos parentes, herdeiros e amigos das Redes Sociais. Parabéns a Maria Eduarda.

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