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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

A Novela do Papa Inglês

Uma das minhas tias tinha um cachorrinho bem inteligente. Todos os dias, ao ouvir o som da abertura da novela das seis, ele pegava sua coleira, pronto para o passeio da tarde. Mesmo com tanta astúcia, o bicho entrou em crise, quando a novela terminou e começou outra, com uma vinheta diferente. Seu relógio biológico ficou bagunçado; ele não sabia mais quando era a hora de esvaziar a bexiga.

Se o Totó da titia vivesse aqui na Ilha, não teria passado por esse tormento. As novelas duram anos. Coronation Street, carinhosamente chamada de ‘Corrie’, está no ar desde 1960. É a novela mais antiga do mundo. Em seus quase nove mil capítulos, muita gente já casou, separou, voltou, morreu, matou, foi para a cadeia e descobriu que foi enganada. Já aconteceu de TU-DO!  para manter o telespectador interessado.

 

Coronation St. a novela mais longa do mundo

 

Essa semana terminou com uma notícia digna de um dos melhores episódios de Corrie: o ‘Papa’ da Igreja Anglicana recebeu o resultado de um teste de DNA, que revelou que ele não era filho do homem, que acreditava ser seu pai.

Melhor ir do começo:

O ‘Papa’ dos anglicanos é o Arcebispo de Canterbury, Justin Welby. Ele é o líder espiritual de 80 milhões de fiéis. O Papa Francisco lidera um rebanho de mais ou menos 1.2 bilhão de almas. Ao contrário de seu colega de Roma, o ‘Papa’ anglicano não adotou, e nem poderia, o nome de um santo católico. Que eu saiba, ele não distribuiu suas economias para os pobres, mas sua biografia tem elementos parecidos com a vida de São Francisco. Se ele é santo ou não, quem é que vai dizer? Para quem, como eu, acha esse negócio de santidade enrolado demais, melhor deixar os santos de lado.

 

 

O ‘Papa Inglês’/ GettyImages

Voltando à história do arcebispo de Canterbury… Até essa semana, acreditava-se que, do lado paterno, seus antepassados eram judeus alemães, que imigraram para a Inglaterra para escapar do antissemitismo crescente, ainda no século dezenove. Deram-se muito bem. Assim como Francisco, não o de Roma, mas o de Assis, dinheiro não era  problema para o jovem Justin. Os pais alcoólatras eram. O que salvou o rapaz, foi estudar em Eton, o colégio de reis, príncipes, dos moços da monarquia e da elite britânica abastada. Depois, ele seguiu seu curso natural em Cambridge, onde estudou Direito e História. Já adulto, virou chefão de uma multinacional do petróleo e foi viver na França.

Como o Francisco original, seu jeito de olhar o mundo se transformou depois de um evento trágico. Em 1983, Welby perdeu a filhinha de sete meses num acidente de carro. Foi o começo da mudança. Largou o mundo empresarial e entrou de cabeça no mundo espiritual. Não foi aceito de cara. Um arcebispo teria dito a ele que tinha entrevistado mil candidatos para a Igreja Anglicana e que Welby era tão ruim, que não estaria nem entre os mil primeiros colocados. Nunca haveria lugar para ele na Igreja Anglicana.

Determinado, ele foi estudar teologia e, ao contrário da profecia do velho arcebispo, teve uma carreira meteórica no clero anglicano. Sua reputação foi construída graças à capacidade de mediar conflitos. Conhecedor dos problemas da Nigéria e Quênia, quase foi baleado num conflito na África. Como seu colega católico, ele também exibe um viés mais humano – embora não tenha o carisma e tampouco o sangue latino do Papa Francisco. Ele chegou a dizer que às vezes tem dúvidas a respeito da existência de Deus. E confessou: “a religião pode ou não começar guerras, mas parece-me óbvio que ela torna alguns conflitos muito mais difíceis de resolver”.

 Ao contrário da Coronation Street, que parece não acabar nunca, o cargo de Arcebispo de Canterbury não dura para sempre. Welby é o líder espiritual da Igreja Anglicana desde 2013. Ele foi escolhido pelo primeiro-ministro e pela rainha a partir de uma lista de dois candidatos. Casado e pai de cinco filhos, ele tem sua vida pessoal escrutinada continuamente pela mídia. Uma de suas filhas veio a público falar de seu grave problema de depressão. A moça casou-se recentemente. O pai celebrou a união.

Essa era a história que se conhecia até que um repórter abelhudo convenceu o Arcebispo a fazer um teste de DNA. Ele suspeitava que Welby fosse filho do Sir Anthony Montague Browne, o secretário particular do primeiro-ministro Winston Churchill. O material coletado da bochecha do Papa Inglês e de fios de cabelo achados na escova de Sir Browne atesta que Welby tem 99,98% de chances de ter sido registrado com o sobrenome errado: se a biologia contasse, ele deveria se chamar Justin Browne e não Welby. Gavin Welby, o homem que lhe deu o nome, morreu em 1977, por complicações relacionadas ao abuso de álcool. Sir Browne morreu em 2013 aos 89 anos.

 

 

Justin Welby e seu pai biologico

Justin Welby nasceu exatamente nove meses após o casamento de sua mãe, lady Jane Willians e Galvin Welby. Ao saber do resultado do exame de DNA, lady Jane se disse surpresa: afirmou que nem ela, nem o ex-marido, de quem se divorciou em 1958, jamais desconfiaram que Justin pudesse ser filho de Anthony. Ela e o secretário de Churchill tiveram um caso breve, os dois trabalhavam juntos. Lady Jane, que parou de beber no fim da década de 60, diz que não se lembra direito do caso, porque havia uma enorme quantidade de álcool envolvida.

O ‘Papa’ inglês topou fazer o exame de DNA para parar com as especulações. Aparentemente, ele nunca teve dúvidas a respeito de sua origem. Quando o resultado veio à tona, ele disse que sua identidade está na sua relação com a espiritualidade e não com a biologia. Lady Jane afirmou que é surpreendente que uma pessoa, que teve uma infância tão tumultuada, tivesse se transformado no homem que seu filho se tornou.

É ou não é a vida imitando a arte?

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