Skip to main content
 -
Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

De Salto Alto

A história de Cinderela é a prova viva de que um novo par de sapatos pode mudar a sua vida. A piadinha tem circulado na internet. Até que rende um slogan bem bacaninha para uma marca de calçados, né? Vai ver que já é e eu estou por fora.

A história pessoal de Nicola Thorp, uma atriz que provavelmente você nunca ouviu falar, também mudou graças a um par de sapatos. Ou melhor, da falta dele. Aos 27 anos, Nicola é uma atriz britânica que ainda não despontou, por isso trabalha meio período como recepcionista. Recentemente, ela foi mandada para casa pelo patrão, sem o pagamento do dia, por ter se apresentado para trabalhar sem salto alto. 

Indignada, Nicola descobriu que, pela lei aqui da Ilha, o empregador pode sim exigir que suas funcionárias trabalhem de salto alto (que varia entre 5 e 10 cm de altura) e maquiadas. Conversando com as amigas, ela percebeu que muitas mulheres acreditam que a lei seja machista e discriminatória. Por isso, lançou uma petição para que o Parlamento mudasse as regras. Da última vez em que tive notícia, o documento já tinha mais de 130 mil assinaturas, portanto, será analisado em breve pelos parlamentares em Westminster.

 

GettyImages

A polêmica do salto alto traz à tona mais uma vez a guerra dos sexos no ambiente de trabalho. As mulheres são maioria aqui na Ilha. De acordo com o Censo de 2014, a população é composta de 32.2 milhões de mulheres e 31 milhões de homens. No Parlamento, no entanto, elas são minoria: as 191 mulheres parlamentares tem 650 colegas de trabalho do sexo masculino. O primeiro escalão do premier David Cameron tem 9 mulheres e 16 homens.

Muito se fala da desigualdade de salários entre homens e mulheres. O interessante é notar que para salários médios, dentre aqueles que trabalham em período integral, a diferença de pagamento entre os sexos vem caindo e está em torno de 9,4% a favor dos homens. Mas o bicho pega mesmo nos cargos mais elevados, que oferecem uma remuneração bem maior. Nestes casos, a diferença de vencimentos é abissal: chega a 54.9% para o lado dos rapazes.

O abaixo-assinado que quer pôr fim ao abuso da Lei de Newton, a que força os pés a desafiarem constantemente as forças gravitacionais, ganhou a simpatia de muitos políticos por aqui. Notei ontem que a ‘Home Secretary’ Theresa May, dona de uma das pastas mais importantes do governo (tipo um ministério da Justiça combinado com Casa Civil), apareceu numa coletiva usando um sapato bem baixinho. Fui fuçar na internet e descobri que os sapatos de uma das mulheres mais poderosas desta Ilha (uma possível candidata para suceder a David Cameron) volta e meia ganham os noticiários. Seu estilo ousado de vestir os pés talvez seja uma afirmação de sua determinação. Como se propusesse um desafio: se apresenta exótica e demanda respeito ao mesmo tempo. Pode até ser, mas não consigo me lembrar de nenhum político do sexo masculino tenha tido tanto espaço dedicado a seus calçados. 

Que coisa é essa com os sapatos? Na cultura árabe, a sola dos sapatos é o que há de mais sujo. Portanto, jogar o sapato em outra pessoa é o maior dos insultos. Deve-se entrar descalço nas mesquitas, como sinal de respeito. Os cristãos beijam os pés descalços como símbolo de humildade. Na Grécia, sapatos vazios são como as coroas de flores nos velórios: significam morte. O que me faz lembrar imediatamente da montanha de sapatos das vítimas dos campos de concentração.

Não faz muito tempo, o Victoria and Albert Museum (V&A), um dos museus mais bonitos de Londres, montou uma grande exposição com a história do sapato: de quando o objeto era nada mais do que uma forma de proteger os pés contra as intempéries, até se tornar um objeto de fetiche e sedução. Fiquei impressionada com um exemplar daqueles sapatos-instrumentos-de-tortura (lótus), que as chinesas usavam para impedir que seus pés crescessem. Vi saltos altíssimos, capazes de deixar os pés em eterna posição de ponta de bailarina e que fazem meus ossinhos doerem solidários com quem tem que calçá-los.

 

 

Sapato que atrofia o pé das chinesas / GettyImages

 

Um amigo próximo, com quem trabalhei durante anos, não se conformava que as mulheres podiam trabalhar de saia curta no verão e ele não podia usar bermuda na redação. Se dizia discriminado. Quando nossas mesas de trabalho foram incorporadas ao cenário do jornal, a lei da gravata foi baixada. Os homens teriam que se vestir ainda mais formais. Nós jornalistas passaríamos a fazer ponta de figuração também. Devo dizer que a turma não era chegada a formalidades. A maior evidência disso foi que gravatas mal-ajambradas, que nunca abandonavam seus postos de enfeite de guarda-roupa, começaram a aparecer com um leve odor de mofo, adornando pescoços incomodados. Foi uma daquelas leis que não sobrevivem ao uso. Não durou dois meses e os gogós masculinos estavam livres novamente.

 

A batalha do salto alto é a mais nova frescura do momento? O hábito pode não fazer o monge, mas também é fato que cada profissão tem lá seus códigos de vestir. Não dá para querer que uma instrutora de academia se vista com roupa de baile, nem tampouco que uma juíza vá trabalhar de short e camiseta.  Isto é ou não o que está em jogo nesta discussão? Recepcionista tem ou não tem que trabalhar de salto alto?

 

Será que as mulheres, na luta por suas conquistas, estão indo longe demais e forçando a barra? Não sei. Depois de visitar a exposição do V&A, me bateu uma ideia sobre os sapatos femininos: eles tanto podem ser instrumentos de opressão, no caso óbvio das chinesas de pés atrofiados, como podem ser objetos de poder. O modo como encaramos nossos calçados, assim como as situações que nos são apresentadas diariamente, não existem como valor absoluto. Não estão descolados de um contexto. É o uso e o valor que atribuímos às coisas, o valor simbólico delas que importa, quando nos relacionamos em sociedade. Talvez por isso, a história da atriz aspirante, que ganhou seus minutos de fama, tenha sim sua relevância.

 

2 thoughts to “De Salto Alto”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.