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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Sujou? Limpa!

 

Desde o escândalo do ratão-mor, Jimmy Savile, as placas tectônicas de um mundo subterrâneo chamado pedofilia não param de tremer aqui na Ilha. Jimmy Savile era a celebridade das celebridades nesta parte do mundo. DJ, apresentador de um famoso show de talentos chamado ‘Top of the Pops’, ele era prodigioso em arrecadar dinheiro para obras de caridade. Foram mais de 40 milhões de libras. Estava em todos os lugares. Tinha até um quartinho num hospital, onde “ajudava” os doentes, empurrando macas e “cuidando” dos pacientes. Jimmy Savile morreu em 2011. Pouco depois, a podridão de suas ações começou a pipocar. Ele era um predador sexual. Abusou mais de quatrocentas pessoas, de sete a setenta e cinco anos de idade, durante mais de quatro décadas. Entre as vítimas, pacientes de 28 hospitais e muitos fãs.

 

 

 

A escala e o horror das ações de Jimmy Savile levantaram uma pergunta inconveniente: como é que uma figura pública pôde agir impunimente, sem que ninguém soubesse e durante tanto tempo? A resposta é quase tão assustadora quanto os abusos que ele cometeu. Muita gente sabia, mas ninguém tinha coragem de investigar, denunciar ou mesmo de punir o sujeito que era um tesouro da nação. Se foi assim com ele, poderia ter acontecido outras vezes? Com outros abusadores? 

 

 

Em 2013, criou-se a operação Yewtree (Teixo, em português. Uma árvore boa para fazer arco e flecha, mas que tem folhas venenosas). As vítimas começaram a tomar coragem e denunciar os abusadores. Descobriu-se que os abusos sexuais e de menores no meio artístico eram moeda corrente. De uma hora para outra, não importava mais se o agressor era velho ou novo, se o crime era histórico ou recente. As investigações resultaram na prisão de apresentadores de tevê, músicos e outros profissionais.

 

Rolf Harris, artista, comediante, compositor, ator e músico. Ele chegou a pintar um quadro da rainha, um privilégio e tanto por aqui, pode acreditar. Apesar de famoso, ele foi condenado aos 85 anos de idade por crimes cometidos nas décadas de 60 e 80. No momento, cumpre uma pena de cinco anos e nove meses de prisão. Ele foi apenas um dos condenados a partir da operação Yewtree.

 

Rolf Harris condenado por crimes sexuais

   

 

 

Tornou-se comum ver velhinhos entrando andando em tribunais e saindo em camburões da polícia. Pela primeira vez, as vítimas criavam coragem para contar suas histórias. A mídia se esbaldava nas notícias quentes e a polícia, pressionada pela opinião pública, começou a investigar as denúncias como nunca antes. 

A lama vazou e chegou  ao centro do poder: o parlamento em Westminster. Começaram a surgir notícias sobre um círculo de pedofilia. Parlamentares e políticos poderosos teriam abusado de crianças e jovens de orfanatos, colégios internos e reformatórios, em hotéis e apartamentos espalhados pelo país. 

A investigação com nome de árvore deu frutos: são tantas operações policiais, que fica difícil acompanhar.

 

Au-au

 

Esta semana outro tipo de sujeira ganhou as manchetes. Uma que os cães deixam nas ruas e nos parques. Duas administrações regionais de Londres vão lançar um banco de DNA de cocô de cachorro. Um desses lugares é Barking – parece piada pronta. Barking em inglês é latido. Os primeiros mil cães vão ser cadastrados de graça. A ideia é emitir multas aos donos que não limpam os ‘presentes’ que seus amiguinhos quadrúpedes fazem na rua. Por isso, vão criar um grupo forense para examinar as fezes caninas, tipo um esquadrão do programa Investigação Policial para enquadrar os donos porcalhões.

 

Foto: Jisu Lee – Unsplash

 

Até parece que o dinheiro está sobrando. Enquanto isso, serviços sociais são cortados e bibliotecas são fechadas. Estima-se que 10% delas correm risco de fechar ou reduzir seus serviços. As administrações regionais vêm, nos últimos anos, cortando custos para tentar balancear o caixa. Mesmo que tempo e dinheiro estivessem nascendo em árvore, o novo esquema ainda assim pareceria ridículo. A partir de abril, todos os animais de estimação do Reino Unido vão ter que ter um microchip de identificação. É lei. Mas o cadastramento do DNA é voluntário. Cadastra o cão quem quer. Quem é que vai querer ter o cachorro no registro de animais? Certamente quem não está muito interessado em limpar a sujeira é que não vai se mexer.

 

Sujeiras

 

Em dezembro passado, morreu um ex-parlamentar de oitenta e sete anos chamado Lorde Janner. Ele era acusado de ter abusado de menores durante três décadas. Chegou a ir ao tribunal, mas estava tão gagá, que mal reconhecia a própria família. Os advogados, que representavam suas supostas vítimas, lamentaram a morte de Janner. Seus clientes queriam a oportunidade de depor numa corte e ter suas histórias ouvidas.  

De toda sujeira do escândalo Savile, surgiu uma coisa boa: muitas vítimas estão dormindo um pouco melhor, sabendo que seus abusadores foram presos e desmascarados. Mais gente está tomando coragem e quebrando o silêncio.  

Infelizmente também aumentou o número de calúnias e acusações infundadas, que podem destruir reputações e vidas. Várias figuras públicas foram a julgamento e saíram em liberdade, nos últimos três anos. A única testemunha da investigação contra os políticos pedófilos começa a soar não muito confiável. É preciso tomar muito cuidado para evitar injustiças. Tanto para as vítimas quanto para os acusados. 

Limpar as sujeiras não é tão fácil quanto parece. Nem as caninas, muito menos as humanas.  

 

2 comentários em “Sujou? Limpa!

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