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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

A Língua de Agatha Christie

 

No finalzinho do século dezenove, a filha temporã de Clara era uma menina solitária. Não ia a escola, era educada pelo pai e a mãe. Ela passava os dias num mundo de fantasia, animais, livros e histórias.A família vivia confortavelmente em Devon, no sudoeste da Inglaterra. Quando a menina tinha onze anos, seu pai morreu. Agatha Mary então se tornou companheira de sua mãe. O dinheiro ficou curto e elas tiveram que se virar.

 

 

Agatha era fera no piano, mas sofria de uma timidez incapacitante, jamais poderia se apresentar em público. Preferia escrever contos na solidão de sua casa. Aos 22 anos, ela conheceu um aviador chamado Archie e os dois se apaixonaram. Em 1914, eles se casaram. Ela passou a ser então a senhora Agatha Christie.

 

Mas o mar não estava para peixe. Archie foi para a França lutar na Primeira Guerra. Agatha começou a trabalhar como voluntária na farmácia de um hospital da Cruz Vermelha perto da casa dela. Para não morrer de tédio, ela passou a escrever histórias de detetive. Só em 1918, Agatha e Archie puderam começar de fato a vida de casados. Se mudaram para Londres, onde tiveram uma única filha: Rosalind. Archie começou a ganhar dinheiro e Agatha a publicar seus livros. O casal fez uma grande viagem pelas colônias britânicas, onde ela recolheu material para vários de seus livros e personagens.

Quando Clara morreu, Agatha ficou muito triste e retraída.  Enquanto ela chorava, Archie, que gostava de jogar golfe, acabou se apaixonando por uma amiga do casal, que tinha o mesmo gosto esportivo. Agatha levou um pé no traseiro. 

A rejeição não caiu bem. Ela pirou. Deixou Rosalind com as babás e saiu sem dizer para onde ia. Mais tarde, seu carro foi encontrado. Nesta altura do campeonato, ela já era conhecida. O país inteiro se envolveu no mistério do desaparecimento de Agatha Christie. Dias depois, ela foi reconhecida por um funcionário de um hotel onde se hospedava com o nome de Theresa Neale, uma sul-africana. Quando Archie foi buscá-la, ela não o reconheceu. De volta para casa e sob cuidados psiquiátricos, ela penava para escrever. Assim que o divórcio saiu, Agatha e a filha se mudaram para as Ilhas Canárias, onde ela escreveria mais alguns livros.

 

Agatha conheceu seu segundo marido graças a uma viagem no Expresso do Oriente. Clichê dos clichês, ela acabou se casando com um rapaz bem mais novo do que ela (ele tinha 25 e ela 39 anos). Dizem até que ela abaixou um pouco a própria idade no passaporte, para não pegar muito mal. Mais tarde, disse que um arqueólogo é o melhor marido que uma mulher pode querer: quanto mais velha ela fica, mais ele se interessa por ela. Convenientemente, Max Mallowam era um arqueólogo, que trabalhava numa escavação no Egito, onde eles passavam parte do ano. Os dois combinavam, tinham muitos interesses em comum. Durante a Segunda Guerra, Max trabalhou na terra dos faraós e Agatha mais uma vez tornou-se voluntária do esforço de guerra, num hospital onde aprendeu sobre drogas e venenos.

A semana mais concorrida da tevê britânica é a do natal. As emissoras investem pesado. No final do ano passado, uma nova versão de ‘And then there were none’ (baseado no livro ‘Os dez indiozinhos’, em português), foi a série de ouro, a que bateu os recordes de audiência. A BBC mandou muito bem no drama em três partes. Acertou na escalação dos personagens, com o ator Aiden Turner (o bonitão da hora) no papel de um dos convidados para uma reunião sinistra numa ilha isolada. O ator apareceu enrolado numa toalha numa das cenas. Os puristas e os puritanos chiaram. Estão querendo sexualizar Agatha Christie, eles acusaram.  Deu ibope, devo dizer.

 

 

O ator Aiden Turner que anda arrancando suspiros aqui na Ilha

 

Escritores como Agatha Christie ajudam a popularizar a língua e a cultura inglesas. Ela é a terceira autora mais vendida no mundo. Só perde para a bíblia e o conterrâneo Shakespeare. Seus livros venderam mais de um bilhão de cópias em inglês e outro bilhão traduzidos para 44 idiomas. Ela morreu aos 85 anos. Agora em janeiro, esta Ilha está relembrando os 40 anos de sua morte.

