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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Precisamos falar sobre Imigração

Está chovendo na horta dos professores aqui da Ilha. O que não falta é emprego. Normalmente no fim de julho e durante o mês de agosto, as escolas aproveitam que as crianças estão de férias e realizam pequenas reformas em suas instalações. Mas é só prestar atenção para descobrir que as obras estão ocorrendo não só nas férias de verão. Quase toda escola tem um ‘puxadinho’ para acomodar mais alunos. Vejo muitos pais reclamarem que as áreas verdes das instituições de ensino estão cada vez menores.

Essa demanda por mais vagas se explica em parte pelo aumento populacional, num curto espaço de tempo. A taxa de natalidade na Inglaterra e País de Gales subiu 18% na última década. De acordo com o ONS (Office for National Statistics) – o IBGE deles, mais de uma em cada quatro crianças nascidas nesses dois países é filha de estrangeira. O aumento no número de nascimentos se deve às melhorias no tratamento de infertilidade (as mulheres estão tendo o primeiro filho cada vez mais tarde), mas também ao fato de que a segunda geração de mulheres não nascidas neste país terem mais filhos. A taxa de natalidade por aqui é de 1.85 filhos por mulher. Entre as imigrantes da Líbia, o número é bem maior: 5.58 filhos. As polonesas são imigrantes que têm mais filhos.  

Falar em escolas superlotadas e menos grama para as crianças correrem soa como draminha de classe média. Na escala da tragédia humana escancarada nas fronteiras europeias, não devia nem contar. Quando a gente vê o desespero de milhares de pessoas tentando chegar à Europa, criancinhas mortas na praia, cercas de arame farpado brotando do chão mais rápido do que erva daninha, o debate sobre imigração fica pequeno demais, certo? 

 

Getty Images

 

 

Sim e não. Apesar de não existir um consenso que defina qual seria o número ideal de imigrantes nesta Ilha, não dá para negar que a metade dos habitantes locais acredita que existam imigrantes demais neste país. De acordo com o Migration Observatory da Universidade de Oxford, embora as pessoas por aqui sintam que já deu, os números mostram que a proporção de imigrantes na população desta Ilha é comparável com os de quinze outros países membros da Comunidade Europeia. Em termos de número de imigrantes, o Reino Unido está mais ou menos par e passo com a Alemanha. Seis países, entre eles Áustria, Irlanda e Suécia, têm ainda mais imigrantes, enquanto Itália, Portugal e Finlândia têm proporcionalmente menos.

  

Mocinhos & Bandidos

 

Imigração aqui é um daqueles assuntos Fla-Flu, que fazem o tom de voz subir e o nível cair. É duro ter um debate honesto sobre o tema, porque ele é extremamente politizado. As pessoas tendem a se concentrar nos argumentos que sustentam seus pontos de vista, sem considerar que existem bônus e ônus na equação. 

Mais ou menos um ano atrás, Alice Gross, uma adolescente de Londres, desapareceu quando saiu para dar uma volta. Dias depois seu corpo foi encontrado. O assassino era um imigrante da Letônia, que havia sido condenado em seu próprio país por ter esfaqueado a esposa. O crime horrendo saiu como pólvora da boca dos que querem proteger seu precioso modo de vida do perigo que vem de fora. A família de Alice tem toda a minha solidariedade. E, embora eu acredite que o sistema de imigração, pelo menos num mundo ideal, pudesse ser melhor se evitasse que criminosos se mudassem para este país, usar o assassinato como argumento para ser contra a entrada de estrangeiros é de uma miopia que beira a cegueira. No entanto, muitos jornais e políticos vivem de vender histórias e versões, que reforçam esta linha de pensamento.

O número de imigrantes varia absurdamente nas diversas regiões do país. Londres ocupa a liderança, onde 36,2 em cada cem habitantes são imigrantes (dados de 2013). Na lanterninha está o Nordeste do Reino Unido com 1,8%. Outro dia ouvi uma senhora de idade dizer que está cada dia mais difícil fazer compras. As atendentes falam um inglês que ela não reconhece. Volta e meia vem alguém (nativos e estrangeiros) reclamar comigo dos imigrantes. Santa ironia. Mas, voltando à velhinha. Ela se queixou de que a Inglaterra que ela conhecia não existe mais. Talvez seja parte do processo de envelhecer, se ficamos agarrados ao passado, o presente parece mesmo uma terra estrangeira, onde não há muito o que se reconhece como familiar. Mas há mais do que nostalgia no comentário que ouvi e quem mora em Londres sabe disso.

