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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Meio Segundo

Getty Images

 

Menos de um segundo. O tempo de cruzar com outra pessoa numa movimentada estação de trem. O ínfimo espaço entre o começo e o fim de um acontecimento banal acabou se arrastando durante um ano como um pesadelo em câmera lenta. 

Em dezembro de 2014, Mark Pearson, um artista de 51 anos, estava na estação de Waterloo, no centro de Londres,a caminho de casa . Os dedos da mão direita seguravam a alça da mochila, que levava nas costas. Na outra mão, ele carregava um jornal. Era um dia como todos os outros. Dois meses depois, graças ao cartão eletrônico de transporte púbico (chamado aqui de Oyster Card), investigadores chegaram até o artista. Ele estava sendo acusado de ter abusado de uma mulher naquele dia ordinário de dezembro.

Ninguém sabe o nome da mulher. A imprensa não pode divulgar, por ordem judicial. Sabe-se apenas que é uma conhecida atriz premiada, na casa dos sessenta anos. A identidade dela foi preservada, mas não a de Mark. Até o dia do julgamento, ele viveu dias horrorosos, tendo que explicar para todo mundo que não havia feito nada. As pessoas ouviam como quem pensa: “sei, sei… é isso que todos dizem”.

A atriz- acusadora- anônima diz que Mark deu um empurrão nela e que a penetrou no meio da multidão da estação. O negócio é que vivemos na era em que espiar é normal. As câmeras de segurança estão por todos lugares. A estimativa é que exista uma delas para cada 14 habitantes na capital inglesa. Na estação de Waterloo, que recebe diariamente trezentos mil passageiros, a suposta cena do abuso foi registrada numa gravação. Não havia uma única testemunha nem tampouco exame de corpo de delito. 

 

cena da câmera de segurança

 

A acusação tentou jogar sujo. Diminuiu a velocidade da gravação na cena em que o acusado e a suposta vítima cruzavam seus caminhos. A defesa percebeu o truque e desmascarou a farsa. Mark Pearson teria que ser o rei dos trombadinhas ou um mágico do calibre de um David Copperfield para ter abusado da mulher, no intervalo de meio segundo, com as duas mãos ocupadas e sem que ninguém tivesse notado. 

O júri levou menos de 90 minutos para inocentar o acusado. Mark Pearson deu uma entrevista dizendo que sente que o último ano foi de tortura mental patrocinada pelo Estado. Ele agora sofre de depressão e ansiedade. A promotoria defendeu sua decisão de levar o caso a julgamento.  

A pressão para julgar os crimes sexuais pode criar vítimas onde não existia crime. Uma investigação séria pode sim fazer justiça. A palavra-chave desta história é honestidade. De todos os envolvidos.

2 comentários em “Meio Segundo

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