 

Mas o primeiro-ministro David Cameron anda mais preocupado com o inglês que não se fala por essas bandas de cá. Segundo ele, 38 mil mulheres mulçumanas vivem neste país sem falar inglês e outras 190 mil comunicam-se muito mal na língua de Christie. Por isso, ele anunciou esta semana que as mulheres, que vivem aqui com visto de esposa, terão, a partir do meio do ano, dois anos e meio para aprender a língua nativa. Se não passarem no teste, correm o risco de serem deportadas. Bye-bye, tchauzinho. Ele prometeu ainda que o governo vai criar um fundo de vinte milhões de libras para bancar as aulas de inglês para os novos moradores desta Ilha.

 

Tudo muito bom, tudo muito bonito. Integração é importante. Vital mesmo. Sem falar inglês, fica difícil arrumar um emprego decente e principalmente receber uma remuneração digna. Sem trabalho, essas pessoas empobrecem, recorrem aos benefícios do governo e cria-se um círculo vicioso difícil de quebrar. Isso é consenso entre todos os partidos. O problema é que o primeiro-ministro deu a entender que as mulçumanas se tornam presa fácil dos radicais, quando não conseguem se comunicar e se adaptar à cultura local. Aí ele enfiou o próprio pé goela abaixo.

 

Para começar, ele estigmatizou as mulçumanas. Há imigrantes de todas as partes do mundo vivendo aqui: islâmicos, judeus, cristãos, budistas e ateus. O desconhecimento da língua é problema para todos eles. Além do mais, não existe nenhuma evidência de que não falar o idioma deixe quem quer que seja mais vulnerável ao radicalismo islâmico.

 

No entanto, David Cameron acertou, ainda que politicamente incorreto, quando disse que em muitas famílias vindas de sociedades patriarcais, onde o homem tem a última palavra, as mulheres são proibidas pelos próprios maridos de aprender inglês. Essa história é bem contada no livro Brick Lane, da escritora Monica Ali. A personagem principal do livro se muda para Londres, casada com um homem que não conhecia e ele não quer que ela estude inglês. O problema é que não dá para se falar honestamente sobre o tema. Ou se é visceralmente contra os mulçumanos ou eles são tratados como se precisassem ser enrolados em um cobertor macio, para que não se machucassem. Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar…

 

As promessas de Cameron renderam muitas manchetes nesta semana. Cá para nós, o que ele fez foi um ato de politicagem para inglês ver e achar que ele está atacando o que os eleitores consideram um grande problema: a imigração. Primeiro, esse governo (do partido Conservador) despiu o santo: ano passado cortou 40 milhões de um fundo com nome diferente que pretendia, adivinhe só; ensinar inglês aos imigrantes. Agora está vestindo o santo só com as roupas de baixo com a oferta de 20 milhões. Ganhou espaço na mídia, ficou bem na foto e ainda embolsou vintinho. Thank you very much!

 

 Há alguns anos, quando entrei com o processo para conseguir a cidadania britânica, tive que fazer uma prova sobre os modos e costumes locais. Notei que no livro texto havia várias referências aos direitos da mulher, como o de votar e o de se candidatar a um cargo público por exemplo. Posso apostar que não foi por acaso que o tema foi incluído no material. Este país recebe imigrantes de todas as partes do mundo, incluindo lugares onde a mulher não tem muitos direitos civis garantidos. Investir na integração destes novos habitantes ajuda sim no combate à pobreza e na criação de uma sociedade mais ampla e coerente. Entretanto, é preciso bem mais do que manchetes sensacionalistas que aguçam ainda mais a islamofobia naqueles que já têm dificuldades em aceitar mudanças.

 

Agatha Christie teve uma vida que vale muitos romances. O que ela vivenciou e os lugares que visitou influenciaram sua obra e seus personagens. Quando criou o famoso Hercule Poirot durante a Primeira Guerra Mundial, a Inglaterra recebia muitos refugiados belgas. Agatha era uma grande observadora de seu tempo. Fico imaginando que histórias a dama dos livros de detetive escreveria aqui na Ilha no começo deste novo milênio.

4 comentários em “A Língua de Agatha Christie

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