 

 A imigração e o  bolso

 

Um dos jeitos de pensar sobre imigração é avaliar seu impacto na economia. Em média, nos últimos cinco anos, chegaram trezentos mil novos imigrantes a cada ano (a população da Grã-Bretanha está beirando os 65 milhões, com pouco mais de oito milhões de estrangeiros). Com o aumento da população, cresce a demanda por infraestrutura:  serviços sociais, escolas, hospitais, habitação e transporte. Em algumas regiões a pressão é maior. As administrações regionais estão tendo que rebolar para manter os serviços (ainda mais com o governo mandando cortar custos sem dó nem piedade). Entretanto, o curioso é observar que, contrariando a premissa de  que a imigração está estrangulando este país, a economia tem crescido. Uma marretada naqueles que afirmam que os imigrantes só querem vir para cá para mamar nas tetas do governo.

 

Do ponto de vista da economia, existem imigrantes e imigrantes. O que quer dizer que alguns têm qualificações profissionais que interessam muito a este país. Segundo o diretor executivo da multinacional Siemens, Juergen Maier, esta Ilha vai precisar de um milhão e oitocentos mil engenheiros nos próximos dez anos. Um número que este país não vai conseguir produzir. Para ele, os imigrantes são fundamentais para manter o crescimento econômico do Reino Unido. Ele acrescenta que durante anos este país ignorou a questão do aumento da população e não fez seu dever de casa. Quando a gente vê as escolas correndo para arrumar mais salas de aula, o que ele diz faz sentido. O desafio é saber planejar e ter uma estratégia que integre os novos e antigos moradores desta Ilha. 

Mas nem entre os empresários o tema é consenso. Alguns enxergam a questão de uma forma diferente. Se este país está sempre olhando para fora para atender à demanda imediata de profissionais qualificados, ele acaba negligenciando a formação e o investimento em outros MADE IN UK, feitos em casa. É preciso investir mais na prata da casa, eles afirmam.

  

 A imigração e o trabalho 

 

Do outro lado da moeda estão os profissionais com poucas qualificações, os carrega-piano mesmo. Pessoas que topam empregos sazonais na agricultura por exemplo. Estes com certeza devem estar tirando o emprego dos locais… 

Não é o que pensam muitos fazendeiros, que dependem da mão-de-obra estrangeira. Eles argumentam que os britânicos mais dispostos ao trabalho não querem saber deste tipo de ocupação temporária e os que estão desempregados preferem continuar recebendo ajuda do governo a fazer trabalho braçal pesado.  

Mas também quem vai querer trabalhar por tão pouco dinheiro? Os imigrantes aceitam qualquer coisa e o salário é cada vez mais baixo. Este é um dos argumentos que mais se repete na mídia. Entretanto, embora seja essa a percepção de muita gente, nenhum estudo até hoje conseguiu provar que exista um achatamento real dos salários por causa da imigração. Na ponta do lápis, existem algumas variações, mas nada que justifique o estardalhaço. A lógica que prevalece é a mesma com ou sem imigrantes: quanto mais qualificado e essencial é o trabalhador, maior é seu poder de negociação salarial. O inverso também é verdadeiro.

Outro dia ouvi um brasileiro dizer: você dá emprego para um polonês e leva Varsóvia inteira. Os argumentos contrários à imigração são repetidos pelos próprios imigrantes, como se algumas pessoas se sentissem menos imigrantes do que outras, na medida em que se adaptam ao novo país. Puxei papo com a garçonete que servia minha mesa numa pizzaria. Ela contou que era russa e que o restaurante onde ela trabalhava era como uma sede das Nações Unidas, tinha gente do mundo inteiro. Mas o trabalho antigo dela era muito ruim. Só dava eslovacos e assim como disse o brasileiro sobre os poloneses, eles falavam uma língua que só eles entendiam e não deixavam mais ninguém entrar. Soa familiar?

 

Para melhor ou para pior? 

 

Em sua campanha para reeleição, o primeiro-ministro David Cameron disse que o problema da imigração era insustentável e que os números teriam que ser reduzidos drasticamente. Até agora não cumpriu o que andou ameaçando, mas esse assunto vai ficar para outro post. O ponto é que os números e estatísticas são importantes, mas não retratam as nuances desta história. Se o país vai ficar mais rico ou mais pobre como consequência da imigração é um conceito difícil de assimilar no dia-a-dia. Muito mais fácil são os efeitos sociais e como as pessoas percebem a questão. A fila no hospital lotado é muito mais palpável e menos abstrata.

 

O movimento mais importante e mais difícil deste jogo em constante transformação chama-se integração. Como aceitar o outro sem anular o que o define como único? Como manter a cultura e os valores de um povo, respeitando os de tantos outros? Não é bolinho, não. Afinal, como Caetano Veloso disse muito bem: é que Narciso acha feio o que não é espelho. Os narcisos nativos e os importados também.

4 comentários em “Precisamos falar sobre Imigração

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