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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Cabeça X Coração

Duas fotos. Uma antes. Outra depois. Duas imagens que chocaram essa Ilha e provocaram uma gigantesca resposta popular.

 

Faye, 2 anos

Na primeira foto, Faye, de dois anos, sorri abraçada ao cachorro da família.

 

Faye no hospital

Na segunda, ela está irreconhecível. O corpo inchado, coberto de feridas como uma peste medieval. Depois de onze dias numa cama de hospital, ela morreu. O diagnóstico: Meningite B.

Os pais da menininha divulgaram as fotos para pressionar o governo a oferecer a vacina contra a doença a todas as crianças menores de onze anos. A vacina da Meningite B é recente; foi licenciada pela Associação Médica Europeia em 2013. Em setembro de 2015, o Reino Unido passou a ser o primeiro e único país a inclui-la no calendário de vacinação de crianças até um ano de idade. As crianças pequenas e os adolescentes são os mais vulneráveis à doença.

Tenho que confessar: fiquei muito chocada com a imagem de Faye no hospital. Fui à clínica do bairro atrás da vacina. Minha filha tem 11 anos, portanto está fora do programa do governo. Perguntei se podia pagar pelas vacinas e recebi o número de telefone de uma clínica particular. Liguei lá, mas o estoque acabou. Acabou em todos os lugares, como muitos pais descobriram rapidamente. Só me restou, assim como a mais de oitocentas mil pessoas, assinar uma petição, um abaixo-assinado, para que o Parlamento ampliasse o programa de vacinas contra a Meningite B. Foi a petição mais popular da história desta Ilha.

 

Getty Images

 

 

Esta semana, saiu a resposta do governo: Não, não vamos estender o programa às crianças mais velhas. O NHS inglês (o serviço público de saúde) é bancado com o dinheiro dos impostos. O orçamento de 2015/16 é de 116.4 bilhões de libras (cerca de 625 bilhões de reais). Uma dinheirama. Mas que não é infinita. O NHS é um dos maiores empregadores da Europa: tem um milhão e trezentos mil empregados. Além da folha de pagamentos, tem que arcar com tratamentos, cirurgias, equipamentos, pesquisa, manutenção de hospitais e clínicas, medicamentos e por aí vai. Onde e como gastar o dinheiro é decidido por uma comissão de especialistas. Volta e meia aparece na mídia o caso de um paciente de câncer que quer que o governo pague por uma nova droga, que pode dar esperança. A questão é que as decisões são feitas a partir do critério custo-benefício. Porque, às vezes, para vestir um santo, é necessário despir outro. O que, para quem sofre é uma receita difícil de engolir.

A vacina da meningite B é cara, porque o método de produção é complexo. O governo conseguiu negociar o preço com o laboratório GlaxoSmithKline. O fato é que a vacina é tão recente, que ainda não se sabe quantas vidas vão ser salvas. O mundo inteiro está de olho neste país, para ver se o programa implementado no ano passado vai valer a pena. Como toda nova vacina, é preciso que milhares de pessoas  sejam imunizadas, para saber exatamente quais são os efeitos colaterais. 

Cerca de setecentas mil crianças até um ano de idade serão vacinadas todos os anos. Se o programa fosse ampliado para crianças de até dez anos, seriam mais de cinco milhões, recebendo duas doses da vacina. Aí é que a vaca vai para o brejo: não existe no mercado essa quantidade de vacinas. Ainda não deu tempo de produzi-las. Nem que o NHS quisesse, poderia oferecer a proteção contra a meningite B para tanta gente. 

O que se sabe é que para o grupo de até um ano de idade, aqui da Ilha, cem crianças adoecem com meningite B. Seis morrem. Seis em setecentas mil. Cada morte tem um efeito devastador para as famílias. Dói só de pensar. Entretanto, quando é a cabeça e não o coração que manda, os números não são tão assustadores assim. 

Outro ponto é que os surtos de infecção da meningite variam. Os especialistas sabem que, no momento, a meningite B é relativamente rara. No começo do milênio eram 1.600 casos na Inglaterra. Em 2014, quatrocentos. Enquanto isso, a meningite W (muito mais grave) anda fazendo mais estragos, os casos passaram de 17 para 200 nos últimos cinco anos. 

Ainda é muito cedo para saber se o programa de vacinação contra a meningite B é um sucesso ou não. O que parece bem claro é que uma imagem pode nos fazer agir com o coração e não a cabeça. Fico pensando se os grupos que fazem campanhas contra a vacina triviral seriam tão ativos se, assim como as fotos de Faye, fossem publicadas fotos de crianças morrendo de sarampo. 

One thought to “Cabeça X Coração”

  1. Só temos a lamentar a perda de uma vida, sendo ela criança ou não. Ela poderia dar muitas alegrias e até talvez ser útil a coletividade com seus conhecimentos adquiridos e aplicados, porém um resvalo de alguns (no caso governos e auxiliares da saúde), por acreditarem que são números pequenos não prestaram atenção para tal. O coração desses pais e de outros que ainda podem passar em caso semelhante fica pelo resto dos seus tempos maculado! Que sociedade é esta que acha que números baixos devem ser esquecidos, pelo menos deveriam deixarem a critério dos pais caso queiram prevenir. Afinal qual pai ou mãe não preza pela saúde de seus filhos? Fica aqui meu sincero protesto e mágoa por mais essa perda.

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