Skip to main content
 -
Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Padecer no Paraíso

 

“Ser mãe é andar chorando num sorriso.

Ser mãe é ter o mundo e não ter nada.

 Ser mãe é padecer no paraíso”. 

 

“Podemos escolher ficar grávida aos 16 anos, mas não podemos rejeitar a maternidade aos 29. Parece que nossas decisões apenas são levadas a sério quando elas estão de acordo com a tradição.” A frase é da britânica Holly Brockwell, uma mulher que ganhou notoriedade ao dizer em público que não quer ser mãe. Ela tem brigado com o NHS (o serviço público de saúde aqui da Ilha) para fazer uma laqueadura, uma cirurgia que a tornará estéril. Holly deu uma entrevista para o site da BBC . Virou a ‘Geni’ da hora, levou muita ‘pedrada’. Não foi a primeira. Esse assunto é como páscoa. Todo ano tem.

Recentemente foi anunciado que um bebê nasceu na Suécia, do primeiro transplante de útero. O procedimento é arriscado e caro. A mulher tem que tomar medicamentos para evitar que seu corpo rejeite o novo órgão e a chances de sucesso são baixíssimas. O bebê número um nasceu prematuro, porque a mãe teve pré-eclâmpsia.

Mulheres que arriscam alto pela maternidade e mulheres que não querem ser mães. Elas precisam mesmo estar no mesmo post?   

William (18 meses), Katherine (3 anos), Audrey (8 anos) três crianças da mesma família, que não viveram tempo suficiente para passar seus genes para frente. A breve passagem deles por aqui é relembrada em uma pedra fria de letras apagadas no cemitério do bairro. Dá para imaginar a dor dos pais dessas crianças?  Na era vitoriana, a taxa de mortalidade infantil era muito alta por aqui, praticamente a mesma de Sierra Leoa nos dias de hoje. Em 1840, uma em cada três crianças morria antes dos cinco anos de idade. Sem falar que os contraceptivos não eram confiáveis. Tinha-se muitos filhos, poucos chegavam a idade adulta.

 

 

 

Aprendi aqui uma máxima dos ingleses que valia até outro dia mesmo: “Crianças devem ser vistas e não ouvidas”. Em outras palavras, devem se comportar e não atrapalhar. Não têm direito a uma opinião. Depois da Segunda Guerra, este país viveu um Baby Boom; a taxa de natalidade disparou em um curto período de tempo. Na década dos sutiãs queimados, aconteceu a maior transformação no modo como encaramos a família. Graças ao antibiótico e à pílula, os casais passaram a ter menos filhos e eles começaram a viver mais. Os filhos se tornam o centro da vida familiar. A coisa mais importante. As crianças não mais gravitam ao redor dos adultos. Uma ideia que está tão entranhada, que a gente nem percebe que historicamente esse tipo de comportamento ainda está na primeira infância.

Hoje em dia, 92% dos pais britânicos afirmam que os filhos participam das decisões da família: desde o que comer para o jantar, onde passar as férias até o que assistir na tevê. Ítens como aquecimento central nas casas deixaram de ser luxo e passaram a necessidade. O comércio se adaptou para conquistar quem tem influência na decisão de consumo dos pais. O apetite por lugares e experiências ‘child friendly’ (bons para crianças) só cresceu.  

Será que o fato de estarmos tão focados em nossas crianças torna a vida mais difícil para as mulheres que escolhem não ter filhos? Ou quem sabe essa nunca foi uma opção para as mulheres?

 

 

 

 

Deixando o passado de lado e brincando de futurologia: um estudo do Institute for Public Policy Research (em tradução livre: Instituto de pesquisa para políticas públicas) prevê que nos anos de 2030, um em quatro habitantes com mais de 65 anos nesta Ilha não terá filhos. Uma amiga querida, que não teve filhos, uma vez me disse que era esse o medo que ela tinha: envelhecer sozinha sem ter quem cuidasse dela. Como se houvesse garantias de que os filhos viverão mais do que os pais, ou de que eles irão cuidar de seus velhos.  

Mas, é o medo da velhice solitária que faz com que as pessoas sejam tão agressivas com as mulheres que dizem que não são maternais e não querem ter filhos? Nos comentários que li na reportagem sobre Holly, muita gente disse que o NHS estava certo em adiar a cirurgia. Ela tem apenas 29 anos. E se ela mudar de ideia? 

 

As estatísticas do Office for National Statistics (o IBGE daqui) mostram que entre 1990 e 2010 dobrou o número de mulheres acima dos 40 que tiveram filho. Aos vinte anos, tive algumas amigas que diziam que nunca iriam ter filhos. Aos trinta e tantos, os relógios biológicos delas se transformaram em despertadores histéricos. Entretanto, o universo das minhas amigas não é representativo de absolutamente nada. Não passa de um exemplo. Se a Holly, assim como as minhas amigas, mudar de ideia aos quarenta minutos do segundo tempo, paciência. “A decisão terá sido minha”, ela afirma.

Fui atrás de informação para este post e acabei descobrindo que, com exceção dos dados sobre a velhice no futuro, é muito difícil encontrar números confiáveis sobre mulheres que não querem ter filhos. Existem vários artigos de celebridades e anônimas que defendem a não maternidade. Os estudos que encontrei sobre família contém dados sobre filhos, como se o núcleo familiar só interessasse se houvesse descendentes.  

 

Getty Images

 

 

Então?  É preciso pôr no mesmo balaio as mulheres que fazem de tudo para se tornarem mães e as que não querem ter filhos? Não deveria ser necessário. Quando a mulher diz que não quer ter filho, porque não tem vocação para a maternidade, ela escuta: “bobagem, no começo todo mundo acha difícil, mas depois tudo se ajeita”. Esse pensamento é tão ofensivo para as mulheres que não querem ser mães, quanto para as que penam para realizar o sonho da maternidade.Iguala todo mundo e não escuta as diferenças. O instinto maternal vem mesmo acoplado ao útero? Será que não dá para ser mulher sem ter filhos? 

“ Ser mãe é padecer no paraíso”. Nos anos dois mil, o romantismo do poeta Coelho Neto (1864- 1934) soa pomposo e antiquado. A linguagem pode ter mudado neste começo de século. As dinâmicas familiares também. Mas no que se refere ao direito de escolher ser ou não ser mãe, ao que parece, a visão da sociedade está mais romântica que nunca.

Um comentário em “Padecer no Paraíso

  1. Não! O mundo não está mesmo preparado para quem foge às tradições. A impressão que dá é que, hoje, NÃO ser mãe é que é padecer em qualquer paraíso que se escolha viver.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.