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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

O hábito faz o monge?

 

Sempre que vejo  criancinhas indo para escola – principalmente quando vestem o uniforme de inverno, imagino um pequeno exército de advogadinhos e advogadinhas no caminho do conhecimento. Elas seguem de gravata, carregando suas pastas. Quando minha filha começou o primário, comprei a tal  gravata , dei um nó (meu marido deu) e cortei a parte de trás perto da nuca. Costurei um velcro, achando que tinha descoberto a roda. Ficaria bem mais fácil para a menina de cinco anos pôr e tirar o acessório. Tolinha, eu. Não passou nem duas semanas, ela veio para casa demandando uma gravata nova. Disse que não era boba e que sim, poderia perfeitamente dar um nó na gravata.

 

 

Getty Images

 

Outro dia, um grupo de meninos do sexto ano, o último da escola primária, estava fazendo graça numa loja perto da escola. Amarraram as gravatas na testa e fizeram macaquices. Um deles teria subtraído um chocolate sem pagar. Aos 11 anos, eles experimentam mais liberdade e podem voltar sozinhos para casa. Estão se achando. Enfim, a notícia de que os rapazinhos estavam se comportando mal em público, vestindo o uniforme da escola, chegou aos ouvidos da diretora. O sermão no dia seguinte foi longo. O uniforme representa a escola, por isso, o comportamento deles em público afeta a imagem da instituição. 

 

Mas, e se são os adultos que comprometem a imagem da escola e abaixam o nível? A diretora de um colégio na Inglaterra mandou uma circular para a casa de seus alunos. No texto, apelava para os pais e mães não usarem pijama e chinelinho de pano ao levarem e buscarem seus pimpolhos na escola. Foi o maior rebu. Alguns pais xingaram a diretora de prostituta, que recebe mais do que merece. Outro chegou a dizer que esperava que ela fosse estéril, para não passar seus genes diabólicos para frente. Deu para perceber o nível, né?

 

A história rendeu. Colunistas de jornais escreveram parágrafos e mais parágrafos sobre o tema. Analisaram cada ponto e vírgula da carta da diretora. Alguns tomaram as dores dos pais, que “estão sobrecarregados com tantas tarefas”. Uma mãe disse que chegar inteira na escola com os três filhos todas as manhãs é um ato heroico. O fato de estar vestindo pijama, não faz diferença. Outros argumentaram que se deve educar as crianças através de exemplos e que não cuidar da aparência e higiene pessoal não é um bom começo.

 

Essa história dos pais indo levar os filhos vestindo pijama é bobagem, ouvi no rádio. As pessoas deveriam estar muito mais preocupadas com as crianças que chegam à escola sem café-da-manhã.  Num dos artigos que li, a jornalista mostrava celebridades que usam pijama em público e que adoram publicar fotos  nas mídias sociais vestidos em roupas de dormir.

 

No Brasil, mesmo o mais simples trabalhador da construção civil se lava e troca de roupa antes de pegar o transporte público para voltar para casa. Na Inglaterra não é assim. É muito comum ver no metrô, pessoas com a calça dura de tantos respingos de tinta. Tive uma vizinha que confessou que fazia mais de três anos que  não lavava o cabelo. Alguém teria dito a ela que o shampoo destrói os óleos naturais do cabelo. Nunca encostei, mas pela aparência, o dela parecia bem lubrificado. 

 

 

 

Que cada país tem lá seus hábitos e costumes, não duvido. Mas, quando li sobre a polêmica do pijama no portão da escola, fiquei pensando: o que essa história quer contar? Os professores neste país não trabalham de jeans. Os famosos se vestem, ou praticamente se despem, em público do jeito que querem. Eles ganharam, conquistaram, suas alforrias para agirem como bem entenderem. Será que o caso do pijama não é mais uma questão de classe social do que uma preocupação com o futuro das crianças desta Ilha?

 

 O que incomoda tanto é o hábito ou o monge?

 

 

6 comentários em “O hábito faz o monge?

  1. Muito bom o texto, Maria Eduarda. Ainda se esses pais “atarefados” levassem (de pijama) seus filhos para escola e não saissem do carro, ninguem perceberia! Concorda?!? Beijo.

  2. Ato heroico chegar na escola no horário com três filho? Peraí aí! Ato heroico era da minha mãe que antes de sair pra trabalhar deixava almoço pronto pra mim e para minhas irmãs Pq ela trabalhava o dia todo e não estava em casa na hora do almoço!
    Ao invés de pijamas elas deveriam usar a roupa da mulher maravilha! Hahaha
    Adorei o texto! (Como sempre!)

  3. Ótimo texto, Duda! Bem humorado. Já fui vaaaaaarias vezes de pijama deixar os filhos na escola. Rs. Ninguém vê. Vou com casacão por cima 😉 e os filhos também não percebem. Ou já acostumaram!!! Abs

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