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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Remédio Amargo

John é obeso. Não trabalha porque o excesso de peso o tornou incapaz. Ele vive de benefícios do governo. De acordo com estimativas do partido Conservador, atualmente no poder, John é apenas um de um grupo de cem mil pessoas que vive à custa do governo por problemas de obesidade, ou porque são viciados em drogas e álcool. É justo que o contribuinte sustente essa turma?

 

O primeiro-ministro David Cameron acha que não. Antes de sua reeleição em maio do ano passado, ele anunciou que, se reeleito, iria cortar os benefícios de gordos e viciados, que recusarem tratamento para mudar de vida. Para que este post não fique longo demais, resolvi falar só do problema da obesidade. Então vamos lá.

 

A obesidade quadriplicou nos últimos vinte e cinco anos nesta Ilha. Um em quatro adultos no Reino Unido é obeso e o pior é que não são só eles. O problema afeta uma em cada cinco crianças entre dez e onze anos. A previsão é de que no ano de 2020, um em cada três adultos será obeso. A situação é tão grave, que se diz agora que a gordura é o novo cigarro. O excesso de peso traz consequências péssimas para a saúde, aumenta o risco de diabetes do tipo dois, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer, como o de mama e o de intestino. Só a diabetes custa ao NHS (o Serviço Nacional de Saúde) nove bilhões de libras por ano de acordo com o Diabets UK, mais de cinquenta bilhões de reais. Estima-se que dos dois milhões e meio de cidadãos vivendo do seguro saúde, cerca de um milhão e meio receba o benefício por mais de cinco anos. Ao justificar seu plano, David Cameron argumenta que é um enorme desperdício de potencial humano.

 

A promessa de campanha parece ter sumido. Pelo menos não se ouve mais falar no assunto. Talvez a oposição estivesse certa quando disse que isso era bravata para arrebanhar mais eleitores. A ideia de tentar resolver o problema da gordura onde dói mais, no bolso, é polêmica, mas não tem nada de original.  

 

 

Modelito japonês

 

Em 2008, o Japão adotou uma política de redução da cintura, com o objetivo de eliminar gordura na população. Detalhe, apenas 3% dos japoneses eram obesos, mas os indicadores apontavam para um aumento significativo no número de gordos, caso o problema não fosse atacado de frente.

 

Ao contrário da maioria dos países desenvolvidos do lado de cá do globo, a sociedade japonesa é extremamente coletivista. Por isso mesmo, as penalidades não incorrem ao cidadão e sim às companhias e governos locais. Pela chamada Lei Metabo (de síndrome metabólica, que é como os japoneses chamam a obesidade), adultos entre 40 a 75 anos são pesados e as cinturas são medidas anualmente. A cintura dos homens não deve passar de 85 cm e das mulheres de 89 cm. Se falharem em atingir a meta, envergonham a comunidade local ou empresa onde trabalham, que têm de arcar com a multa. Se você, como eu, também se preocupou com os pobres lutadores de sumô, aí vai mais uma informação nipônica: a maioria deles se aposenta antes dos 40. Portanto, não tem desculpa. 

 

Quando foi lançada, a Metabo previa a redução dos índices de obesidade em 25% até o ano de 2015. Vai ser interessante verificar se funcionou ou não. O que se sabe até agora é que a lei provocou um aumento na venda de equipamentos de ginástica, de produtos que prometem perda de peso e de frequentadores de academias. Além disso, muitos japoneses aderiram às dietas malucas, nas semanas que precedem o exame.

 

Imposto Gordura

 

Mas os ingleses não são japoneses e a sociedade aqui é muito diferente. Além do mais, não é a primeira vez que o primeiro-ministro busca na carteira a solução do problema real que é a obesidade. Em 2011, David Cameron ameaçou introduzir o ‘Fat Tax’, o imposto gordura. A ideia de aumentar o imposto de produtos engordativos também não é inédita. Outro país, desta vez bem mais perto daqui, tentou uma estratégia semelhante. 

 

Em outubro de 2011, a Dinamarca introduziu o ‘imposto gordura’ para a manteiga, leite, queijo, pizza, carne, óleo e outros alimentos que contém mais de 2,3% de gordura saturada. Um ano depois a lei foi abolida. Ela falhou em mudar os hábitos alimentares dos dinamarqueses, que passaram a cruzar a fronteira para comprar produtos mais baratos, o que colocou muitos empregos locais em risco. A lei custou um enorme capital político ao governo. O então ministro da agricultura, alimentos e pesca declarou que o ‘imposto gordura’ foi a lei mais impopular que eles tiveram em muito tempo.

