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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

God Save The Queen

 

Ela já viajou pelos quatro cantos do mundo. No entanto, não tem passaporte. Afinal, todos os passaportes aqui da Ilha carregam sua assinatura.Comemora hoje nove décadas de vida, gosta de dirigir, mas tampouco possui uma carteira de motorista. Tem um dos rostos mais famosos do planeta, mas quando turistas não a reconheceram, ela fez hora com a cara deles. Segundo seu segurança, aconteceu na Escócia. Elizabeth Alexandra Mary foi parada por um casal de turistas americanos. Quando eles a perguntaram se ela conhecia a Rainha, ela apontou para seu segurança dizendo: ‘Ele a conhece’.  O senso de humor britânico talvez comece lá de cima, da monarca, que já ganhou o título de a mais longeva no trono britânico, a Rainha Elizabeth II.

 

 

Chris Jackson /AFP/ GettyImages

 

Quando foi coroada, ainda jovenzinha, Getúlio Vargas era o presidente do Brasil. Nos Estados Unidos, Truman dava as cartas e aqui o primeiro-ministro Winston Churchill governava um país, que ainda tentava ficar de pé depois da Segunda Guerra Mundial.  

Os ingleses, eternos amantes da estatística, se esbaldam com os números: Elizabeth II sobreviveu a sete papas, doze primeiros-ministros, viu seu Império se desmantelar. A população desta Ilha passou de 50 milhões, em 1952, para os 64.6 milhões de hoje. Quando subiu ao trono, assassinos ainda eram enforcados neste país, a manteiga era racionada e os homossexuais mandados para prisão. 

Como já se foi o tempo do absolutismo da monarquia, a Rainha não manda na política. Ela pode no máximo aconselhar o primeiro-ministro. Se Elizabeth II jogasse pôquer (sei lá se ela curte um carteado, mas apenas como exercício de imaginação), ela seria uma daquelas pessoas difíceis de ‘ler’. Suas atitudes gritam neutralidade. O marido da Rainha (convenhamos deve ser osso viver sempre na sombra), o príncipe Philip – duque de Edimburgo, volta e meia dá umas bolas fora. O príncipe às vezes se parece mais com um rei, o rei da gafe. Fala mais do que deveria e é massacrado pela Imprensa. Como Elizabeth reage aos foras do maridão, só tendo muita criatividade para imaginar. Ela é mestre em manter a boca fechada. 

O episódio da morte da nora, Diana, arranhou a imagem da Rainha. Seus súditos parecem ter se ressentindo da frieza real. A história virou filme e foi relegada à história. Nos Jogos Olímpicos de 2012, um marco da história recente deste país, motivo de orgulho nacional, Elizabeth topou participar de um esquete, onde aparecia ao lado de James Bond Daniel Craig. Um viés mais ‘muderninho’ da Rainha. O vídeo foi muito aplaudido na cerimônia de abertura das Olimpíadas. (https://www.youtube.com/watch?v=1AS-dCdYZbo)  Diana era página virada. 

 

Elizabeth II viu muros caírem, mapas se redesenharem, pessoas apavoradas com um cataclismo nuclear que viria durante a guerra fria, pessoas ameaçadas pelo terrorismo. Gente morrendo de fome na África e gente morrendo de obesidade em seu quintal. Viu seu Império minguar e seu povo se enriquecer. A Rainha também presenciou uma era de profundas mudanças sociais. Entretanto, o que ela representa para este povo não mudou em mais de seis décadas de reinado.
Todo ano, a Rainha participa da abertura do Parlamento Ela usa a mesma carruagem de sua tataravó, a Rainha Vitória, de quem roubou o recorde de longevidade no trono. http://entretenimento.r7.com/blogs/blog-da-ilha/pamonhices/2016/03/23/ Ao seu redor, prédios centenários convivem com os espigões de vidro, que brotam do chão. Como um país sobrevive em paz com mudanças sociais tão marcantes ao mesmo tempo em que reverencia sua Majestade?  

Confesso que encarava a monarquia britânica com outros olhos antes de me mudar para este lado do mundo. Talvez meu modo de ver essa realidade esteja ficando menos cínico. Ou que sabe, mais anglicizado. Podem argumentar sobre o custo de manter a monarquia, quando tantos passam fome pelo mundo. Mas aprendi a entender de outro jeito: é possível andar para frente, evoluir, sem ter que destruir o passado.

 

 

Para marcar o aniversário de 90 anos da monarca, o Royal Mail, os correios daqui, lançaram uma coleção de selos comemorativos. Na foto oficial, A Rainha, seu filho Charles, o neto William e o bisneto George: o presente e a linha de sucessão do trono inglês. Uma entrevista com William ganhou espaço na mídia. O repórter o perguntou que modelo de regente ele seguirá, quando chegar a sua vez: o de seu pai (eternamente na fila de espera) ou o de sua avó? William enrolou um pouco antes de passar o recado: tem na avó seu grande exemplo de monarca. Muito se fala de modernização da monarquia. Entretanto, ao que tudo indica, tradição e modernidade podem sim ocupar o mesmo lugar no tempo e no espaço e ainda imprimir identidade a um povo.

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