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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Um bebê, três pais

Janeiro de 1803. Londres. Prisão de Newgate. George Foster está prestes a morrer. Ele foi condenado à forca pelo assassinato da mulher e filha. Foster jurou inocência. Os amigos testemunharam seu bom caráter. Ele tinha até um álibi. Pobre, sem dinheiro, não teve a menor chance de defesa. O juiz foi implacável em seu veredito.

 

Não muito distante da prisão, Giovanni Aldini, um cientista italiano esperava a execução com ansiedade. No começo do século XIX na Inglaterra, só os corpos dos piores criminosos poderiam ser dissecados. Pela capital circulavam notícias horrendas de pessoas que acordaram quando suas pernas, ou braços, eram serrados. Tempo sinistro. Aldini era extremamente ambicioso. Ele havia convencido seus colegas que, se eles lhe dessem um cadáver intacto, ele traria o morto de volta à vida!

 

Depois de ficar dependurado na forca durante uma hora, o corpo de Foster foi levado para o Royal College of Surgeons, uma instituição de prestígio na época. Lá o experimento macabro foi testemunhado por médicos, cientistas e membros do público. Aldini ligou eletrodos aos pés, braços, peito e testa do defunto. Assim que a corrente elétrica passou pelo corpo de Foster, ele começou a mexer a mandíbula e se contorceu até que chegou a abrir o olho esquerdo. O contorcionismo convulsivo durou até a bateria acabar. As testemunhas concluíram que ele não havia voltado à vida. Aldini caiu em desgraça. Partiu para a Itália com o rabo entre as pernas, culpando a bateria por seu fracasso. Sempre a tecnologia…

 

A história, no entanto, sobreviveu e animou os salões da sociedade inglesa. Numa dessas reuniões estava uma menina chamada Mary Shelley. Escondida no topo da escada, ela ouvia e absorvia as conversas dos adultos como terra seca bebe água. Anos mais tarde, Mary criou seus personagens mais famosos:  o doutor Victor Frankenstein e seu monstro.

 

 

Getty Images

 

 

É curioso que sempre que se discute um avanço da ciência, Frankenstein é tirado de seu descanso. Foi assim em julho de 1978, quando nasceu Louise Brown: o primeiro bebê de proveta. Durante nove anos, os pais de Louise tentaram sem sucesso produzir um filho à moda antiga. Eles eram os candidatos perfeitos para a nova técnica de reprodução.

 

Na época em que se discutia a possibilidade de fertilização em vitro, um cientista americano chamado Leon Kass, que mais tarde seria conselheiro do governo Bush para bioética, foi radicalmente contra. Ele argumentava que o risco de produzir bebês com sérias anomalias seria enorme.

 

De 1978 para cá, mais de três milhões de crianças, que foram concebidas em tubos de ensaio, vieram ao mundo. O número de anomalias é o mesmo que em crianças concebidas naturalmente. A tecnologia trouxe muita alegria para casais que não podiam ter filhos. Mesmo assim, ainda hoje o assunto gera polêmica.

 

A Igreja nunca achou graça nessa história de bebê de proveta. Condena o uso de tecnologia para substituir o ato sexual com fins reprodutivos. Em 2008, a Igreja Católica publicou o Dignitas Personae, um documento da Congregação da Doutrina e Fé enumerando as razões pelas quais se opõe à fertilização em vitro. Uma delas é que muitos embriões são criados no processo e poucos sobrevivem. Os cientistas rebatem o argumento dizendo que a maioria dos embriões concebidos durante a relação sexual falha em sua missão de se implantar no útero. Em outras palavras, não vingam e a mulher sequer soube que estava ‘grávida’. Também no processo natural muitos embriões são criados e poucos sobrevivem. 

 

Getty Images

  No ano 2000, quando se anunciou o mapeamento genoma humano, editei uma série de reportagens sobre o assunto. Lembro-me claramente das manchetes da época. Desvendado o alfabeto da vida era uma delas. O tom de muitas reportagens era alarmista. Usavam sem miséria a expressão ‘brincando de Deus’. Temia-se que a nova descoberta iria abrir as portas para bebês geneticamente alterados. Os pais poderiam selecionar o sexo e até a cor dos olhos dos filhos, verdadeiros Frankensteins genéticos. 

Quinze anos mais tarde, a possibilidade de se criar um bebê    geneticamente modificado é real. Cientistas ingleses desenvolveram uma tecnologia que trucida a matemática da genética, como conhecíamos até hoje. Esqueça a equação um óvulo + um espermatozoide = embrião. A nova técnica propõe criar uma vida humana com dois óvulos e um espermatozoide.  A lei foi aprovada pelo Parlamento Britânico. E o que Maria ganha com isso? 

Maria eu não sei. Mas, para muitos casais, a nova tecnologia vai trazer tanta alegria quanto aos pais dos milhões de bebês de proveta. Algumas crianças nascem com uma doença genética gravíssima e incurável porque a mitocôndria, presente nas células, é incapaz de transformar comida em energia. A mitocôndria que não funciona bem é passada pela mãe e os filhos afetados sofrem danos cerebrais, musculares, cardíacos e cegueira.  

A nova tecnologia usa o óvulo da mãe, mas substitui a mitocôndria que não funciona bem por outra, retirada do óvulo de uma doadora. Apenas 0,1% do material genético da doadora passa para o bebê. 

No dia da votação, ouvi um parlamentar do partido conservador dizer no rádio que ia votar contra. O argumento dele era que não se pode abrir a porta para a manipulação genética de embriões porque, ‘daqui a pouco os pais vão querer escolher a cor dos olhos dos filhos’. Sei não, já ouvi esta frase antes em algum lugar. Os anglicanos e católicos trabalharam duro no lobby contrário à aprovação da lei. Se diziam solidários com os pais, mas afirmavam que questões éticas precisavam ser melhor pensadas e queriam garantias de que a técnica iria funcionar. Pediam mais tempo. 

Os avanços científicos costumam vir acompanhados de polêmicas e questões éticas, que são importantes e não podem ser desprezadas. Numa das entrevistas que ouvi sobre o assunto, uma mulher dizia que tinha pena das famílias afetadas pela doença genética, mas que a natureza devia seguir seu curso. Ainda bem que nem todo mundo pensa assim. Porque se não fosse pelo antibiótico, só para citar um exemplo, a natureza teria dado cabo de muita gente e talvez eu ou você não estivéssemos aqui hoje pensando sobre o assunto.

Só mais uma coisa antes de eu ir. Será que é hora de parar de ‘brincar de Frankenstein’? Hoje em dia é fácil rir de Aldini e sua tentativa rocambolesca de trazer um homem de volta à vida. Seus planos eram audaciosos demais, mas não de todo estúpidos. O desfibrilador, aquele aparelho que dá choques no coração que bate fora do ritmo, não traz ninguém de volta, mas adia a ida de muitos pacientes para o além.

Ganha um doce quem adivinhar de onde veio a ideia de criar o equipamento.

 

  • O órgão, que regulamenta as questões de reprodução humana, acaba (fevereiro, 2018) de dar o sinal verde para o primeiro bebê gerado a partir de duas mães e um pai. Se der tudo certo, a criança poderá nascer ainda neste ano.

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