 

Resolver o problema da obesidade através de leis é polêmico, mas é necessário que o governo entre nesta batalha, argumentam os médicos britânicos. Em 2013, duzentos e vinte mil médicos se juntaram para demandar um imposto de 20% para os refrigerantes e outras bebidas açucaradas. E não foi só isso. Querem refeições mais frescas e saudáveis em hospitais, a proibição de lanchonetes fast food próximo às escolas, mais verba para combater a obesidade, proibição de anúncios de produtos que tenham alto teor de sal, gordura saturada e açúcar antes das nove da noite, além da introdução das ‘etiquetas semáforo’ nas embalagens. As etiquetas usam as cores, vermelho, laranja e verde para os índices de calorias, açúcar e sal. Verde é o mais saudável. Laranja para ser consumido eventualmente e vermelho, que deve ser evitado. A informação visual clara ajuda o consumidor a fazer suas escolhas.

 

 

O problema é que nem sempre é possível escolher. Outro dia fui ao supermercado e comprei uma pizza pronta e cebola. Quase caí para trás quando fui pagar. Um pacote com três cebolas custou quatro reais a mais do que o que paguei pela pizza marguerita. Alimento fresco neste país é caríssimo. Uma caixa de profiteroles recheados de creme e gordura hidrogenada é mais barato do que um pacote com quatro maçãs, que é a fruta mais abundante por aqui. O que me deixa encafifada: o que é que tem nos alimentos processados que custa tão barato?

 

Açucarado

 

Açúcar, muito açúcar. É o que diz o endocrinologista Robert Lustig, especialista em obesidade infantil.  E o pior é que o diabo se apresenta com vários nomes: malte diastático, dextrana, maltose, xarope de sorgo, frutose e glucose. Esses nomes esquisitos, segundo o médico, fazem parte de uma estratégia sem-vergonha da indústria de alimentos para enfiar açúcar goela abaixo do consumidor, sem ele saber o que está consumindo. Adoçar os alimentos faz com que eles fiquem mais apetitosos e durem mais, o que aumenta o tempo de prateleira.

Em seu livro, Fat Chance, o doutor Lustig defende a ideia de que os governos deveriam realocar os subsídios destinados ao cultivo de milho e soja (indispensáveis para a indústria de alimentos processados) e focar mais no cultivo de outros legumes e verduras. Ele engrossa o grupo que defende uma sobretaxa para os produtos açucarados. 

 

 

O problema é encontrar quem tenha vontade política de adotar as medidas que são extremamente impopulares. O próprio primeiro-ministro já defendeu que se fixe um preço mínimo para bebidas alcóolicas, como uma das estratégias para diminuir o consumo exagerado do produto. Latiu, mas não mordeu. Em 2013, o governo voltou atrás e disse que não havia evidências sólidas de que a medida iria funcionar. No ano passado, entrou em vigor uma lei que não permite a venda de bebidas abaixo do preço de custo, foi o máximo que conseguiram. Na Columbia Britânica, uma província do Canadá, a política de preço mínimo foi adotada há mais de vinte anos e os resultados são inegáveis na redução do consumo de bebidas alcóolicas.

 

Remédio Amargo

 

Voltando ao plano de David Cameron de cortar os benefícios dos obesos, que recusarem tratamento. Será que é uma boa? Realisticamente, quantas pessoas obesas fazem dieta e mantêm o peso ideal depois de dois anos? É tão fácil assim? Anunciar que vai cortar benefícios é mole. Taxar o açúcar é mais difícil?

 

Ano passado, o primeiro-ministro disse que não havia necessidade de taxar os produtos açucarados. Agora dá sinais de estar mudando de ideia, apesar de que os conservadores têm alergia a impostos. O dinheiro arrecadado com a taxação de 20% seria utilizado pelo serviço nacional de saúde. O lobby da indústria alimentícia é poderoso, assim como a campanha dos profissionais do setor de saúde.

 

Desde outubro de 2015, na Inglaterra, as sacolas de supermercado deixaram de ser de graça. Quem quiser embalar suas compras em uma delas, tem que pagar cinco centavos de libra. Não parece muito dinheiro, mas na Escócia, o consumo de sacolas de plástico em grandes lojas e supermercados caiu 90%, depois que a medida foi adotada.  Este é um dos argumentos para aqueles que acreditam que refrigerante 20% mais caro não vá diminuir o consumo da bebida. 

No mês que vem o governo vai anunciar seu plano nacional para combater a obesidade infantil. Talvez a solução para o problema do excesso de peso passe sim pelo bolso. Resta saber se o primeiro-ministro não vai mudar de ideia como já fez no passado. 

 

 Imposto é um remédio amargo. Pode ser que ajude na cura do problema da obesidade. Mas dessa vez, nem a sabedoria de Mary Poppins vai ajudar. Uma colher cheia de açúcar, para descer melhor, está fora de questão.

 

 

 

 

 

 

 

 

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