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Dani Costa é jornalista por profissão e mãe de pets por amor. Sempre antenada para trazer notícias quentinhas sobre a bicharada. Ativista contra os maus-tratos a animais domésticos, silvestres e exóticos.

Programa Vila Viva, da Prefeitura de Belo Horizonte, vira foco de abandono de animais

Encontrada na Avenida Senhora do Carmo, a cadelinha Sol é mais uma das vítimas do abandono próximo às vilas. Foto: arquivo pessoal

 

Para quem utiliza diariamente a Avenida Senhora do Carmo, na região centro-sul da capital mineira, é cada vez mais comum ver animais perambulando às margens da via, a maioria deles famintos e doentes. Muitos acabam sendo atropelados, outros, como a cadelinha Sol, tem a sorte de ser socorridos a tempo. Encontrada no início deste mês, próximo ao Supermercado Epa, foi resgatada em péssimas condições, com o corpo coberto de pulgas, carrapatos e feridas. Hoje se recupera em uma clínica veterinária. “Quando nos deparamos com um ser vivo naquelas condições, não tivemos coragem de simplesmente ignorar e seguir em frente”, diz a gerente administrativa, Solange Rabelo. “Buscamos a ajuda de amigos para unir forças e pagar  o seu tratamento”, diz. Um dos motivos para o alto índice de abandono de animais na região,  seria a implementação do programa Vila Viva, da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), atualmente o maior projeto de urbanização do Brasil. Tido como exemplo de organização de vilas e favelas, não contempla nenhuma ação de política pública de manejo populacional ético de cães e gatos. Seja por falta de informação ou opção, seja pela falta de espaço ou mesmo pela convenção dos próprios condomínios, muitos moradores deixam os animais de estimação para trás ao se mudarem para os conjuntos.

Ex-morador do Morro do Papagaio, o advogado Luiz Carlos Moreira da Costa, de 59 anos, lembra que, quando ainda era menino, as famílias tinham pequenos quintais onde criavam seus bichos, entre eles, porcos, galinhas e cabritos. No livro Assim Era a Minha Favela, lançado em 2018, ele fala sobre as transformações sofridas pela comunidade ao longo dos anos. “Realmente, existe uma incompatibilidade do Vila Viva com a realidade das famílias, especialmente no que se refere aos animais. Até mesmo por que muitas delas têm vários deles”, comenta Luiz Carlos.  A área residencial do Santa Lúcia conta com 588 unidades habitacionais e os moradores já vivenciam o problema. Residente da comunidade há 40 anos, a faxineira Maria Aparecida Afonso, de 49 anos, tem tentado diariamente auxiliar os inúmeros animais abandonados que surgem na sua rua. “São cães e gatos de todos os jeitos, inclusive de raça. Aparecem famintos e assustados e muitos deles já chegam doentes. Fora os que já vivem aqui nas ruas. Sabemos que uma boa parte tinha dono e que eles se mudaram para os ‘predinhos’ [sic] e os deixaram para trás”, diz a moradora. Segundo ela, não existe nenhum programa de castração gratuita na comunidade e muito menos alguma parceria dos órgãos públicos com ONG’s para realizar o remanejamento desses animais, prestar os cuidados veterinários necessários e encaminhá-los para adoção. “O máximo que vi foi a Zoonoses [de BH] recolher alguns que estavam doentes, mas não sei qual foi o destino deles”, comenta Maria Aparecida Afonso.

Para Adriana Araújo, coordenadora do Movimento Mineiro pelos Direitos dos Animais (MMDA), essa é uma realidade antiga, contestada há anos pelos grupos de proteção. “Apesar do Vila Viva ser um projeto excepcional quanto à questão social, é extremamente grave quanto ao descaso com os animais, pois acaba estimulando o abandono”, afirma a ativista. De acordo com ela, a única solução para o problema seria a PBH cumprir a Lei 21970, de 2016, e realizar todas as ações que constituem a política pública de manejo no que se refere à conscientização populacional; guarda responsável; castração; campanhas de adoção e punição para os maus-tratos.

Falta de espaço nos apartamentos construídos pela PBH e de manejo populacional ético de cães e gatos, são os principais motivos para o crescente abandono de animais. (Foto: Google Earth/Reprodução)

O que se vê, na prática, é que a política municipal de habitação popular de vilas e favelas, implantada em BH, sob gerenciamento da Companhia Urbanizadora de Belo Horizonte (Urbel), explicita o conflito entre as determinações do estado e a realidade da  sociedade civil. “Como ignorar o destino de tantos animais? Não adianta fazer um projeto pela metade. Tanto a fauna quanto a flora também são responsabilidades do estado”, reclama Adriana Araújo, do MMDA.

Segundo a Urbel, não há restrição por parte da companhia no que se refere à presença de animais nos conjuntos habitacionais. Existe, no entanto, o regimento interno dos conjuntos, discutido e aprovado pelas famílias durante o processo de remoção. “Algumas famílias, mesmo com a permissão explícita, não desejam levar os seus pets. Neste caso, orientamos sobre a adoção e sobre o não abandono”, informou a assessoria do órgão. Para a auxiliar administrativa Gisele Maria Conceição, a questão é de saúde pública. Moradora do bairro Vila Paris, localizado próximo à barragem Santa Lúcia, ela auxilia vários animais que descem o morro em estado deplorável – alguns portadores de zoonoses como leishmaniose e sarna. “Em dada ocasião, um deles tinha sido atropelado às 8h da manhã e, quando soube da situação, às 16h, ele ainda agonizava. Estava com as patas e o focinho quebrados. Imagino a dor que sentiu até ser socorrido”, conta Gisele. A inexistência de hospital público veterinário em todo o Estado, inclusive em Belo Horizonte, agrava ainda mais a situação, considerando que os custos em clínicas são altos e nem todos têm condição de pagar.

Fonte:

https://www.revistaencontro.com.br/

2 comentários em “Programa Vila Viva, da Prefeitura de Belo Horizonte, vira foco de abandono de animais

  1. Muitos pessoas abandonam porque vêem os animais como coisas e não por falta de dinheiro.
    Se não houver castração em massa dos animais nas ruas e nas residências, esta triste realidade continuará a mesma.
    A PBH só se preocupa em dar moradia para os humanos os animais que se danem.
    Não tem campanha sobre castração, não tem cartazes sobre castração nos postos de saúde, não tem informações nas mídias e nem conscientização da população.
    Conheço pessoas adultas e com ótimo nível escolar que me perguntaram se podia castrar cães machos, se fazia mal castrar cadela porte pequeno, se é perigoso castrar e se precisar ter a primeira cria pra castrar.
    As pessoas não sabem nada a respeito.

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