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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Não me toque

 

Meses depois de desembarcar na Inglaterra, um dia me vi conversando com um rapaz brasileiro na rua. Não me lembro do contexto ou de como começamos a conversar. O papo durou dois quarteirões e terminou com dois beijinhos na bochecha. Não vi nada de mais, não achei que ele tivesse segundas ou terceiras intenções. Foi um tchau. Acho que nenhum estranho me deu um beijo na rua no Brasil, mas , naquele dia na Queens Road, me pareceu a coisa mais natural do mundo. Me dei conta de que estava sentindo saudade da espontaneidade brasileira. 

Entender que diferenças culturais existem não as tornam necessariamente mais fáceis de assimilar. Esse é um dos muitos dilemas que o imigrante encontra no novo país. A falta de contato físico nas relações sociais aqui na Ilha ilustra bem o ponto para mim.

 

 

 

Já perdi a conta de quantas vezes fui convidada para jantar na casa de um ou outro colega de trabalho do meu marido. Alguns deles são muito agradáveis. A conversa flui sem problemas. Aí chega a hora das despedidas. Os anfitriões nos guiam até a porta da frente. Rola uma conversinha mole, para despistar o desconforto geral. Os donos da casa não podem dar pinta de que querem se livrar dos convidados e os convidados por sua vez não devem demonstrar pressa de ir embora. E então se diz adeus, sem nenhum abraço, beijos (no singular ou no plural) ou mesmo um aperto de mão. Nessas horas, vejo um murinho de tijolo e cimento sendo erguido na minha frente em fast foward. Para mim, não toc­á-los sai caríssimo em termos de energia. Que diabos! Um aperto de mão não arranca pedaço. 

Aliás, as mãos são as únicas partes do corpo que mulheres e homens toleram que sejam tocadas por um estranho. Esta é uma das conclusões de um estudo que a Universidade de Oxford acaba de publicar. Os pesquisadores entrevistaram mil e quinhentas pessoas do Reino Unido, Itália, França, Finlândia e Rússia. Adivinhe só: os britânicos são os que menos gostam de contato físico com estranhos. 

Trabalho há anos como voluntária numa escola primária. A primeira vez em que ouvi uma professora dizer: “keep your hands to yourself” (inglês para ” não encoste no coleguinha”), achei engraçado. Quando notei que a frase era repetida cada vez que uma criança tocava, digamos o cabelo da outra, comecei a achar que não tinha graça nenhuma. Por isso, não me estranhei, quando li sobre a pesquisa da Universidade de Oxford. 

A pesquisa resultou num Body Map (mapa do corpo). As pessoas que tomaram parte no estudo foram convidadas a colorir desenhos do corpo humano.  Ao todo são treze modelos: parceiro, irmãos, amigos, colegas até estranhos. A cor amarela indica as partes em que o toque não incomoda. A preta onde não se deve tocar e as àreas tabu: os órgãos genitais. O estudo revelou algumas coisas interessantes…  Tanto para os homens quanto para as mulheres, não existe zona de exclusão do toque para os parceiros. Mas os homens preferem ser tocados em algumas partes por estranhas mais do que por pessoas da família por exemplo. Ou seja, a titia não pode encostar lá, mas uma estranha numa boate pode. Homem tocando em homem, não vale. Nem mesmo nos pés.

 

Mapa do toque

 

Um dos coordenadores do estudo, o professor de psicologia evolutiva Robin Dunbar, acredita que o toque seja um fenômeno universal, embora apresente modulações diferentes em diversas culturas. Ele acrescenta que mesmo nesta era de mídias sociais, o contato físico é fundamental para estabelecer relações e fortalecer laços sociais. 

Na mesma escola onde as crianças não devem encostar umas nas outras, havia um menino de três anos e meio, que mal falava inglês. Um dia brincando no recreio, ele se machucou e começou a chorar desconsoladamente. Não pensei duas vezes e pus o menino no colo. Em seguida, uma professora espavorida se materializou na minha frente, dizendo para eu botar a criança no chão. Carregar era proibido. Poderia trazer complicações para a escola.  

Num documentário que assisti, uma criança de oito anos parecia perdida num shopping center. A menina era uma atriz, mas ninguém sabia. Uma câmera escondida filmou mais de duzentas pessoas passando batido pela menina. Algumas percebiam que ela estava em apuros, mas não paravam. Só quatro pararam para tentar ajudar a criança, sendo que uma não falou com ela. Procurou um segurança para informar que havia uma garota, que parecia estar precisando de ajuda. O mais interessante foi ver o depoimento daqueles que não pararam para prestar ajuda. Foi uma unanimidade: eles não queriam que alguém pensasse que eles estavam fazendo mal para a criança. O que me leva a pensar que medidas como a de não dar colo para uma criança, que obviamente precisa de um carinho, são para resguardar os adultos e não as crianças. Alguma coisa está muito errada.
A mãe do menino, que ganhou colo, veio me procurar na escola. Queria me agradecer. O filho tinha chegado em casa dizendo que eu tinha sido boazinha com ele. Às vezes, na hora da despedida dos tais jantares, se me dá na telha, dou uma de brasileira exótica e abraço meus anfitriões. Até hoje não senti que tivesse dado uma bola fora. De duas uma: ou professor Dunbar entende mesmo do assunto, quando diz que o contato físico é fundamental, ou eu ando praticando a arte do autoengano, achando que os ingleses no fundo gostam do jeito latino de ser.

 

8 thoughts to “Não me toque”

  1. Ah, se eu morasse aí….ou faria sucesso ou ia ser deportado! Adoro dar abraços! Além de brasileiro, descendente de italiano! Já viu a confusão…. 🙂

  2. Sempre adoro ler seu blog e adoro suas análises, porém dessa vez nāo concordo. Desculpe, moro aqui faz quase 20 anos e nunca vi essa ‘frieza’. Sempre fui muito bem acolhida com muito abraços e beijos de amigos próximos e familiares do meu esposo. Claro, com colegas de trabalho, ainda prefiro manter a distância profissional mas, se me convidam pra casa deles, ficamos mais próximos e os beijos e abraços sempre rolam. Minha família, qdo conheceram minha nova família e meus amigos aqui comentaram que ficaram surpresos com a afetividade dos ingleses pois sempre tiveram a idéia de que eram mais distantes.
    Acho que é uma coisa de pessoa pra pessoa e de meio social…

  3. Caso morasse por terras com essa cultura cometeria “bola fora” todos os dias. Gosto do contato físico com as pessoas. Na minha vida profissional sempre procurei trabalhar com atendimento ao público. Me dá um prazer enorme conversar com as pessoas, cumprimentar, abraçar! Acho que isso é energia pura, carrega minha bateria! Por falar nisso um abraço a todos, especialmente para você Duda! Parabéns pelo seu trabalho!

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